Cadeira 107 Honorário - Nelson Marzullo Tangerini


Nelson Marzullo Tangerini, nasceu o Rio de Janeiro em 21/5/1955. Jornalista, escritor e poeta Memorialista, compositor e fotógrafo Professor de Língua Portuguesa e Literatura Obras: Cidadão do Mundo, Nestor Tangerini e o Café Paris O professor e o poeta Cartas de Carlos Drummond de Andrade a Nelson Marzullo Tangerini Nós desatados, entre outros. 



Lusitânia

à Língua Portuguesa

Além das palavras
é um além-mar,
não é um além-túmulo.


ENIGMA

Por instante transformo-me
em profundo silêncio.
É a minha maneira de estar sozinho;
é a minha maneira de ser outro Pessoa,
outra pessoa
nesta gangorra entre a vida e a morte.
Pessoa me visitou.
Drummond me visitou.
E aqui estou
contaminado,
impregnado
de poesia e solidão.
O amor me beijará no próximo instante,
na próxima poesia, que sobrevoa
meu pensamento translúcido.
Ainda prefiro a dúvida,
porque a luz da vida, assim,
continua acesa.
A mulher não decifra o ser enigmático;
o ser enigmático não se define.
Ou define-se
quando é poeta,
quando delira em estado de poesia.

NELSON MARZULLO TANGERINI


O MENINO DO DEDO VERDE

A Chico Mendes, in memoriam

A natureza cria;
o homem a degenera.

A natureza se regenera;
o homem a degenera.

Queria ser
"O Menino do Dedo Verde"
e fazer brotar sementes
onde o homem queimou
ou devastou.

Plantas nasceriam
entre paralelepípedos,
entre ruínas,
dentro de canhões...

Quebra-pedras; Begônias;
Ervas-pombinhas;
seres humildes
reverdejariam nosso mundo
cinzento.

Eterna luta
entre o poder da criação
e o poder da destruição.

Autor: Nelson Marzullo Tangerini


SOGRA TAMBÉM É MÃE

Nelson Marzullo Tangerini

É antiga a guerra genro x sogra ou nora x sogra. Porque de dois males, no seu entender, dificilmente a gente se livra na vida: coqueluche e casamento, calculou Nestor Tangerini um dos maiores sonetistas satíricos da Língua Portuguesa, que, quando menos esperasse, estaria casado. Por isso, e não compreendendo "como uma sogra pode ser mãe", o solteirão resolveu antegozar a morte de sua "futura megera". O soneto "Ano-Bom", publicado 10 anos antes de conhecer sua futura esposa, a bela atriz de teatro Dinah Marzullo, filha da também atriz - de teatro , cinema, rádio e televisão - Antônia Marzullo, foi publicado no jornal O Fluminense, Niterói, RJ, no dia 1 de janeiro de 1927. Ei-lo:

"Sou à janela, à meia-noite, à espera
de que surja o Ano-Novo ao meu olhar...
Nos fundos, lá num quarto, uma "pantera"
aguarda a morte, que a não vem buscar.

Risonho, alegre como a Primavera,
o Ano-Novo se mostra, a rebrilhar,
nas estrelas de um céu azul-quimera
que nos promete um Ano-Bom sem par.

.........................................................................

Já me havia esquecido a moribunda,
quando uma choradeira desmedida,
se faz ouvir, em grande barafunda!

Falecia-me a sogra... Mais ninguém...
- Pela primeira vez, na minha vida,
um Ano-Bom me começava bem."

Conhecidamente gozador, Tangerini, antevendo sua sogra em cima de uma mesa, escreveria, mais tarde, uma trova devastadora:

"Qual doce pombinha mansa,
deitada aqui muito bem,
a minha sogra descansa
e o genro dela, também."

Antônia, claro, riu a valer da brincadeira. Até porque Nestor Tangerini e Antônia eram muito amigos. E fãs um do outro. Todos eram muito unidos e amigos: Antônia, José, Dinah, Tangerini, Dinorah, Pêra, Maurício, Netinha e crianças. Todos eram artistas e se admiravam mutuamente.
Muitos, porém, achavam estranho haver um Tangerini e um Pêra numa só família.
A revista de humor e sátira carioca O Espêto, de Nestor Tangerini, Aldo Cabral, Lourival Reis [o Prof. Zé Bacurau] e Maurício Marzullo (cunhado de Tangerini), 15 de abril de 1947, em sua coluna "A sociedade n´O espeto / Noivados", página 6, faz uma piadinha com Tangerini, Pêra e Antônia, criando, para ela, uma terceira filha:

"A atriz Antônia Marzullo, sogra do ator Manuel Pêra e de Nestor Tangerini, acaba de dar a mão de sua filha Iara ao Dr. Joaquim Pimenta.
Parabéns à distinta atriz, pelo progresso em sua quitanda...".

Fã de Antônia Marzullo, Nestor Tangerini escreveria, em 1938, antes, portanto, do seu casamento com Dinah, um belo soneto para Antônia, que partira com a Cia. Palmeirim Silva rumo a São Paulo e Rio Grande do Sul:


"À ANTÔNIA MARZULLO [foto]

Boa amiga Marzullo, meus saudares.
Conforme já lhe disse, certo dia,
a minha pena é a pena mais vazia
em matéria de cartas familiares.

Mas, como prometi lhe escreveria,
quando de cá se foi para outros ares,
eis que hoje cumpro, em linhas chãs, vulgares,
a promessa que há muito lhe devia.

