Cadeira 10 - Vólia Loureiro do Amaral


Vólia Loureiro do Amaral Lima, paraibana, natural de Campina Grande, atualmente reside em João Pessoa, Engenheira Civil , poetisa e romancista. Autora das Obras: Aos Que Ainda Sonham ( poesia -2012), Onde As Paralelas Se Encontram (Romance espírita - 2014), As Rosas Que Nascem No Asfalto (poesia- 2015). Participou dos concursos : II Prêmio Licinho Campos de Poesias de Amor (2013) tirando menção honrosa com o poema Amo-te e o II Concurso Sensações Facebook (2013) ficando em 2º lugar, com o poema Estrela D'Alva. Participou das coletâneas: Poesia e Prosa do Castelo Literário, Natal do Castelo Literário. A autora é também expositora espírita, facilitadora de ESDE/EADE. Aproveitando o dom da poesia , divulga o Evangelho Segundo o Espiritismo no facebook através da página Evangelho em Versos (www.facebook.com/evagelhoemversos).



POEMA DESASTRADO
Vólia Loureiro

Fiz um poema desastrado,
De rima torta ,
De versos brancos,
De letra morta.

Fiz um poema desastrado
Saído de um coração cansado.
Escrito assim em papel velho,
Nas horas vazias do dia.

Fiz um poema desastrado,
A falar do amor antigo,
A lembrar do abraço amigo,
De quem quer estar contigo.

Fiz um poema desastrado,
Que nasceu fora do tempo,
Escrito fora de hora,
Enquanto chovia lá fora.

Fiz um poema desastrado,
Em desabafo de alma sofrida,
Era só um devaneio,
Leitura pra ser esquecida.

Fiz um poema desastrado,
Que não queria falar de amor,
Tentei versejar outros versos,
Mas só sabia escrever o quanto te amo.


FALANDO DO SILÊNCIO
Vólia Loureiro

Falo do silêncio das palavras ditas,
Quando tudo o que resta é a voz do olhar
E as palavras caladas sussurram ao ouvido,
Como os pios de coruja na madrugada solitária.

Falo de tudo o que foi dito,
Como palavras mastigadas de mentiras,
Com verbos amargos de sarcasmos.
E a boca contida na surdez do diálogo.

Falo do silêncio das horas mortas,
Dos verbos contidos e contritos.
Da bruma espessa da arrogância
Que sufoca o sentimento.

Falo do silêncio do adeus.
Formado de vagas e vácuos de lágrimas.
E de rostos que se tornam fantasmas
No espaço-tempo da memória.

Falo de um silêncio de alma.
Falo de abismos sem pontes,
Falo de sonhos quebrados.
Falo de ti e de mim.


TENHO MEDO QUE ME MORRA A POESIA
Vólia Loureiro

Tenho medo que me morra a poesia,
Quando em meu peito,
O coração parece morrer,
Negando-se a pulsar.

Tenho medo que me morra a poesia,
Quando meu espírito se esconde,
E adormece sem sonhar,
Porque os sonhos estão distantes.

Tenho medo que me morra a poesia,
Porque a alma ferida é como um pássaro ,
A quem se retirou o direito de cantar,
E as asas já não sabem voar.

Tenho medo que me morra a poesia,
Quando sei que não estás mais aqui,
Quando tudo o que ficou,
Foi o eco do teu riso a me assombrar.


RECADO
Vólia Loureiro

Cansei-me do cinza das pessoas vazias
Cansei-me do monocromatismo.
Vazio de luz, vazio de esperança.
Cansei-me de quem só enxerga a própria dor
E no silêncio constrói seu ego-mundo.

Quero mais é a canção da Primavera,
E ver as cores nos risos humanos,
E ver as dores compartilhadas,
De quem espera um afago,
De quem não teme o amor desapegado.

Quero mais é sorrir com a vida
E fotografar as almas luminosas
Com pensamentos floridos
Deixando leveza e suavidade.

Perdoe-me a dor,
Mas o inverno se foi
E eu por agora sou riso e flor.


