Cadeira 20 - Aliesh Santos


Sheila Santos Brandão (Aliesh Santos), 40 anos, mãe de uma menina de 5 anos. Farmacêutica, Escritora e Poetisa. Farmacêutica, natural do Rio de janeiro, onde reside até os dias de hoje. Romântica, sonhadora e muito intensa, tem como paixão desde menina, a escrita e os livros, principalmente os romances. Atualmente, ocupa a Cadeira de nº 20 na AMCL, tendo como Patronesse, Clarice Lispector Está participando de sua 1ª Antologia, a Antologia Encontro Di-Versos, pela Editora U.S.C.A. Tem coração repleto de sentimentos e uma alma transbordante de emoções



TROCA

Para tua frieza,
Deixo minha sincera amizade.
Para tua arrogância,
Deixo a sensibilidade de minha alma.
Para tua desconfiança,
Deixo minha lealdade.
Para tua solidão,
Deixo meu mais belo poema.
Para teu arrependimento,
Deixo minha compreensão.
Para todos os momentos que passamos,
Trago somente os bons pensamentos.
Porque onde ainda habita carinho e ternura,
Ódio e rancor jamais habitarão...


MADRUGADAS

Imensamente triste
Eu fico,
Toda vez que te sinto comigo,
E quando em ti, procuro por mim,
Encontro-me sempre ausente de ti...
Desiludida e perdida
Eu fico,
Toda vez que estou a teu lado,
Mas não me sinto contigo, ao contrário!
Flagro-te disfarçando um sorriso,
Melancolicamente obstante
E tão só...
Ah, se tu soubesses,
O quanto me esforço,
Pra que tu não percebas
Que sei de teu choro, teu pranto...
Acredita, dói em mim...
Embora tu não tenhas noção
De como também sofro
Por perceber que tu sofres assim,
O que mais me dói mesmo,
É saber que das lágrimas que derramas
Nessas tuas madrugadas frias e solitárias,
Nenhuma delas pertence a mim...


INSINUAÇÕES

Não, eu não sou dada à insinuação.
Se algo me incomoda,
Não faço cara de paisagem
A fim de evitar confusão...
Também não faço de conta
Que está tudo bem,
Enquanto, nervosa,
Fico esbarrando em tudo,
Só pra chamar sua atenção...
Relaxa,
Comigo não é preciso adivinhação!
Basta olhar em meus olhos,
Para saber que algo não está bom...
Sou de chamar num canto,
Botar o dedo na ferida
E ir direto ao ponto,
Você gostando ou não...
E se, ainda assim,
Dúvidas ficarem no ar,
Vou questionar, perguntar,
Serei chata mesmo,
Até, entre nós,
Todo inconveniente sanar...
Mas, se eu sentir que dentro de mim,
Ainda restam vestígios de insegurança,
É sinal de que há uma nuvem de indiferença
Pairando em minha alma,
Que me incomoda,
Que supera todas as minhas expectativas
E que me faz sofrer...
E, já que sentimentos não se pedem,
Nem se cobram,
E que agora,
Já sabe bem como proceder,
Pronto. Estou aqui a sua sua espera.
Convença-me...
Só depende de você...


CÔMODOS

E nesses dias que de mim
Parecem se esvair,
Esforço-me com todas minhas forças,
Na esperança vã de me esvaziar de ti.
Tento usar a naturalidade
E fazer como se fosse fácil,
Algo simples de conseguir.
Quem dera existisse uma fórmula mágica que,
Num piscar de olhos,
Fizesse tudo o que vivemos
Daquela forma tão nossa,
Tão intensa e infinita,
Simplesme desaparecer,
Deixar de existir...
Desculpa-me,
Não quis te ferir.
Mas entenda que só assim
Evitaria toda essa dor, que sei,
Por muito tempo
Ainda hei de sentir...
É que olho ao redor
E vejo nossas coisas,
Tantas lembranças jogadas,
Amontoadas em caixotes frios,
Agora repletos de solidão.
Ainda ontem pareciam tão arrumadas,
Como podem estar assim agora,
Abandonadas, jogadas pelo chão?
O tempo passa,
Deixando-me ainda mais pensativa,
Não sei,
Nao faço a menor ideia,
De qual cômodo esvaziar primeiro,
Onde e como devo começar
A me despedir de ti?
Inevitavelmente,
Toma-me o desespero,
Não consigo conter o pranto,
Torna-se inútil reter as lágrimas...
Como fazer?
Para onde fugir?
Como esvaziar meus cômodos
Se em cada um deles,
Tem um amontoado enorme
De mim, de ti
E um turbilhão de nós dois?


