Cadeira 110 Honorário - Edgar Allan Poe // Daniel Fiorante Giraldi


Edgar Allan Poe (1809-1849) foi um poeta, escritor, romancista, crítico literário e editor norte-americano. Autor do famoso poema "O Corvo". Escreveu contos sobre mistério, inaugurando um novo gênero e estilo na literatura.

Edgar Allan Poe (1809-1849) nasceu em Boston, nos Estados Unidos, no dia 19 de janeiro de 1809. Filho dos atores de teatro, David Poe e Elizabeth Arnold, ficou órfão de mãe e seu pai abandonou a família. Foi acolhido, mas nunca foi formalmente adotado, por uma família de ricos comerciantes de Baltimore, na Virgínia, que lhe proporcionaram uma educação de qualidade, dos melhores professores da época.

Edgar Allen Poe ingressou na Universidade de Virgínia, onde se destacou no estudo de Línguas Romântica, antigas e modernas. Era inquieto e indisciplinado. Nessa época passava a maior parte do tempo envolvido com mulheres e bebidas. Desde cedo mostrou interesse pela literatura. Sua carreira de escritor começou pouco depois de abandonar a Universidade, com a publicação de uma coleção anônima de poemas, "Tomerlane and Other Poemas" (1827).

Em 1829 entrou para a carreira militar, na Academia de West Point, mas acabou expulso por indisciplina. Perdeu a mesada de seu tutor e passou a escrever para sobreviver, tornou-se editor de uma revista de Richmond. Vai morar com sua tia, viúva, e sua filha Virgínia Clemm. Em 1836 casa-se, em segredo, com sua prima, Virgínia, de apenas 13 anos de idade. Pouco tempo depois perdeu o emprego e passou por dificuldades financeiras, superadas ao vencer os concursos de conto e poesia, promovidos pela revista "Southern Literary Messager".

Convidado para dirigir a revista, durante dois anos esteve à frente do periódico, onde publicava contos, poemas e artigos de crítica literária. Viciado na bebida perdeu seu emprego. Nessa época sua esposa adoece. Passou a produzir como free-lancer, sem grandes resultados, afunda-se na bebida, e a morte da mulher agrava o problema.

Edgard Allan Poe deixou poemas, contos, romance, temas policiais e de horror. Muitas de suas obras exploram a temática do sofrimento causado pela morte. O poeta acreditava que nada seria mais romântico que um poema sobre a morte de uma mulher bonita. É considerado o criador do conto policial, seus poemas mergulham na tristeza e as narrativas em temas de horror. Suas obras foram um marco para a literatura norte-americana contemporânea, com destaque para "Contos do Grotesco e Arabesco", publicado na França com o título de "Histórias Extraordinárias" (1837), contos que influenciaram diversas gerações de escritores de livros de suspense e terror, e os poemas, "O Corvo" (1845) e "Annabel Lee" (1849).

Entre suas obras destaca-se também: "A Queda da Casa dos Usher" (1839), "Os Crimes da Rua Morgue" (1841), "O Coração Delator" (1843), "O Gato Preto" (1843), "O Barril de Arnontillado" (1846) e "A Máscara da Morte Escarlate".

Edgar Allan Poe falece numa taberna, em Baltimore, em decorrência de doenças provocadas pelo álcool, no dia 07 de outubro de 1849.


"Tornei-me insano, com longos intervalos de uma horrível sanidade."

- Edgar Allan Poe


"Defino a poesia das palavras como Criação rítmica da Beleza. O seu único juiz é o Gosto."

- Edgar Allan Poe


***

O que as flores têm com isso?

Porque, afinal, se entregaste ao amor?
Porque gosto de flores.
Mas o que as flores têm com isso?
Quero que alguém plante flores em meu jardim.
Não sabia que tinhas um jardim...
Tenho. Aqui, ali, em todo lugar. Chamo-o de vida.

O CORVO

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito um ruído,
tal qual se houvêsse alguém batido à minha porta, devagar.
"É alguém - fiquei a murmurar - que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais."

Ah! Claramente eu o relembro! Era no gélido dezembro
e o fogo agônico, animava o chão de sombras fantasmais.
Ansiando ver a noite finda, em vão, a ler, buscava ainda
algum remédio à amarga, infinda, atroz saudade de Lenora
- essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora
e nome aqui já não tem mais.

A sêda rubra da cortina arfava em lúgubre surdina,
arrepiando-me e evocando ignotos mêdos sepulcrais.
De susto, em pávida arritmia, o coração veloz batia
e a sossegá-lo eu repetia: "É um visitante e pede abrigo.
Chegando tarde, algum amigo está a beber e pede abrigo.
É apenas isso e nada mais."

Ergui-me após e, calmo enfim, sem hesitar, falei assim:
"Perdoai, senhora, ou meu senhor, se há muito aí fora me esperais;
mas é que estava adormecido e foi tão débil o batido,
que eu mal podia ter ouvido alguém chamar à minha porta,
assim de leve, em hora morta." Escancarei então a porta:
- escuridão, e nada mais.