NÔMADE
Vólia Loureiro

Não vago por aí ao acaso,
Como folha seca ao sabor do vento.
Caminho como nômade
A perceber da vida o seu elemento.

Há que se admirar dos pores do sol,
Há que se inalar das flores o perfume,
Há que sorver do vinho o sabor,
Há que se sentir o macio do veludo.

Não navego por aí à deriva,
Como nau prestes a naufragar,
Navego como nômade,
A sonhar com novos mares.

Há que se aprender a linguagem da alma,
Há que se ensinar o mapa do tesouro,
Há que se sonhar novos sonhos
Há que se viver grandes emoções.

Sou alma nômade,
Que viaja pelos sonhos,
Que, vez em quando, precisa de silêncio e espaço,
A fim de que possa ouvir a sua própria melodia.

Sou alma nômade,
Que parte sem aviso,
Quando é chegada a hora,
Pois precisa navegar.

Mas não me olhes com olhos de inverno,
Porque tudo na vida é ciclo, é estação...
Deves me querer com a esperança da madrugada
Quando espera pelo novo dia.
E ao retornar, teremos belos dias de verão.


LEVE
Vólia Loureiro do Amaral Lima

Ultimamente, tenho estado assim,
Leve...
E as brisas me levam,
Qual se eu fosse uma pluma,
A viajar tão distante.

Acho que meu olhar denuncia,
Que minha alma é pura alegria.
E essa leveza d'alma me faz sorrir,
E ver cores, flores...
Assim, simplesmente.

Eu canto com a brisa,
E o raio de Sol me tira para dançar,
E saio por aí,
Espalhando amor em versos.

Será loucura? Quem sabe?
Que importa!
Acho que amar a vida,
Nos deixa assim: loucos.

E que essa loucura santa permaneça,
E a poesia me pegue pelo braço,
E, com ela, eu cante e dance,
Todas as canções de amor,
Sorrindo, pela madrugada,
Assim... Leve.

28/05/2014


O OLHAR DO POETA
Vólia Loureiro

Indagas-me por que trago o olhar tristonho,
De alguém que na vida sofreu mazelas,
De quem sobreviveu às procelas
Mas, de tanto chorar perdeu o sonho.

Digo-te, não me estranhes o olhar,
A tristeza é companheira dos poetas,
Vem como doce melancolia,
E nos deixa no olhar aquele tom de nostalgia.

Indagas-me por que razão a tristeza me tisna o olhar,
Seria alguma paixão proibida?
Seria um sonho desfeito?
Que razão eu teria para carregar tal dor no peito?

Digo-te, não me estranhes o olhar injucundo.
O olhar de um poeta não fala apenas de si,
É um olhar que perscruta a vida,
Capta as emoções e belezas,
Revolta-se com a maldade e a vileza,
E transparece toda dor do mundo.

08/05/2017


CASO DE AMOR
Vólia Loureiro
Vou-lhes confessar um segredo...
E o faço com liberdade,
Arcando com a responsabilidade,
Declaro-me à sociedade,
Sem nenhuma culpa ou medo.

Vou-lhes contar meu segredo:
Eu tenho um caso de amor,
Faz tempo que isso acontece,
Essa situação permanece,
Eu declaro sem temor.

Esse caso é tão explícito,
Não há como disfarçar,
Com ela eu sonho acordada,
Por ela, eu sei, sou amada,
Ela é a culpada do brilho em meu olhar.

Penso nela o dia inteiro,
Ela me tem sempre que quer,
Arrebata-me a qualquer hora,
A ela eu me entrego inteira,
Sem pudor e sem demora.

Confesso que nunca tive
Um caso de amor assim,
Por ela eu enfrento tudo,
Entrego-me de coração desnudo,
Para essa paixão sem fim.

Espero que nunca acabe
Esse meu caso de amor,
Pois ela é a minha vida,
Meu sonhar, minha alegria.

E confessando seu nome
Declaro sem nenhum temor
O seu nome é poesia.
Esse é meu caso de amor.
29/10/2015.