DONA DE SEU PRAZER

Toda vez
Que toco seu corpo,
Minhas mãos vão deslizando,
Acariciando,
Viajando,
Abrindo longos caminhos
Por cada detalhe de seu prazer...
Toda vez
Que me vejo assim,
Como estou agora,
Totalmente nua,
Perdida em você,
É que me sinto mais à vontade...
Nossos corpos se conhecem,
Se completam...
Sinto pelo calor
De sua pele na minha;
Pelos beijos que
Tomam minha boca,
Tamanho deleite,
Que lhe sinto
Totalmente meu...
Tenho certeza:
Seu corpo é meu recanto,
Minha casa...
É aqui onde mando,
Desmando,
Domino,
Dou e recebo...
É aqui onde ocupo
Meu lugar de musa,
Rainha...
É aqui onde sou única
E me dou o direito de ser
Dona de seu prazer...


INFINITUDE

Dizes que não mais escrevo,
Que não mais falo
E que ao te ver,
Simplesmente me calo.
E de fato, é verdade...
Por que deveria eu
Me preocupar com palavras
E versos pequeninos,
Se com um simples olhar
Posso te dizer coisas infinitas?
Por que em vez de me fazer
Tantas cobranças,
Não tentas ouvir meus olhos,
Não ousas, com teus beijos,
Calar meus lábios?
Entendas que,
Toda vez que me calo,
Estou te dizendo tudo
Que precisas ouvir.
Dizes que não escrevo,
Que não falo,
Mas se te amo tanto
Como amo,
Quem disse que preciso
De ínfimas palavras
Pra me fazer ouvir?


TERRA SECA

Mas é isso mesmo, sou mulher!
Sou como terra batida, às vezes ferida,
Terra pisada, difícil para o plantio,
Mas quando adubada, regada, cuidada,
Fica logo pronta para o amor...
Como toda mulher,
Já trago no rosto, algumas marcas
Que a vida deixou...
São os chamados resquícios...
Vestígios da mulher madura, vivida,
Marcas de um passado de buscas,
Lutas intermináveis,
Muitos momentos de amor,
Alguns de muita dor...
Venho quase sozinha,
Trago só algumas roupas,
Embrulhos, entulhos,
Algumas lágrimas no canto dos olhos,
Normal... mas, não... Nada letal, eu juro,
Eu sobrevivi... Sempre sobrevivo!
Dos tombos que levei,
O melhor presente que recebi,
Foi saber distinguir, mesmo que de muito longe,
Os que não desejam minha sorte,
Dos que me amam de verdade...
Foi saber reconhecer,
Dentre todas as entrelinhas
Das palavras bonitinhas,
As letrinhas mais maldosas,
Das mais puras e generosas...
Sabes, sinceramente,
A mim não interessa o que me desejas,
Pois hoje, queiras tu ou não,
Amo, sou amada e sou feliz..
E se tu não suportas minha felicidade,
Só posso desejar-te uma boa colheita!
Começa cuidando bem do jardim de amor
Que não parece, mas que há dentro de ti...
Quem sabe, não pára de crescer somente mato inútil,
E começa a crescer rosa e flor?
Quem sabe dessa terra árida e seca,
Não começa a diluir a inveja, o despeito
E começa florescer amor?


SINCERO BEM QUERER

Ao amanhecer,
Profundamente, quero que me olhe...
Por longo tempo,
Quero que me encante e se admire...
Depois, com o ardor do momento,
Quero que procure meu toque, meu beijo;
Em troca, receberá meu corpo
E todo meu desejo...
Mas, se precisar me sentir intrinsecamente,
De verdade,
Terá que me sentir com o coração...
Não é com os olhos
Que conseguirá me ver...
Nem com carícias,
Que terá certeza
Do que sinto por você...
Meu amor está nas entrelinhas
De minhas ações...
Está nas páginas dos livros que leio
E me lembram você...
Nas belas canções que escuto,
Pensando em nós dois...
Meu amor está no perfume
Das flores que colho,
Nos poemas singelos que componho...
Meu amor está nas profundezas
De minha alma...
Meu amor está tatuado
E totalmente exposto
Em meu sincero bem querer...
Se conseguir senti-lo,
Perceberá que meu amor está em mim,
Mas totalmente impregnado em você...