Sondei a noite êrma e tranqüila, olhei-a fundo, a perquiri-la,
sonhando sonhos que ninguém, ninguém ousou sonhar iguais.
Estarrecido de ânsia e mêdo, ante o negror imoto e quêdo,
só um nome ouvi (quase em segrêdo eu o dizia), e foi: "Lenora!"
E o eco, em voz evocadora, o repetiu também: "Lenora!"
Depois, silêncio e nada mais.

Com a alma em febre, eu novamente entrei no quarto e, de repente,
mais forte, o ruído recomeça e repercute nos vitrais.
"É na janela" - penso então. - "Por que agitar-me de aflição?
Conserva a calma, coração! É na janela, onde, agourento,
o vento sopra. É só do vento êsse rumor surdo e agourento.
É o vento só e nada mais."

Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
- é um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais.
Como um fidalgo passa, augusto, e, sem notar sequer meu susto,
adeja e pousa sôbre o busto - uma escultura de Minerva,
bem sôbre a porta; e se conserva ali, no busto de Minerva,
empoleirado e nada mais.

Ao ver da ave austera e escura a soleníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus ais.
"Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular" - então lhe digo -
"não tens pavor. Fala comigo, alma da noite, espectro tôrvo,
qual é o teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu no inferno tôrvo!"
E o Corvo disse: "Nunca mais".

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em têrmos tais;
pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no presente,
que igual surprêsa experimente: a de encontrar, em sua porta,
uma ave (ou fera, pouco importa), empoleirada em sua porta
e que se chame "Nunca mais".

Diversa coisa não dizia, ali pousada, a ave sombria,
com a alma inteira a se espelhar naquelas sílabas fatais.
Murmuro, então, vendo-a serena e sem mover uma só pena,
enquanto a mágoa me envenena: "Amigos... sempre vão-se embora.
Como a esperança, ao vir a aurora, ELE também há de ir-se embora."
E disse o Corvo: "Nunca mais."

Vara o silêncio, com tal nexo, essa resposta que, perplexo,
julgo: "É só isso o que êle diz; duas palavras sempre iguais.
Soube-as de um dono a quem tortura uma implacável desventura
e a quem, repleto de amargura, apenas resta um ritornelo
de seu cantar; do morto anelo, um epitáfio: - o ritornelo
de "Nunca, nunca, nunca mais".

Como ainda o Corvo me mudasse em um sorriso a triste face,
girei então numa poltrona, em frente ao busto, à ave, aos umbrais
e, mergulhando no coxim, pus-me a inquirir (pois, para mim,
visava a algum secreto fim) que pretendia o antigo Corvo,
com que intenções, horrendo, tôrvo, êsse ominoso e antigo Corvo
grasnava sempre: "Nunca mais."

Sentindo da ave, incandescente, o olhar queimar-me fixamente,
eu me abismava, absorto e mudo, em deduções conjeturais.
Cismava, a fronte reclinada, a descansar, sôbre a almofada
dessa poltrona aveludada em que a luz cai suavemente,
dessa poltrona em que ELA, ausente, à luz que cai suavemente,
já não repousa, ah!, nunca mais...

O ar pareceu-me então mais denso e perfumado, qual se incenso
ali descêssem a esparzir turibulários celestiais.
"Mísero!, exclamo. Enfim teu Deus te dá, mandando os anjos seus,
esquecimento, lá dos céus, para as saudades de Lenora.
Sorve o nepentes. Sorve-o, agora! Esquece, olvida essa Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta! - brado. - Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal
que o Tentador lançou do abismo, ou que arrojaram temporais,
de algum naufrágio, a esta maldita e estéril terra, a esta precita
mansão de horror, que o horror habita, imploro, dize-mo, em verdade:
EXISTE um bálsamo em Galaad? Imploro! Dize-mo, em verdade!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta! exclamo. Ó ser do mal! Profeta sempre, ave infernal!
Pelo alto céu, por êsse Deus que adoram todos os mortais,
fala se esta alma sob o guante atroz da dor, no Éden distante,
verá a deusa fulgurante a quem nos céus chamam Lenora,
essa, mais bela do que a aurora, a quem nos céus chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

"Seja isso a nossa despedida! - ergo-me e grito, alma incendida. -
Volta de nôvo à tempestade, aos negros antros infernais!
Nem leve pluma de ti reste aqui, que tal mentira ateste!
Deixe- me só neste ermo agreste! Alça teu vôo dessa porta!
Retira a garra que me corta o peito e vai-te dessa porta!"
E o Corvo disse: "Nunca mais!"

E lá ficou! Hirto, sombrio, ainda hoje o vejo, horas a fio,
sôbre o alvo busto de Minerva, inerte, sempre em meus umbrais.
No seu olhar medonho e enorme o anjo do mal, em sonhos, dorme,
e a luz da lâmpada, disforme, atira ao chão a sua sombra.
Nela, que ondula sôbre a alfombra, está minha alma; e, prêsa à sombra,
não há de erguer-se, ai!, nunca mais!