BOM HUMOR
Vólia Loureiro

Hoje eu acordei sorrindo...
Não lembro do que sonhei,
Nem se algum anjo soprou
Alguma brisa de alegria em mim,
Mas hoje eu acordei assim.

Vi o sol entrar pela janela,
E as nuvens que passavam ligeiras,
O céu ainda não está azul,
E o mar resolveu de prata se enfeitar.

E tudo me pareceu tão lindo,
Tudo em seu devido lugar,
Ouço o barulho da cidade despertar.

Hoje acordei sorrindo,
E vou esticar essa alegria,
Esse desejo de ver a vida passar.

Hoje só quero ser,
Sorrir, fluir,
Sonhar, deixar a vida passar.


MEDO E DESEJO
Vólia Loureiro

Você tem fome de quê?

Fome de comer.
O pão de cada dia,
Recheado de patê?

Você tem fome de quê?

Fome de ser ou de ter?
Fome de amor ou de prazer?
Fome de contemplar ou de reter?

Você tem sede de quê?

Sede de voar ou de se prender?
Sede de plantar ou de colher?
Sede de se achar ou se perder?

Você tem fome, você tem sede...

Você bebe, você come,
Você se embriaga ou se indigesta?
Você se contém ou se consome?

Você tem sede, você tem fome...

Você beija, você abraça ou o carinho é coisa sem graça?
Você faz sexo por amor ou por fome?
Qual a tua sede? Qual a tua fome?

Você ouve a música e sua alma dança?
Ou prefere se esconder por trás de uma carranca?
Você sorri e ainda sabe ser criança,
Ou acha melhor dizer que o mundo é sem esperança?

Você tem fome, você tem sede, você tem medo...

O que você busca? O que você sonha?
Qual o seu mais intenso desejo?
O que lhe enlouquece? Qual o seu segredo?
O que lhe causa tanto medo?

Você é humano...
Você é divino.
É todo medo e desejo.

25/02/2017


DESENHOS
Vólia Loureiro

Eu costumava te desenhar
Nas folhas de papel em branco.
Eu traçava o teu rosto,
Com traço forte e firme.

Sabia cada detalhe,
A angulação da face,
O formato dos olhos,
A testa alta e bela,
Os lábios perfeitos,
O caimento do cabelo.

Eu poderia te desenhar de corpo inteiro,
Porque tua figura morava na minha memória.

Eu sabia de cor
O tom certo para a tua pele,
Que matiz daria o brilho dos teus olhos,
E o reflexo do teu cabelo me encantava pintar.

Mas o tempo foi passando,
E eu fui perdendo as folhas de papel,
Que já não garantiam a fidelidade
À tua imagem real.

O tempo foi passando,
E as tintas que eu usava perderam o tom
Esmaeceram...
Eu já não divisava mais os vários matizes,
Para saber o brilho do teu olhar.

O tempo foi passando,
E o meu traço ficou trêmulo,
A minha mão sem destreza,
Já não sabia te lembrar com certeza.

E só o que traço agora é a pobre garatuja
Daquilo que representa a minha saudade.

13/01/2017


JOGO
Vólia Loureiro

Faça seu jogo,
Escolha as suas cartas,
Aposte as suas fichas,
Dê seu lance.

Arrisque-se,
Blefar não é proibido,
Mas jogue limpo,
Siga às regras.

Procure adivinhar o próximo lance,
Esteja pronto,
Conheça as regras.

Eu já joguei os dados,
Eu já dei as cartas,
Jogue o jogo!


UM MUNDO PURO
Vólia Loureiro

Eu conheço um mundo puro,
Que mora dentro de mim.
Um mundo onde o ar é mais leve,
Onde a água do regato é limpa,
Onde o adeus é até breve...

Eu conheço um mundo puro,
Onde a palavra amizade é inteira,
Onde o olhar conta tudo,
Onde a confiança é verdadeira.