QUEM NUNCA?

Quem nunca se deixou fascinar por um olhar,
Ou se encantar por um sorriso?
Quem nunca sentiu o coração disparar só de ouvir uma voz?
Quem nunca sentiu o estômago doer ou a boca secar,
Pela simples chegada de certo alguém especial?
Quem nunca suspirou de saudade ao ouvir uma música,
Ou sentindo a fragrância de um perfume?
Quem nunca recordou alguém, lendo a página de um livro
Ou vendo a cena de um filme?
Quem nunca tentou disfarçar, sem sucesso,
A dor massacrante do ciúme?
Quem nunca sentiu o corpo tremer
E a pele queimar de desejo,
Só de pensar naquele beijo?
Quem nunca foi dormir com tamanha saudade de alguém,
Que teve absoluta certeza
De que em sonho, estiveram juntos?
Quem nunca se pegou com lágrimas nos olhos,
Ao ler um poema ou uma poesia que lembre alguém?
Quem nunca se deixou fazer loucuras,
Percorrer grandes distâncias,
Só pra estar ao lado de quem se ama?
Quem nunca se perdeu no tempo e nas horas
Por estar nos braços de alguém?
Quem nunca amou e não foi correspondido?
Quem nunca chorou, de soluçar, sentindo falta de alguém?
Quem nunca, simplesmente... Amou alguém?
Quem nunca?
Talvez exista alguém que, com certo orgulho,
Possa até dizer que nunca passou ou sentiu nada,
Nem parecido com isso...
Pode até imaginar que está em certa vantagem, afinal,
Se nunca amou, também nunca correu riscos...
Mas também, nunca teve o prazer
De passar pelo turbilhão que é "o sentir"...
Nunca sentiu tamanha emoção só por estar ao lado
De quem se ama,
Nunca sentiu o coração descompassar
Ao escutar uma declaração...
Nunca sentiu a alma leve, os olhos puros,
Ou conseguiu ouvir nitidamente
A voz do próprio coração...
Seria mesmo vantagem
Nunca ter se deixado levar
Pela plenitude que é amar?
Creio que não...
Pois amar é muito mais do que correr riscos.
Amar é desvendar o motivo de estar vivo...


QUERO SER MULHER...

Quero ser a mãe, dona de casa, mulher zelosa, fera protetora. Quero trabalhar fora, ser decidida, dura, dedicada, e ainda assim, feminina e delicada. Quero ser a amiga da vida, companheira da estrada. Sozinha ou acompanhada, quero ter o direito de lutar e ser quem eu quiser. Quero ter o direito de cair, levantar, chorar, seguir em frente. Cair e levantar de novo, se precisar. Na cama, quero ser a namorada, mulher, amante. Quero conquistar e ser conquistada, acariciar e ser acariciada. Quero ter o direito de ser quente sem ser julgada. Quero tão somente dar e receber prazer...

Quero ser Mulher... Mas sei que terei de ser forte. Terei de enfrentar, de cabeça erguida, o preconceito e a hipocrisia do mundo e da sociedade. Terei de suportar com firmeza as dores do corpo e com esperança, conviver com as feridas da alma...

Quero ser mulher... Mas tenho que estar preparada, pois muitas e muitas vezes, lágrimas cairão por meu rosto. Muitas vezes chorarei por conta da violência, do desprezo e da desilusão. Eu sei, inevitavelmente ferirão meu coração... Mas, prometo, na busca por minha felicidade, serei persistente, vigilante. Não deixarei que a crueldade dos outros o atinja. Sim, eu quero ter um coração... Ainda que ferido, pisado, magoado. Quero ter um coração... Pois preciso dele puro e intacto, para, um dia, entregá-lo a quem o merecer...

Quero ser mulher... Não só por hoje, mas em todos os dias que virão, pois acredito em cada um de seus sonhos... Como toda mulher, quero tão somente ser respeitada. Quero ser feliz... Quero amar e ser amada... Quero ter o direito de ser mulher.

