Cadeira 17 - Renato Russo // Alex Mazuco


Renato Russo nasceu batizado de Renato Manfredini Junior, no Rio de Janeiro, em 27 de março de 1960. Filho do funcionário público do Banco do Brasil, Renato Manfredini, com a professora de inglês, Maria do Carmo. Quando Seu Renato foi transferido de Brasília para Nova York (EUA) viveu dos sete aos dez anos por lá com os pais e a irmã, Carmem Tereza. Aos 13 anos, Renato era de uma família classe média, estudava e levava uma vida normal. Mas entre os quinze e dezessete anos foi vitimado pela epifisiólise, rara doença óssea que o deixou um período grande sem se locomover. Mas foi nesta época que começou a compor letras e músicas compulsivamente em casa. Data desta época seu projeto fictício de banda, antevendo seu futuro.
Após o trauma da doença, Renato formou a banda Aborto Elétrico, em 1978. Com ela, compôs várias canções que iria usar uma década depois, como Que País é Este, Conexão Amazônica e Tédio (Com Um T Bem Grande Pra Você). Outras, porém, seriam gravadas pelo Capital Inicial: Fátima e Veraneio Vascaína. E ainda uma seria aproveitada pelos Paralamas do Sucesso: Química.
Na gravação ao vivo de Tédio - que circula por aí, captada em um show na UNB em 1981 - Renato anunciava que essa era uma "canção de amor". Em 1982 Renato Russo saiu da banda que, em seguida, terminou. E começou a se apresentar sozinho - na fase conhecida como Trovador Solitário. Época em que novos 'hits do futuro' surgiam, como Geração Coca-Cola, Faroeste Caboclo, Eu Sei e Eduardo e Mônica.
Ainda com vontade de ter um grupo de rock, Renato se uniu a Marcelo Bonfá em 1982 e criou a Legião Urbana, chamando também os músicos Eduardo Paraná (Hoje, assinando Kadu Lambach) e Paulo 'Paulista' Guimarães. No ano seguinte, Paulista e Paraná deixam a formação original e Dado Villa-Lobos assume a guitarra.
Com a Legião Urbana, Renato Russo gravou e lançou sete álbuns, até 1996. Mesmo ainda na banda, em 1993, Renato iniciou sua carreira solo. Lançou The Stonewall Celebration Concert no ano seguinte -- e cujo título é uma referência ao bar nova-iorquino onde, em 1969, gays se rebelaram contra a ação da polícia. Em seguida veio o CD Equilíbrio Distante (1995), onde ele aparece interpretando canções italianas e dedicadas à sua família. Em outubro de 1996 Renato morre, aos 36 anos, por consequências do contágio pelo vírus HIV. 
Em 97 surge o disco póstumo O Último Solo, com gravações inéditas que não entraram em seus CDs anteriores. Em 2003 chega ao mercado o CD Presente, trazendo duetos e trechos de entrevistas. O lançamento de 2006 em CD e DVD é a homenagem Uma Celebração, gravado e exibido como programa pelo canal de TV Multishow e com o repertório de obras compostas por Renato Russo nas vozes de diversos artistas convidados. Em 2008 a fita cassete de sua fase como trovador solitário dá origem a um CD. Já em 2010, quando Renato Russo completaria 50 anos, a gravadora EMI o relembrou com o projeto Duetos.


Giz

E mesmo sem te ver

Acho até que estou indo bem

Só apareço, por assim dizer,

Quando convém

Aparecer ou quando quero.

Desenho toda a calçada

Acaba o giz, tem tijolo de construção

Eu rabisco o sol que a chuva apagou

Quero que saibas que me lembro

Queria até que pudesses me ver

És parte ainda do que me faz forte

E, p'rá ser honesto,

Só um pouquinho infeliz.

Mas tudo bem

Tudo bem

Tudo bem

Lá vem lá vem lá vem

De novo:

Acho que estou gostando de alguém

E é de ti que não me esquecerei.

autor: renato Russo.


Poesia.

Como expressar nas palavras,
os gestos que queria fazer,
as coisas que gostaria de ver,
os belos amanhecer e entardecer,
e o sombrio morrer...
faltam-se falas.

Mas ao expressar
o simples fato de escrever, falar,
nada existe para preocupar...
nada pode deturpar,
na essência pelo chorar,
no gesto por beijar,
comover e alavancar
o puro e simples "amar".


Como expressar nas palavras,
os gestos que queria fazer,
as coisas que gostaria de ver,
os belos amanhecer e entardecer,
e o sombrio morrer...
faltam-se falas.