Eu conheço um mundo puro,
Onde o abraçar alguém é só carinho,
Onde saudar o outro é uma forma de cortesia,
Onde enxergar o próximo é obrigação de todo dia.

Eu conheço um mundo puro,
Onde admirar nem sempre é querer possuir,
Quando se colhe uma rosa ela morre,
Melhor apenas admirar e deixá-la seguir...

Eu conheço um mundo puro,
Onde os passos são certeiros,
Onde não há descaminhos,
Onde amar é querer o bem do outro,
Sem nenhum interesse mesquinho.

É nesse mundo que eu transito,
Perdoem-me, do mundo sujo me desvio.
Não gosto de desconfiança,
Nem de julgamento apressado,
Não sou de meias palavras,
Meu verso é puro e dosado.

Se sou louca?! Assim seja!!!
Quero permanecer nessa loucura insana!
Pois passo pelas serpentes e elas me lambem os pés,
Tenho asas, voo acima da maldade humana.

Se me derrubarem? Ergo-me novamente.
Não abro mão da minha verdade,
Não abro mão da minha alegria,
Vivo na minha pureza de alma,
Quem não compreender que se atormente...

28/11/2016.


SER POETA
Vólia Loureiro

Ah, vez em quando a alma se inflama,
E arde de forma intensa,
A comburir-se na lágrima de emoção.
A vida mais parece um mundo em ebulição.

Vez por outra, a alma se enternece,
E derrama-se de ternura,
A deslizar na emoção mais pura,
A vida mais parece um mundo de doçura.

Vez por outra, a alma folga inteira
E derrama-se de jovialidade verdadeira,
A vibrar na mais pura euforia.
A vida mais parece um mundo de alegria.

Vez por outra a alma se entristece
E derrama-se no mais profundo desalento,
A morrer em atroz abatimento.
A vida mais parece um mundo de tormento.

O que fazer com uma alma assim tão nua?
Tão declaradamente sensível?
Tão profundamente susceptível?
Tão abertamente frágil?

A solução é derramar-se em poesia,
Para que as emoções não me sucumbam a alma,
Para que a alma possa voar e respirar.
Esse é o destino de todo poeta,
Escrever para não morrer.

20/01/2016


GRITO CALADO
Vólia Loureiro

Ando com um grito calado,
Que há tempos quer soar,
Quer sair do peito,
Ganhar espaço, voar.

Ando com um grito calado,
Um poema inacabado,
Que há tempos quer sair do papel,
Juntar-se a outros versos e virar canção.

Ando com um grito calado,
A me sangrar o coração...

Qualquer dia ele vai ganhar voz.
Qualquer dia ele vira uma canção.
Qualquer dia vira poema
E vai encantar o teu coração.

09/10/2016


DUALIDADES

Vólia Loureiro

Eu troco palavras com meu silêncio.
Caminho rumo a lugar nenhum.
Navego célere em mar de calmaria.

Busco o luar na noite do Nadir,
Escondo-me da luz do meio-dia.
Encontro a realidade na fantasia.

Embriago-me na gota dágua,
No vinho encontro lucidez
Sacio-me de nada comer.

Danço sobre minhas lágrimas,
Enfrento a tormenta sem medrar.
Extraio coragem da minha tibiez.

Sou feita de antíteses,
São muitos os contrários,
São tantos os mistérios.

Que vez em quando,
Quedo-me a buscar em meus escaninhos,
Onde foi que perdi a chave de mim.

27/09/2016


POESIA INACABADA
Vólia Loureiro

Era para ser apenas uma canção,
Apenas mais um poema,
Desses que a gente escreve
Numa noite de verão.

Era para ser apenas um verso...
Qual a pequena borboleta que beijou a flor
E partiu para outros jardins
A se embriagar de néctar.

Era apenas a madrugada que se insinuava
Diante da longevidade do dia.
Mas o encanto ficou,
Deixou seu cheiro, seu gosto.

Eu permaneci encantada,
Tentando decifrar teu mistério,
Tentando encontrar a rima,
Tentado compor, da canção, a última nota.