Aliesh Santos


DEIXAS?

Ah, se tu deixasses,
Se não me impedisses,
Se tu me convidasses...
Entraria em tua vida
Com tamanha alegria,
Capaz de contagiar
Todos os cômodos de tua casa,
De aguçar os beijos mais quentes
E possíveis de tua boca...
Deitaria em tua cama,
Alimentando-te como a um bebê,
Ora, dando-te forças
Pra enfrentares os percalços da vida,
Ora, amando-te de forma selvagem,
Como a fêmea ardente
Que tu tantas noites sonhastes...
Ah, se tu deixasses...
Se tirasses de vez essas barreiras
Que só tu enxergas,
Mas que a todo tempo me aprisiona,
Impedindo-me de chegar a ti...
Talvez continuasse sendo
Essa mulher sensual,
Que um dia tu conhecestes,
Mas teria como promessa eterna
Manter intacta,
Tal como minha saia rodada,
O sorriso puro de criança
Que tu tanto amas...
Deixas?
05.01.2017


ESPELHO

Quero-te,
Sinto-te,
Espero-te...
Ainda que não saibas
Que sou tua...
Ainda que não consigas sentir
Que és meu...
Sinto-te com tanta verdade,
Que, em frente ao espelho,
Olhando em minha face,
Te vejo
E só a ti reconheço...
Tenho-te em meus desejos mais íntimos,
Mais profundos...
E esse amor é tão puro,
Tão verdadeiro e tão meu,
Que não importas que tu não saibas
Que te amo...
Esse amor faz tão bem a minha vida,
Completa minha alma
De tal forma,
Que às vezes esqueço
Quem és tu e quem sou eu...


LIVROS

Queria lhe rasgar de minha vida,
Como se rasgam as folhas de um livro...
Queria simplesmente não me importar
Se você está bem,
Se casou, viajou, mudou-se...
Queria mesmo nunca mais
Tê-lo em pensamento...
Queria...
Só lembrei que...
Livros não se rasgam
Nunca, jamais...
Livros são relíquias e ficarão vivos...
E ainda que, em algum momento,
Por novas tecnologias sejam substituídos,
Cada linha, cada palavra,
Cada capítulo,
Até o cheiro da página
De onde ocorreram os mais memoráveis fatos,
Dos melhores livros lidos,
Serão recordados
Como aqueles que marcaram a vida,
Que trouxeram as lágrimas,
Que rasgaram a alma...
Ficarão pra sempre impregnados
Como linhas, escritas nas janelas do tempo,
Fielmente guardadas,
Na memória do coração e do pensamento...


FENÔMENO

Nunca olhei
No fundo de teus olhos,
Mas em ti
Confio profundamente...
Contigo, sou livre,
Posso ser eu,
Tenho um encontro inesperado comigo,
Como nunca tive igual...
Nunca toquei tua pele,
Mas consigo sentir teu toque,
Consigo te sentir...
E sinto tanto,
Que toda vez que teu corpo
Procura pelo meu,
O meu responde
E onde estiver,
Atende prontamente aos apelos teus...
Por vezes questionas,
Onde encontrar respostas
Para tal fenômeno...
Não perguntes aos olhos,
Nem ao corpo,
Ou ao calor da pele...
Se quiseres mesmo saber,
Pergunta...
Mas diretamente à alma...


DISFARCE

Não sei simular sentimentos
Que não senti.
Também não sei ocultar experiências
Que nunca vivi.
Estou recusando o disfarce.
Por mais que eu tente engolir,
Ainda não consegui ingerir
Aquelas palavras horrendas,
Que de sua boca,
Tão claramente ouvi...
Elas ainda estão aqui...
Não sei onde,
Mas ainda as sinto,
Ainda machucam aqui por dentro,
Parecem corromper meu sentimento...
Perdoe-me por isso,
Mas simplesmente não sei fingir!
Admito. Estou mesmo muito longe
De ser e sentir o que previ...
Ainda sou aquilo que sou,
Ainda sinto o que não deveria sentir,
Mas estou aqui íntegra,
Sem maquiagem, sem disfarce, sem corretivo,
Mostrando meu eu...
Perdoe-me a decepção...
E se lhe interessa saber,
Não lhe devo nada,
Você também me decepcionou...