Mas ao expressar
o simples fato de escrever, falar,
nada existe para preocupar...
nada pode deturpar,
na essência pelo chorar,
no gesto por beijar,
comover e alavancar
o puro e simples "amar".
Renato Russo




Mais Uma Vez

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Tem gente que está do mesmo lado que você
Mas deveria estar do lado de lá
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Tem gente enganando a gente
Veja nossa vida como está
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança

Mas é claro que o sol
Vai voltar amanhã
Mais uma vez, eu sei
Escuridão já vi pior
De endoidecer gente sã
Espera que o sol já vem

Nunca deixe que lhe digam
Que não vale a pena acreditar no sonho que se tem
Ou que seus planos nunca vão dar certo
Ou que você nunca vai ser alguém
Tem gente que machuca os outros
Tem gente que não sabe amar
Mas eu sei que um dia a gente aprende
Se você quiser alguém em quem confiar
Confie em si mesmo
Quem acredita sempre alcança
Renato Russo


Que País É Este

Nas favelas, no Senado
Sujeira pra todo lado
Ninguém respeita a Constituição
Mas todos acreditam no futuro da nação
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
No Amazonas, no Araguaia iá, iá
Na baixada fluminense
Mato Grosso, Minas Gerais
E no Nordeste tudo em paz
Na morte eu descanso
Mas o sangue anda solto
Manchando os papéis, documentos fiéis
Ao descanso do patrão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Terceiro mundo, se for
Piada no exterior
Mas o Brasil vai ficar rico
Vamos faturar um milhão
Quando vendermos todas as almas
Dos nossos índios num leilão
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?
Que país é esse?


Eduardo e Monica

Quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?

Eduardo abriu os olhos mas não quis se levantar:
Ficou deitado e viu que horas eram
Enquanto Mônica tomava um conhaque,
Noutro canto da cidade,
Como eles disseram.

Eduardo e Mônica um dia se encontraram sem querer
E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer.
Foi um carinha do cursinho do Eduardo que disse:
- Tem uma festa legal e a gente quer se divertir.
Festa estranha, com gente esquisita:
- Eu não estou legal. Não aguento mais birita.
E a Mônica riu e quis saber um pouco mais
Sobre o boyzinho que tentava impressionar
E o Eduardo, meio tonto, só pensava em ir pra casa:
- É quase duas, eu vou me ferrar.

Eduardo e Mônica trocaram telefone
Depois telefonaram e decidiram se encontrar.
O Eduardo sugeriu uma lanchonete
Mas a Mônica queria ver o filme do Godard.
Se encontraram então no parque da cidade
A Mônica de moto e o Eduardo de camelo.
O Eduardo achou estranho e melhor não comentar
Mas a menina tinha tinta no cabelo.

Eduardo e Mônica eram nada parecidos -
Ela era de Leão e ele tinha dezesseis.
Ela fazia Medicina e falava alemão
E ele ainda nas aulinhas de inglês.
Ela gostava do Bandeira e do Bahaus,
De Van Gogh e dos Mutantes,
De Caetano e de Rimbaud
E o Eduardo gostava de novela
E jogava futebol-de-botão com seu avô.

Ela falava coisas sobre o Planalto Central,
Também magia e meditação.
E o Eduardo ainda estava
No esquema "escola-cinema-clube-televisão".

E, mesmo com tudo diferente,
Veio mesmo, de repente,
Uma vontade de se ver
E os dois se encontravam todo dia
E a vontade crescia,
Como tinha de ser.
Eduardo e Mônica fizeram natação, fotografia,
Teatro e artesanato e foram viajar.
A Mônica explicava pro Eduardo
Coisas sobre o céu, a terra, a água e o ar:
Ele aprendeu a beber, deixou o cabelo crescer
E decidiu trabalhar;
E ela se formou no mesmo mês
Em que ele passou no vestibular.
E os dois comemoraram juntos
E também brigaram juntos, muitas vezes depois.
E todo mundo diz que ele completa ela e vice-versa,
Que nem feijão com arroz.

Construíram uma casa uns dois anos atrás,
Mais ou menos quando os gêmeos vieram -
Batalharam grana e seguraram legal
A barra mais pesada que tiveram.

Eduardo e Mônica voltaram pra Brasília
E a nossa amizade dá saudade no verão.
Só que nessas férias não vão viajar
Porque o filhinho do Eduardo
Tá de recuperação.

E quem um dia irá dizer
Que existe razão
Nas coisas feitas pelo coração?
E quem irá dizer
Que não existe razão?