E o dia se findou em céus de ouro
E eu fiquei a procurar nas conchas do mar,
Nas estrelas do céu, no negrume do teu olhar,
A rima correta, o último verso,
Para essa poesia inacabada.

09/09/2016


RETALHOS
Vólia Loureiro

Fiz um poema de retalhos,
De lembranças estratificadas,
De restos de sonhos,
De resquícios de passado.

Fiz um poema de retalhos,
De velhas fotografias de antigo álbum,
De estórias contadas à beira do fogo,
De velhas canções já não cantadas.

Fiz um poema de retalhos,
Tentando repaginar o antigo,
Tentando revisitar a memória,
Tentando recontar a mesma estória.

Fiz um poema de retalhos,
E nele havia pedaços de ti,
E também traços de mim,
Porque o poema ainda falava de amor.


A VOZ DO VENTO
Vólia Loureiro

A voz do vento me fala
Que é tempo de partir,
Deixar para trás o inverno
E sonhar com a primavera
Que há de vir.

A voz do vento me canta
Canções de rara beleza,
Levando-me a voar em seus braços,
E sob a força do seu abraço
Eu esqueço as incertezas.

A voz do vento gira sobre mim
E me convida a dançar,
E na maciez da sua valsa
Eu encontro novamente a alegria,
E o vento traz-me de volta
A minha perdida poesia.


AS ESTRELAS
Vólia Loureiro do Amaral Lima

Não conheço mais
Os caminhos por onde andas,
Já me perdi da tua rota,
E as flores que vemos,
Não são as mesmas.

Mas as estrelas...
Ah! As estrelas!
Continuam as mesmas,
A nos vigiarem do infinito.
As mesmas que olhávamos.

Não sei se um dia,
A tua estrada vai cruzar
Com a minha, outra vez.
Tudo parece distante,
Díspar e blasé.

Mas as estrelas...
Ah! As estrelas!
Continuam as mesmas,
A guardarem os segredos,
Que um dia nos confiamos.

Não sei se ainda lembras,
Da cor dos meus olhos,
Do som do meu riso,
Do aroma do meu cabelo.
O tempo apaga as pegadas.

Mas as estrelas...
Ah! As estrelas!
Continuam as mesmas,
A cintilarem os sonhos,
A testemunharem um triste poema do que
Um dia, foi uma história de amor.


EQUINÓCIO
Vólia Loureiro

Nem Sol, nem Lua,
Nem Sul, nem Norte,
Nem noite, nem dia,
Somente o equinócio da minha fantasia.

Equilíbrio,
Ventos brandos que sopram
Brisas leves,
Manhãs radiosas,
Tardes douradas de primavera.
E nesse equinócio a alma reverbera.

Amores suaves,
Toques sutis,
Beijos roubados,
Segredos assoprados ao vento.

É primavera.
Tudo transpira prazer,
Tudo floresce agora
Para amanhã frutescer.


VOYEUR
Vólia Loureiro

Ela costumava ir à janela todas as tardes, apenas para lhe espiar.
Gostava de ver seu passo leve, sentir o seu cheiro , que era tão particular. Era um cheiro de mato, de erva orvalhada...
Ela sonhava com o som da sua voz, quente e aconchegante. Havia ouvido poucas vezes, mas não mais esquecera.
Por isso, todas as tardes, ela ia para a janela, apenas para espiar a sua amada figura. Sentir-se perto, mesmo que tão distante...
Ele tinha um jeito só seu, incomparável. Ela se sentia tão pequena diante dele.
Ele não a notava, passava por ela quase a esbarrar, mas não lhe pressentia a figura. Apenas uma vez lhe dirigira o olhar, e foi como se o mundo tremesse, ela jura que, nesse dia, o céu mudou de cor. Mas passou... Foi rápido como uma lufada de vento.
Ele vive perdido em um mundo impenetrável, esconde-se atrás de muros, atrás de medos, atrás de lentes. Ela é poesia, simplesmente.
Ele se agarra às dores do passado, ela sorri para as flores do futuro.
Ele parece secular como um carvalho, ela é noviça como um miosótis.
Ele e ela, mundos tão distantes...
Ainda assim ela perdeu-se de amor. Amor impossível, bem sabe.
Por isso ela vai à janela, apenas para lhe espiar.
O tempo vai passar, a vida vai passar e quem sabe...
Talvez, um dia ele a olhe e perceba que fora de seu mundo voyeur há vida...
Talvez, ela se canse da paisagem e deixe a janela, ficando em seu lugar apenas a poesia.