PEGADAS

Já nem sei o que passou,
O que passei.
Se acertei, se imaginei,
Ou se simplesmente me equivoquei. Realmente, não sei...
Tudo o que sei é que,
Munida de uma coragem absurda,
Eu ousei, eu vivi, eu amei,
Depois sorri, senti, chorei,
Briguei e fui feliz...
Mas agora, que estranho,
Não sinto, nem vejo
Absolutamente nada...
Não consigo mais me ver
Nas sombras do que fui,
Nem do que senti...
Talvez porque olhando pelas frestas
Desse caminho que,
Por tantas vezes segui,
Não consiga mais encontrar
As pegadas repletas de sonhos,
Que me trouxeram até aqui...


AMOR DE MULHER

Teu amor transmite a paz
Do amanhecer de um dia calmo,
Sereno, tranquilo...
Tão doce e tão leve,
Que só água cristalina pode transparecer...
Teu corpo transmite a impaciência
De um mar volátil, revolto, perigoso,
Quase impossível de mexer...
Observo-te e vejo-te sempre
Tão linda, tão meiga,
Inteligentemente perfeita...
Admiro-te...
Tão compenetrada, agitada,
Tão ousada,
Com teu jeito
Apaixonadamente inconstante,
És pura emoção...
Mas é no teu coração de menina,
Que encontro a doçura da criança,
A beleza de uma deusa,
Que encontro o amor de uma mulher...
E é nas peripécias desse amor,
Que vou deixar que me leve...
Que vou amar e ser amado.
Amar-te é tudo o que mais quero,
É tudo o que preciso para ser completo...
Amar-te com e sem loucura,
Amar-te com tanta ternura,
Com tanta doçura,
Que por vezes, acho impossível conceber...
Mas é quando te vejo,
Te beijo,
Te toco,
Te sinto,
Que percebo,
Que amar-te
É tudo o que mais quero
E preciso fazer...


FEITO VINHO, DESTINO...

Não sei como
Nem porquê,
Mas eu sempre soube
Que era você.
Mesmo antes dessa nossa
Existência desencontrada,
Das tantas andanças pela longa estrada,
A procura do que não se guardava,
Eu já sabia...
Já sabia que um dia
Você viria,
Mesmo sem saber de fato,
Se você existia...
No dia imprevisto
E bem marcado pelo destino,
Você apareceu
E, feito bebida fresca,
Veio molhando-me a boca,
Carregando-me a alma,
Trazendo-me a paz,
E dentro de mim,
Fazendo tremenda arruaça...
Logo, estava eu
Totalmente embriagada
De você...
E feito vinho tinto,
Meio adocicado, meio amargo,
Fui me deixando sorver
E por você fui sendo sorvida
E, tão rapidamente
Que nem vi,
Nem notei,
Apenas senti
E me deixei ser degustada...
Hoje, de bebida fina,
Passou a ser minha bebida brava,
Que me puxa, me prende,
Tornando-se indispensável
Em minhas noite frias
E tórrida madrugada...


ESCREVER É SER LIVRE...
Autoria: Aliesh Santos

Escrever foi a forma que encontrei para aliviar minha alma, às vezes tão carente, outras tão repleta de sentimentos. Foi a forma de libertá-la das prisões do mundo em que vivo. De viajar por lugares que provavelmente jamais conhecerei. Escrever é sonhar e conseguir pôr em prática o que se sonha... É amar e ser amada. Ou amar e não ser correspondida. Tanto faz... O que importa é o sentimento empregado. Escrever é a forma como me dispo em palavras e consigo demonstrar o que sinto. Às vezes, em cinco minutos, um texto fica pronto, outras começo a escrever e por algum motivo não consigo terminar. Depois, em um dia em que me sinto mais inspirada, pego o mesmo texto e dou continuidade. É claro que os sentimentos primários não serão mais os mesmos, tudo já mudou dentro de mim e um texto que eu imaginava ter um fim, terá outro completamente diferente... E é isso o que me fascina no mundo das palavras. Escrever pra mim é sentimentalizar o real e/ou o irreal. É ser livre mesmo estando em uma prisão. Por isso, sou tão avessa aos rótulos. Apenas sinto, escrevo... e pronto. Sou grata aos céus por conseguir ser livre, ainda que somente por meio delas, das palavras.
27.05.2017


POR UM SEGUNDO APENAS...