Aqui vão todos bem: eu, a Bolinha,
etc., e o Maurício, sempre afoito,
correndo para a casa da Netinha.

Sem mais, com mil abraços, ponho um "fine".
Rio, sete de abril de trinta e oito.
Nestor Tambourindeguy Tangerini".

Nestor, Dinah, Antônia, José e Pêra, fotógrafo da família, se foram, mas nos deixaram, fotografados ou escritos, momentos de poesia e rara beleza.

Crônica publicada no jornal POLEGAR, Novo Hamburgo, no. 10, julho de 2007, Cultura, pág. 09.

Nelson Marzullo Tangerini, 61 anos, é escritor, jornalista, fotógrafo, compositor e professor de Língua Portuguesa e Literatura. É membro do Clube de Escritores de Piracicaba, SP [ clube.escritores@uol.com.br ], onde ocupa a Cadeira 073 - Nestor Tangerini, e da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, da ALB, Academia de Letras do Brasil, e da UBE, União Brasileira de Escritores.


À Dinah Marzullo

A vida já quis perdê-la,
e hoje a quero prolongar;
encontrei a minha estrela
na noite do teu olhar.


SANTA TERESA

À Antônia Marzullo, minha avó materna

Escrever versos
é como caminhar
pelas ruas sinuosas de Santa Teresa,
por onde escorre
a matéria prima da poesia.
Ouço ainda o barulho férreo dos bondes,
enquanto caminho atento,
olhando casas, pessoas, animais
e flores.
Sobre os fios, trepadeiras fartas
abraçam o tempo.
Pássaros meditativos olham
a paisagem.
Uma cidade agitada
vive a sua vida.
E esta nação independente
teimosamente insiste em viver alheia
à pressa de uma outra nação
- aflita.

NELSON MARZULLO TANGERINI.


AO PREZADO NELSON TANGERINI

Nelson Marzullo Tangerini

Em setembro de 1980, iniciei uma pequena correspondência com o modernista Carlos Drummond de Andrade. A princípio, estava mais interessado em Mário de Andrade, em Oswald, em Manuel Bandeira e em assuntos ligados ao Modernismo. Nem me passou pela cabeça "tietar" o poeta itabirano. Sou desorganizado, um péssimo missivista, e não sei precisar o dia em que lhe escrevi minha primeira carta. Nem guardei cópia da referida missiva.

Sei apenas que enviei a Drummond alguns sonetos do meu pai e alguns poemas meus. Como não consigo lembrar-me dos meus poemas enviados ao "poeta maior", publico apenas os dois sonetos de Nestor Tangerini, meu pai. "Cenas do Rio" foi o primeiro trabalho de Tangerini publicado em letra de forma e lançado por Humberto de Campos, a 18/3/1922, em centro de página da revista "A Maçã", que o magnífico e saudoso Acadêmico e beletrista maranhense dirigia sob o pseudônimo de Conselheiro XX. O soneto, dedicado ao amigo Luiz Leitão, um poeta satírico de Niterói, RJ, mostra-nos claramente uma poesia parnasiana com intenções modernistas.

"CENAS DO RIO

Certa dama estava em paz
no ponto, esperando o bonde,
quando se chega um rapaz,
a quem, zangada, responde:

Deixe-se, moço, de graça!
Insiste o moço: - Onde mora?...
- Meu Deus! Que horror!
- Que desgraça! Se vem meu marido agora!...

E a dama, que o caso teme,
diz-lhe, logo, ansiosamente:
"Me" deixe... Moro no Leme...

"Me" deixe!... Sou dona Ivete...
moro à rua São Vicente...
- "Me" deixe... No trinta e sete..."

"QUANDO ELA PASSA

Quando Ela passa, de sombrinha clara,
essa da Moda, esplendorosa Estrela,
pára o automóvel, pára o bonde, pára
o mundo inteiro: todos querem vê-la..

E todo mundo, estático, escancara
os olhos grandes, que se aumentam pela
vontade de envolver-lhe a forma rara
num desejo malvado de comê-la...

E a deusa passa... E passa - indiferente,
sem medo de que o mundo se desabe...
bailando as curvas, desmanchando a gente...

E a gente fica a interrogar-se, à-toa,
como, em dois dedos de vestido, cabe
uma porção de tanta coisa boa!..."

Dias depois, sem que eu esperasse, uma cartinha de Carlos Drummond de Andrade repousava em minha caixa postal. Jamais pude imaginar que o poeta me escreveria. Não me contive. Ali mesmo, na Agência Central, Av. 1o. de Março, afoito, abri o envelope e li sua amável missiva:

"Rio, 28 de setembro, 1980.

Ao prezado Nelson Tangerini.
Com um abraço, meu agradecimento pela remessa de seus poemas e de alguns textos poéticos de seu pai, tão justamente lembrado pelo carinho filial.

Carlos Drummond de Andrade".

Nelson Marzullo Tangerini, 61 anos, é escritor, jornalista, fotógrafo, compositor e professor de Língua Portuguesa e Literatura. Acadêmico, é membro do Clube dos Escritores Piracicaba [ clube.escritores@uol.com.br ] , onde ocupa a Cadeira 073 Nestor Tangerini, da ALB, Academia de Letras do Brasil, da ABI, Associação Brasileira de Letras, e da ABI, Associação Brasileira de Imprensa.