Cadeira 111 Honorário - Elício Santos Nascimento


Elicio Santos do Nascimento. Pseudônimos: Élcio Guerra/ Paco Amorim/ Jó Moraes. Comecei a escrever na adolescência, a princípio somente poesia. Retornei com toda a força à seara literária em 2011. Sou estudante de Direito (curso o nono semestre). Remeto colaborações periódicas e sou cronista fixo da Revista Capítulo Um. Também escrevo para o Blog literário "Inspiraturas". Já venci seleções da Revista Avessa Participei de várias antologias de contos e poesia. Tenho três livros publicados. "Vozes Poéticas" (Garcia Edizioni); "Contos Urbanos" (Editora Multifoco) Estou às vésperas de lançar mais dois livros. Um de contos pela Editora Lynce, cujo título é "Fábrica de Sentidos". O outro é de poesia. Decorre de meu prêmio no concurso literário "Línguas e Amigos, cujo título é "Código dos Absurdos".  




ESCAPOTERAPIA

A morte ao alcance dos dedos

A vida lhe retira o medo

Abaixo, a morte sussurra fuga
Acima, a luz sonora não ajuda
Está no meio da chama, ou às culpas?

Um passo avante e regride
Resvala a decisão pela chance:
Ao novo dia, amanhecido num lance.


NOTURNOS

Somos filhos do silêncio
Que nos fala tanto!
Nosso mergulho sonoro
Imerge em ângulos
Tatoamo-nos
Um no outro em réstias
Do portal amigo
Aqui e ali, sem pressa...
Você é a pele em que habito
E vice-versa
É à noite
Nossa melhor conversa
De portas e janelas
Sem trancas
Trancamo-nos no sempre
(Finito)
Clareirando presentes.


ERA UMA VEZ

Quando as crises chegam

Trago os nossos desenlaces

Solto-os na cabeça

Viciando um novo milagre:

Dou meia-volta às estrelas.


CANSAÇO

A namorada perdida
Profissão em prol do bolso
Dia a dia suportável
Desestímulos sonoros
Aumento dos preços altos
Amor na TV barato...

Cadê a luz do final?
Preciso antes do início!
Ele se entregou por mim?
Tudo é mesmo relativo?
De par em par nalgum bar...

Ser ou não ser, afinal?
Crer ou não crer dirá tudo:
Antes do último juízo
Enquanto isso sigo aflito
(Repintando os comuns signos).


Questão de Honra

Nossos filhos não são nossos, mas da vida. Deus nos entregou a missão de criá-los com o melhor de nossas forças, mas certos da futura distância. O tempo molda as almas dos nossos rebentos ao ponto de arrastá-los às próprias experiências e conquistas. Nós sofremos. Mesmo quando sabemos que o melhor a ser feito é aceitar. Nossos filhos são filhos do mundo. Por isso, melhor do que o convívio egoísta é a separação que contribui. O amor verdadeiro exige a felicidade do ente amado, ainda que ela signifique a nossa dor.


As Quatro Estações

I
O peito mal cabe no peito, já que os batimentos soam o nome dela. Arruma-se com o além das possibilidades. Chega impecável ao encontro, ensaiado para não dizer desacordos românticos.
Abre a porta do carro, enquanto se mira nas brilhosas retinas delgadas, entregues à ebulição do sonho. Puxa a cadeira quase sem pensar, à proporção que recobra o fôlego, quase etéreo nos olhos d'água. Durante a refeição, recita frases e versos de Facebook: cheio de pausas enfáticas.

II
Semeia e colhe os toques. Palavra a palavra das intimidades. No nevoeiro dos dias, lembra-se para sobreviver: ela é o castelo. Chega em casa novo. Tê-las aos braços é o encanto necessário. Uma. Duas. Três vezes ao dia. A mulher mais linda do universo, digam o que for.
Pede tudo como seda. A tolha sobre a cama. Pia suja. Cama desarrumada. A reunião dele com os amigos é direito. Fica pronta às folgas do seu "Romeu". Trabalha resignada. Dele sempre brota um sorriso ou gesto meigo, pois sabe pedir o que for. Qual mulher não corresponde ao afeto preciso de quem ama, ainda que seja mudo ou à distância?

III
Ainda a quer por perto, mas nem tanto. Há beijos e juras carinhosas, embora de quando em quando. Ele acha as carnes incompletas. Pensa em revezar, todavia se refreia. Algo por dentro é mais forte. Há melhores cuidados lá fora?
IV
Reclama quente: "Homem bagunceiro tem que ouvir! ". Trabalha fora como ele e cuida dos filhos, por que tem de fazer tudo? O barulho de futebol e cerveja que se dê no bar ... Pode pegar outra? Ele é quem sabe!
Greve de sexo. Ele escorrega, mas não cai inteiro. Ela engorda. Ganha flacidez, defeitos. Ele não se enxerga, embora cobre. Seguem pensando em desistir, ajeitam-se. Amor: ou se alimenta ou nunca houve, só o tempo dirá.


