Cadeira 110 Honorário - Daniel Fiorante Giraldi


Daniel Fiorante Giraldi, tem quarenta e dois anos, É casado e pai de dois lindos garotos. Atualmente mora em Praia Grande e trabalho em São Paulo. Mudou-se depois de três décadas em sua cidade natal, em Serra Negra. É bacharel em Ciências Econômicas e trabalho na Gerência Financeira do Metrô de São Paulo. Escreveu seus primeiros poemas aos dezessete anos (eu acho), à mão, num caderno que infelizmente joguei fora tempos atrás. Começou a escrever com mais frequência recentemente, em 2015. Mantém um blog - https://lapiseletras.wordpress.com/



O pastor de moscas

Pastoreando vai o pastor de moscas,
conduzindo seu rebanho com palavras doces,
doces como o mel que sai de sua boca.

Pastoreando vai, ora com palavras doces,
ora exalando um estrume cego de ignorância.

Tão doce e odorífera mistura de mel e estrume,
atrai tantas moscas, e tantas tão juntas reunidas,
parece um festim de carne podre.

E a espessa nuvem de moscas que se forma
com seu amor e preconceito, fé e medo, anseios e desejos
escurece o dia, eclipsa a luz do sol da razão,
sobrevoa o mundo, encobre-o, envolve-o
até não restar mais claridade alguma.

É quando as tochas são acesas para iluminar o caminho.


o ferro e o vidro

o ferro forjado
a golpes desferidos
na luta da vida
não se verga
em poucas dificuldades
ou graves batalhas

o vidro moldado
em delicado sopro
de tão sensível
quebrou-se


Doação

Um anjo então apareceu e disse:

"Vês? O amor não é troca.
O amor entregue não pede retorno.

Amar é semear a incerteza.
O amor não é o jardim, mas a jardinagem.
Não as flores, mas as mãos que cuidam.
Não o fim, mas o meio.

A tempestade pode derrubar seu jardim,
Nunca os momentos em que o cultivaste.

Ama, sem pedir nada em troca.
Faz o bem, sem nada receber."

O anjo então alçou voo, resplandecentemente.

"Mas anjo, e duas pessoas que se amam? Não há troca?"

"Não. Há doação mútua."


Pontes

Ao atravessar a ponte, o caminhante olhou para trás e tomou um susto: a ponte caíra diante de seus olhos.

Continuou andando, até encontrar um dos sábios que habitam a estrada.

- Sabe se estou no caminho certo?

- Não, esse é o caminho errado.

- E qual o certo?

- O outro, que você deveria ter tomado antes da ponte.

- Mas agora não há como voltar! A ponte caiu!

- Sim...

- O que eu faço então?

- Siga em frente.

Seguiu o conselho e continuou caminhando, até avistar outra ponte. Dessa vez, evitou-a e tomou outro caminho, mas este levava a outra ponte...

Cruzou-a, olhou para trás e a ponte caiu diante de seus olhos.

Passou diante de outro sábio da estrada e perguntou:
- Sabe se este é o caminho certo?

- Não, era o outro, antes da ponte.

- Mas só havia aquele caminho, e uma ponte. Eu evitei a ponte para não cometer o mesmo erro da vez anterior, mas o outro caminho me levou a outra ponte. E como a outra, esta nova ponte caiu. Não há como voltar!

- De fato, não há...

- E o que eu faço agora?

- Continue em frente.

Continuou, e mais encruzilhadas e pontes apareceram, de novo e de novo.

- Este é o caminho certo?

- Não, era o outro, antes daquela ponte...

- Está bem, está bem! Já sei, continue em frente...

E assim o fez, e muitas pontes depois, perguntou:

- Porque sempre que pergunto se este é o certo, me respondem que é o caminho errado, se não há como voltar atrás e retomar o caminho correto?

- Se não há como voltar, porque sempre pergunta se este é o caminho certo?

Seguiu em frente, e não fez mais a mesma pergunta que fizera antes.

A partir daquele dia, andou mais devagar, de modo a apreciar melhor o trajeto. Enquanto estava parado observando uns pássaros que faziam um ninho, um caminhante veio até ele e perguntou:

- Sabe se estou no caminho certo?

- Não, este é o caminho errado...


O que as flores têm com isso?

Porque, afinal, se entregaste ao amor?

Porque gosto de flores.

Mas o que as flores têm com isso?

Quero que alguém plante flores em meu jardim.

Não sabia que tinhas um jardim...

Tenho. Aqui, ali, em todo lugar. Chamo-o de vida.



Braile

Sua beleza é tão reluzente
Que turva meus olhos
Apaga minha vista
Me deixa no escuro.

Eu, pobre cego,
Sonho que leio seu corpo
Em braile.


Viver

O que tem feito de bom?
Tenho vivido, pois viver é bom!
Às vezes dói, às vezes são cócegas,
Tem dias que a gente ri,
Tem dias que a gente chora,
Cá entre nós, fala baixinho,
Tem gente que tem momentos em que até pensa em desistir...

Mas, veja lá, viver é bom!
Tem sol, tem chuva, tem passarinhos,
Tem flores, tem o riso da criança,
Tem música e tem dança,
Tem um arco-íris que ás vezes aparece depois da chuva
E até os durões tem momentos em que põe-se a sorrir!

O que tenho feito de bom?
Tenho vivido, ora bolas!
E é preciso mais que isso?
Viver é uma viagem,
Pensar demais é excesso de bagagem.


Se um dia amei

Se um dia amei,
Amei pelo que era
E o que não era.

Despi-me
De todo o orgulho
De todo conceito,
Percorri as distâncias
Do cansaço.

Ah! Se um dia amei,
Amei sem lógica
E sem razão,
Com medo e
Com paixão,
Pelo que era
E o que não era.

Porque simplesmente,
Amei.


Raízes

Vês? O tempo de repente esfriou.
As aranhas teceram as teias do tempo.
Hoje somos dois manequins:
As pessoas nos observam pela vitrine,
Mas nossas mãos estão frias.

Vês? Hoje teu olhar está mais triste.
As aranhas teceram as teias do tempo.
Agora somos bonecos de cera:
Tomamos nosso café em silêncio
Para não atrapalhar a mágoa do outro.

Vês? Hoje sou eu quem está calado.
As aranhas teceram as teias do tempo.
Hoje somos duas grandes árvores:
Nossas raízes dividem o mesmo chão,
Mas nossos galhos já não se tocam mais...


A Jornada

Segunda-feira.

Sentia-me um lixo. Não havia saída:
Desfiz-me em pedaços.
Embalagens, sacos de papel, jornal velho.

Coloquei-me em uma sacola plástica verde
(que custam oito centavos nas redes de supermercado em São Paulo)
E fui para a calçada esperar o caminhão.

Um sujeito ossudo apanhou a sacola.
Fui levado a um passeio pela cidade
Em cima de uma carroça imunda puxada por um pangaré
Que sonhava em participar de provas de hipismo
Ou de correr no Jockey Club.

(os bichos também fracassam; eis uma coisa interessante)

Fui despedaçado e minhas partes jogadas numa esteira;
Um sujeito magro, de pele queimada e barba de guru
Separava-me para ser moído até virar milhões de partículas de mim mesmo.

E assim moído, triturado, fui triunfando-me em outro eu,
Reciclado, ecológico, espiritualizado,
Um eu artesanal esculpido em longa jornada.

Que agora custa mais caro que o meu eu anterior.