Cadeira 14 - Mena Azevedo


Filomena Azevedo Leite, pseudônimo nas suas produções e sites literários é Mena Azevedo. Natural de Brumado-Bahia, Licenciada em Letras com Especialização em Análise do Discurso, Linguística Aplicada. Pós-graduada em Docência Superior e Administração de Sistema de Ensino Membro Fundador e Efetivo da Academia de Artes e Letras de BrumadoBA, tendo sido Presidente desse sodalício por três anos. Desde a adolescência interessou-se pelas leituras de grandes clássicos das Literaturas Brasileira, Portuguesa, Francesa dentre outras. Já prefaciou vários livros de poesias de autores e está concluindo um romance, ainda sem título. Participou de oito Antologias Poéticas, tem um livro de poesias publicado, com o título "Poesia em Alquimia" e um livro de cunho pedagógico intitulado "Pelos Vieses da Educação".




Sofrimento

No jarro, rosas rubras...
Gotas de orvalho penduradas
Chorosas, quais lágrimas de dor
A descer pelas faces descoradas.

No coração, gotas rubras de amor
Que escorrem tristemente pelas veias
E se transformam em contas de dor
Enfiadas nas linhas embranquecidas das teias...

Agora, o corpo é coberto de rosas azuis
Em gotas febris que exalam odores no ar
E se deixam escorrer por córregos e pauis
Do corpo que exaure cansado de lutar...


Resiliência

Rasgo uma folha do meu dicionário
Macero toda a página sem linha
Aquela que não quis deixar no diário
Nem guardá-la na minha escrivaninha.

Eu me agarro ao fio de um pensamento
Construo, assim, um mundo, um projeto
Deixo para trás mágoa e sentimento
A voar pelo céu num rumo incerto.

A vida é restaurada sem agonia
Jogo fora pedaço de papel
Que outrora era marca bem dorida

Impulsiono voo numa magia
Diluo todo o ódio que era fel
E a paz floresce em mim, bendigo a vida..


Trago rosas

As rosas que te trago
São sanguíneas, purpúreas
São rosas do coração
Plantadas no meu peito
Nascidas de um amor
Que cativei com jeito...

Rosas rubras, sentimentais
De profundo mistério
Gestadas no amor
Assim tão cativantes e belas
E só o amor as fez
E da minha vida são paralelas...

Se só o amor as plantou
Prova desse sentimento
E recebe essas rubras rosas
Com a emoção quando estivermos
Na nossa tão louca embriaguez
E viveremos, por quantas vidas tivermos.


Fio de Ouro
Minh'alma prende-se ao corpo
Por um fio de ouro
Sou escrava lírica desse mar revolto
Navego em espumas
Uso a força de um touro...
Ouvem-me as ninfas
Socorrem-me as fadas.
Canto, pois, minha lira
Meu amor secreto
E, num pensamento alado,
Revelo meu segredo que gira...
Sou a verdade desse fio de ouro
Que tento preservar.
Sou empecilho qu'essa vida corteja
Mas não me deixo vulnerável
Ante o sofrimento que adeja
Pelo meu corpo debilitado
E por onde uma dor imponderável
Resiste à analgesia do tempo.
Com o olhar para o etéreo manto, clamo
Para minha doce musa, alvacenta
Amada lua a quem sempre chamo...
Por que não acalmar o choro
Desse céu noturno sem estrelas
E cortar o espaço nesse fio de ouro?


Lágrimas

Lágrimas,contas translúcidas
Deslizam pelas faces já sem cor
Descem pelo corpo em colar
Não são lágrimas de alegria
São lágrimas de dor.

Em noite de luar, olho para o céu
Não vejo estrelas ao redor da lua
Aparece teu semblante envolto em véu
É isso ficção ou realidade nua?

Descem mais lágrimas em profusão
Desfazem o colar e lavam meu corpo
Já macerado pela dor da ilusão
Que me fez amar um ser já morto.

No céu, airosa nuvem se desloca
Tocada pela brisa solta
Numa encantada melodia
Que adormece meu corpo exangue.







Nos trigais, minha solidão

A tarde caía, um íntimo devaneio
Crestava meu inquieto coração
E como uma lava incandescente veio
Trazer lembranças guardadas em comoção
Que ardiam dentro e fora de mim...

E uma força irrevogável me tangia
Animando-me a livrar-me e sair desse motim
Ao qual estava submerso e que me fazia
Despertar para ouvir o canto do querubim
Para deixar exaurir ali a minha dor...

O ocaso trazia as primeiras cores do arrebol
Bebi-as em êxtase nos trigais de cinza e ouro
Com olhar perdido, submisso, não via o sol
Mas ouvia a voz do íntimo como louro
Da vitória de um sonho vazio que se plenificou...

Por minutos, vivi o encantamento primitivo
De estar ali só, numa sensação de ser eterno
Livre das amarras que me prendiam ao crivo
Da solidão angustiante que era o inverno
Das sensações próprias do ser humano...

Tinha, entretanto, a vontade de me evadir
Buscar minha estrela perdida, minha meta
Ser guiado pelo meu próprio mistério, seguir
Adentrar a mata virgem, andar em linha reta
Onde não houvesse marcas, vestígios do passado...

Mena Azevedo


Reflexão

Numa tarde ensombrada
Vivi outrora dias tristes e vazios
Sentada num banco do jardim
Onde observava animais vadios.

Antes de o crepúsculo surgir
Olhei adiante e vi vulto estranho
Que caminhava na minha direção
Conduzindo para frente seu rebanho.

Então o olhei demoradamente
Vi suas faces já envelhecidas
Lágrimas caíam, traziam recordações
Suas mãos pareciam enfraquecidas.

Resisti, finalmente, àquela triste cena
Nesse momento sorri em calma profunda
E perguntei-lhe naquela hora crepuscular
Qual é a tristeza que sua face inunda.

Mas a figura estranha que me comoveu
Evaporou-se no arrebol como um ser volátil
Não sei se na tarde dormi no banco da praça
Porque só via a paisagem vazia do pátio.


Descoberta

Minh'alma voa num voo aberto
Pelo céu dourado em euforia
Nesse sonho que me alimenta
E me faz viver o invisível, o eterno...

Esse espaço celeste é templo
De ternura e amor; é vida
Que se desdobra em raios de luz
À semelhança de véus de ouro...

Então, faço oração no silêncio
Dessas ignotas paragens cósmicas
E ouço canções angelicais divinas
Canto sublime, bem longe do profano...

Perscruto o espaço com olhos e coração
E um amor infindo sinto me envolver
Chega a brisa leve, serena e me acaricia
Vem o gorjeio das aves que superam o ar rarefeito...

Medito no silêncio que algo me fala
Penetro na interioridade do meu ser
E aí convivo com a minha insignificância
Ante a grandeza de Deus que existe em mim...


Os ritmos de uma dança

Que dança é essa cujos passos soltos
Alteram o ritmo das canções
E enlaçam corpos envoltos
numa doce euforia?

São passos bailados
Movimentos compassados
Que mexem com os ritmos
Fazem agitar as mãos?

Não. Não é uma dança
Não é seu corpo que enlaço
Porque não sou eu que danço
Nesse instante de magia...

Pensamento voa, voa
Meu corpo levita
Não sei onde estou
Esse baile é ilusão, mas me excita...