Duro Alfabeto

A cada dia me vejo passando. Vão-se as estações, as fases da vida. Os anos desenham a minha partida, embora de leve. Tanto que ainda me vejo moleque e adolescente, aceso nas peripécias destinadas às épocas devidas. Total de mim a ponto de me sentir invencível! Certo de que nada acabaria, por isso senhor de boas mentiras. Hoje devo apenas contemplar a minha passagem. Ceder espaço aos que ficarão. Virando sombra no limite traiçoeiro dos meus aniversários. Ainda assim, admito a importância da vida. Persisto na busca dos meus sonhos e respiro como se menino, moleque, adolescente. Pois velho é quem enxerga o vazio do futuro cheio de pessimismo e o passado como a única fonte de alegria.


CARTA ABERTA

Como um filho de Baco se regenera?
Quem é dado aos delírios não peca
Senão quando consciente do feito
Há a ausente proteção, subconsciente
Que dá ao pecado o melhor conceito.
Mas, eu, um danado ascendente
Agraciei-me na boa novidade
Sempre disponível, mas a mim morta...
Nem as orgias mais límpidas
Nem os aplausos cartesianos do vinho
Nem as luzes femininas, sinestésicas
Não, nada há que se compare!
Desci ao abismo numa real hipótese
Vestido supernatural inesquecível...
Mas pude subir, como poucos
Eis a minha nova seara
Versificada a punho livre:
(Os meus poemas seguintes traduzem a metanoia
Muito além do ácido
Embora sã aos loucos sóbrios
(Chamados santos ou exógenos).


METALINGUAGEM
Palavra
Lavra
Ladra
Avara
Cava
Palavra. 


CLAUSTROFOBIA

O sentido da vida num pulo. Desce do instinto à consciência e
coagula possibilidades. O fim do tempo é fim mesmo? A aniquilação
propagada não é absoluta. Mas a vida eterna também não. Se a
aniquilação errar não há volta, mas da eternidade falsa nada se
perde...
A mulher errada. Emprego errado. Amigos errados. Mundo errado.
Voltar ao tempo sem sair dele, talvez lhe dirá as respostas...
O pulso acelerado se estabiliza. A visão certa do chão no térreo,
perde a sede da asfixia.
Há sentido da vida num pulo, mas de cabeça no que o tempo
ofereça, enquanto há tempo de graça e arrependimento.


INFERNO

A humanidade anoitece
Durante os quase sóis
Cujo nascente desce
À descendência da foz
Saída líquida que aquece
A grande voz
Solitária e firma
Rejuvenesce a messe
Da morte veloz
Em pele viva de esquece
Memoriza-se algoz
De si à espécie:
Hecatombe sem vós.


PÁTRIA AMBÍGUA
Amor é desvão no concreto
Vão no desvio ereto
Desfio direto
Com desvario certo
Por discretos reenvios,
Desde os nãos aos desafios.
Amor é vão no correto
E conserto de vadios. 


Estado Autônomo

Viver de papel passado é escrever um testamento a cada presente. A falta do que ainda corre na alma pode ser normal, mas de que vale tentar reconstruir saudades? Será a nossa parte mais exata a que se foi? Tem gente que insiste nos sucessos e pesadelos de ontem pelo medo de fazer diferente ou de alcançar os mesmos resultados. E daí? Ainda que o amor não venha é melhor estar mal acompanhado do que só. Ainda que a perda profissional possa se repetir ou a tentativa pareça inútil, é bem melhor morrer de consciência limpa pelas besteiras que se fez a remoer o vazio das experiências adiadas até o fim, talvez a tempo de evitar fracassos inimagináveis, mas (é bem mais provável) pelo fardo das acusações ou de nós mesmos, quando pertencemos à classe dos nostálgicos viventes de um mundo que só sobrevive no melhor ou pior em nós: o único território que aceitamos como nosso. Antes de pormos limites ao que somos ou podemos, devemos nos considerar atores de um destino folheado a cada hoje e agora. Um papel por vez que atesta a nossa capacidade de descobrir e refazer. Cabe à realidade do impossível um legado que o desacredite: com toda a presença.


SINA DE POETA

Amo ouvir silêncios

Eles dizem tudo

O que não sou

Nos ruídos cotidianos.

Amo tocar os cheiros

Bebê-los além do ar.

Amo lamber sonhos

Eles têm gosto de estrelas

Mas já os vi tornarem-se

Precipícios.

Amo sair de mim

E voltar alguém...

Até me perder novamente.


ZUMBILÂNDIA

Rostos que se cruzam sem se achar. Quem sabe revezaram os mesmos espaços? A sede das opiniões só importa a da sobrevivência. Olhos, corpos, cabelos, roupas, não há próximos, senão na física. O consumo é o pai das condições: aceita quem tem juízo?
Consiga o seu emprego. Ganhe muito dinheiro!
Acorde - trabalhe - coma - compre - guarde - durma - ostente - acorde - trabalhe...
Envelheça em sua ilha e a passe adiante.
Rostos se cruzarão sem motivo até a esquina morta viva que pode ser a do outro, ou a de todos os despreocupados.