ALGUM MOTIVO PARA A ROSA
Vólia Loureiro

Antes, era só a rosa e o céu,
Que sobre ela se derramava inteiro.
Antes era só um céu de janeiro...

E passou o tempo,
Passou o mês inteiro,
E o céu permanecia em lugar primeiro.

E era sempre o céu,
Às vezes azul, outras, mudava de tom.
Dourava-se, escurecia-se
Pintava-se de estrelas.

Todavia, era apenas a rosa e o céu.
Até que um dia veio a nuvem,
E sobre a rosa choveu.
E, por um instante, o céu se escondeu.

E a rosa, por fim, compreendeu,
Que entre ela e o céu,
Havia também um universo infindo
De promessas.

29/05/2017


BORBOLETINHA
Vólia Loureiro
Que alegria é te encontrar
Pequena borboletinha,
Assim faceira e bonitinha
A borboletear pelo meu jardim.

Beijas as flores,
Provando-lhes o néctar,
Rivalizas com os colibris,
A beleza de tuas cores.

Vez por outra,
Pousas em tênue galho,
E o meu mundo inteiro te pertence.
Em fotografia busco capturar-te,
Eternizando-te em meu olhar para sempre.

Depois voas...
Vais em busca de outros jardins,
Eu, poeta, trago-te na alma,
E contigo voo para os confins.
Porque versejar é voar de flor em flor.

23/05/2017


AMOR
Vólia Loureiro

Não sei se te conheço...
Acho que és um menino arteiro,
Às vezes, de mim te escondes,
Outras, me és companheiro.

Às vezes, acho que te conheço...
Encontramo-nos algumas vezes,
Pelas esquinas da vida.
E a cada vez que me encontraste,
Foi diferente a lição aprendida.

Vejo-te em tantos lugares,
Encontro-te em múltiplas faces,
Por momentos me atrais,
Em outros, de ti sinto medo,
Há momentos outros que me sinto de ti apartada
Em doloroso degredo.

Há quem ache que maltratas,
Que, em verdade, és vilão.
Mas, isso é para quem te confunde
Com a doença da paixão.
És brando, és doce, és terno,
Enquanto quiseres durar,
Serás eterno.

É bem verdade que trazes o riso,
Mas podes a lágrima causar,
Quem te conhece sabe do risco,
Mas é tão gostoso amar!

Talvez, por não te conhecer de todo,
Eu não te compreenda a verdadeira existência.
És o sopro do Criador,
És a sua verdadeira essência.

Cabe-me apenas conhecer-te,
Decifrar-te,
Perseguir-te
Sonhar-te,
E, dentro do meu eu, encontrar-te.

25/04/2017


POR TRÁS DA NUVEM
Vólia Loureiro

Ela era apenas uma pequena estrela,
Entre muitas perdidas no infinito céu.
Brilhava por brilhar,
Assim, sem motivo, sem razão.

Ele era apenas um poeta,
Entre muitos perdidos na Terra.
Rimava por rimar,
Assim, sem motivo, sem razão.

Um dia, nas suas romagens,
Caminhando pela solidão,
O poeta olhou para o céu
E viu a estrela na amplidão.

A estrela, lá de cima,
Também o poeta notou,
Entre a multidão caminhante,
E dos seus sonhos se tornou amante.

Poeta e estrela amor eterno juraram
E, por longo tempo, para ele ela brilhou
Ele, também apaixonado,
Versos para ela criou.

Todavia, o poeta à estrela não foi fiel,
E para um reles cometa voltou sua atenção.
Esqueceu-se da pequena estrela,
E lhe partiu o coração.

A estrelinha ferida,
Seu brilho quase perdeu,
E deixar de amar o poeta assim ela resolveu.
E para deixar de vê-lo, em uma nuvem se escondeu.

Agora o poeta anda sem seu brilho a lhe guiar,
O cometa foi-se embora,
Partiu logo, sem demora.
E o poeta sem poesia, até hoje ainda chora.

28/03/2017


O TEMPO QUE NÃO PASSA
Vólia Loureiro

Louco é o relógio do tempo,
Que de forma mordaz
Conosco vive a brincar.
Pois, voa como águia
Nas horas de prazer.
E nas horas de dor,
Cisma em não querer passar.

O tempo resolveu brincar comigo.
Aprisionando-me entre os desvãos dos seus segundos.
Aqui me encontro, em sonho torto.
A sofrer toda dor do mundo.

E como se locupleta com minha lágrima...
Faz questão de tiquetaquear
Cada detalhe da minha dor.
Parece que o tempo zomba
Daquele que sente amor.

Ah tempo, não te percas em mim!
De uma forma ou de outra passarás.
E tudo o que sabes fazer é esquecer, apagar.
Eu, de minha parte, te sofro,
Mas, diferente de ti, eu não passo,
E nada quero abandonar.
Porque tudo o que mais desejo
É um amor que dorme despertar.

14/02/2017


ATEMPORAL
Vólia Loureiro do Amaral Lima
Era no tempo,
Em que não se contava o tempo.
Era tudo agora, eternidade,
Momento.

E o meu sonho se confundia no teu,
No tempo que não passava,
E a vida vagava,
Nas vagas dos beijos consentidos.

Era como se fosse para sempre primavera,
E tudo era quietude, quimera,
E a preguiça de uma tarde quente,
Amolentava o corpo indolente.

E tudo era tão puro...
Não havia dor, nem pecado.
Havia apenas o sorrir,
E o passar das nuvens
Num céu de brocado.

Porém, veio a procela,
E tingiu de dor,
Com as tintas sanguíneas
Da indiferença e maldade.

E do tempo que não era tempo,
Da doce alegria que nos embalou,
Ficou apenas o silêncio,
E um eco na alma, chamado saudade.


AVENTURAS NÁUTICAS DE UM BARQUINHO POETA.
Vólia Loureiro

Eu era barco ancorado
Até que na surpresa de um dia,
Um vento leve me tragou
Daquele porto seguro,
E eu segui ao seu sabor.

Deixe-me levar a barlavento,
E seguiria assim,
Perseguindo as belas auroras,
Dançando com as gaivotas.

Mas, eis que ouço o grito do Albatroz:
Tempestade à vista!
E eu, pequeno barquinho,
Fui tragado por um vento feroz,
Que quase me põe a pique...

Foram dias de tormenta,
Eu lutava bravamente para manter-me
Em condição de flutuar.
Tantas vezes adernei,
Rodopiei sem rumo.
Quase a naufragar.

Por fim, o mar se fez calmo...
Eu timidamente me aprumei,
E soprava uma brisa macia,
Sussurrando para mim:
Vem poeta! Vem de novo navegar!
E o céu era de um azul tão infinito,
Céu de turmalina a me conquistar.

Eu então, vou navegar,
Ainda com algumas avarias,
Mas de espírito liberto.
Vou sem planos,
Apenas deixando-me levar,
Pela doçura de algum céu azul.
Que me leve novamente a sonhar.

03/11/2016


SAGRADO
Vólia Loureiro

Posso te sonhar,
Nada mais que isso...
Posso apenas vislumbrar teu ser,
Como quem olha através de um véu.

Posso te imaginar,
Não devo ir além disso...
Posso apenas adivinhar-te o cheiro,
Como a abelha entre as flores, na busca do mel.

Posso te pressentir,
Não ouso mais que isso...
Posso ouvir de longe a tua voz,
Como o vento que arrepia a pele, aquecida pelo Sol.

É tudo o que posso...
Colocar-te no ideal,
No para sempre imaginável,
No inalcançável.

Porque há flores que não devem ser tocadas,
Porque há licores que não devem ser provados,
Porque há perfumes que não devem ser sentidos,
Porque há sonhos... Que ficam guardados,
Naquilo que chamamos de sagrado.

24/11/2016


DESENCANTO
Vólia Loureiro

Que dor é essa
Que me lateja o peito,
Enchendo-me os olhos de lágrimas
Deixando meu mundo sem jeito?

Que tristeza é essa
Que vai além do pranto,
Que me cala o coração,
Tolhendo-me a canção,
Por pura falta de inspiração?

Que dor é essa
Que mata em mim a poesia,
Que me faz contar os dias,
Que faz do tempo uma lenta agonia,
Deixando-me em perene nostalgia?

Ah maldita dor!
Chegaste assim de inopino,
Tomaste-me a alma sem aviso,
E o meu riso leve,
Transformaste em duro siso.

Ah maldita dor!
Ainda chorar-te-ei por uns tempos,
Todavia, amanhã, seguirei,
Enxugarei meu pranto.
E haverás de morrer
Ó triste desencanto!

16/11/2016


ACALENTO

Vólia Loureiro

Hoje eu preciso de acalento,
Preciso encontrar no teu colo
Um novo alento,
Para não fazer da poesia um lamento.

Há dias de céu escuro.
Há dias de silêncio,
Há dias de flores mortas,
Há dias de olhos tristes...

Hoje eu preciso de acalento,
Preciso encontrar um laço,
Nos elos do teu abraço,
Para que eu não me jogue ao vento.

Há dias de sonhos pardos,
Há dias de poucos risos,
Há dias de poemas pobres,
Há dias de rimas poucas.

Hoje eu preciso de acalanto,
Preciso ouvir a tua voz,
Preciso escutar teu canto,
Para que a poesia não se esqueça de mim.

12/10/2016


PARA QUE NÃO ME ESQUEÇAS JAMAIS
Vólia Loureiro

Eu fiz para ti um poema desesperado.
E com tintas de sangue risquei em teu corpo
Toda minha rima, toda minha dor.
Eu fiz para ti um poema de amor.

Eu fiz para ti um poema ousado.
E os nossos sussurros eram rimas,
Derramava-se nele toda paixão,
Era poema gritado pela emoção.

Eu fiz para ti um poema casto,
E de puro lirismo formei a rima,
Inscrevi na tua alma um profundo sentimento,
Era para ti minha oração, meu fundamento.

Eu fiz para ti um poema mágico,
E de puro sonho compus a rima,
Inscrevi na tua alegria toda minha graça,
Era poema cantado de bela fantasia.

Eu fiz para ti todos os poemas,
E ainda escreverei outros mais,
Sejam eles líricos ou carnais,
Sejam castos ou sensuais.

Escrever-te-ei todos os poemas
Da minha alma, do meu desejo
Da minha verve, minha vida
Para que não me esqueças, jamais.

12/09/2016


EU E A POESIA
Vólia Loureiro

Eu e a poesia...
Eu e ela em um longo caso de amor.
Ela me leva em seus braços,
E com sonhos me acaricia.

Eu e a poesia...
Ela me pega pela mão
E leva-me a dançar em um longo pas de deux,
E eu me entrego a sua dança sem senão.

Eu e a poesia...
Nos amamos, somos amantes declarados.
A ela eu entrego todos os meus sonhos
Ela mos devolve em fados.

Eu e a poesia...
Juntas, seguimos amando-nos
Na prosa e no verso.
Construindo assim nosso universo.

Até onde chegará esse caso de amor?
Será minha salvação ou meu fim?
Nada sei.... Nada afirmo...
Só sei com ela mergulho profundo,
E vivemos esse louco romance, em nosso secreto mundo.

07/09/2016