Ah, Amor querido,
Desculpa meu egoísmo!
É que estou fora de mim,
Hoje a saudade é tanta,
Que me concedi o direito
De amanhecer assim...
Após amargar noite insone,
Tentando sem sucesso,
Tranquilizar um corpo ardente,
Sem culpas,
Estou totalmente entregue à vaidade...
Assumo, sem o menor constrangimento,
Que não me faria de rogada,
Se no momento de nosso encontro,
O mundo inteiro parasse
E atônito, testemunhasse
O vai e vem de nossos corpos nus,
Enfim, se despedindo da saudade...
Pode parecer loucura,
Mas hoje adoraria que,
Nem que fosse por um segundo apenas,
Nossa felicidade
Transpassasse as barreiras do espaço
E por todo planeta Terra,
À boca pequena,
Só se ouvissem falar de nós dois...
15.05.2017


EM TEU CORPO...

É na nudez de teu corpo
Que o meu repousa,
Descansa,
Relaxa,
Dos desgastes do dia,
Das loucuras da noite,
Das angústias da madrugada...
É na plenitude de teus braços
Que meu corpo encontra
O aconchego,
O frisson,
O desassossego,
O gozo profundo...
É em tua boca
Que a minha encontra
Um abrigo quente,
Doce, seguro,
Para deleitar-se dos prazeres
Do beijo,
Das inquietações da carne,
Das satisfações da alma...
É em teu olhar
Que o meu,
Ansioso,
Aguarda compreensão,
Consolo,
Ou simplesmente
Carinho em forma de palavra...
É em ti...
E só em ti
Que encontro o alimento
Para meu corpo,
A paz para meu sorriso
E o enlevo pra minh'alma...


MEU PRESENTE

Quando me deitei
Em tua cama,
Não quis apenas
Te entregar meu corpo.
Quando me deitei
Em teus ombros,
Não só repousei meus anseios,
Meu cansaço,
Como me deixei à mercê
De tuas mãos,
Lábios e abraços...
Não vês que ,
Quando me entreguei,
Estava me desprendendo
De minhas amarras
E sendo tua livremente?
Quando, nua, me deitei
Em tua cama,
Fechei meus olhos,
Dei-me toda,
Inteiramente.
Deixei o passado de lado
E em ti
Fiz meu presente...


TRAPO

Depois de tudo,
Agora chegas assim
De repente,
Inquerindo-me,
Querendo saber por onde anda
Aquele sentimento
Tão intenso e verdadeiro
Que um dia, inteiramente,
Foi entregue a ti...
Não deveria,
Mas vou te dizer.
Depois que fostes pra longe,
Com imensa dificuldade,
Pedaço por pedaço, o recolhi...
Por algum tempo,
Sem sucesso,
Tentei colá-lo.
Fiz o que pude,
Mas, como foi impossível
Re-costurá-lo,
Deixei-o emendado
Lá no fundo do armário...
No começo,
Tentei não amassá-lo,
Para não maltratá-lo ainda mais.
Mas, com o tempo,
A saudade deu lugar à realidade
E, por muito pouco,
Quase dele me esqueci...
Dia desses,
Procurando por outras lembranças,
Encontrei-o entulhado,
Sujo, aos pedaços, empoeirado,
Em meio ao mofo,
Era quase um trapo...
Não fosse o olhar tristonho,
Não o reconheceria...
Mas o reconheci.
Não estava muito diferente
De como fiquei
Quando tu te fostes de mim...


TOQUE

Nunca tocou minha pele...
Nunca beijou meus lábios...
Nunca sentiu meu cheiro,
Ou o calor de meu corpo...
Nunca cheirou meus cabelos,
Ou olhou-me no fundo dos olhos...
Mas, dentro de mim,
Viajou profundamente...
Invadiu meu corpo,
Meus lábios,
Pensamentos...
Em minha boca,
Senti seu hálito,
A intimidade de seu corpo,
O calor da língua sua...
Beijos quentes, ternos,
Carinhos mútuos,
Loucuras,
Gostosas,
Só nossas...
Nunca nos tocamos,
Mas, juntos,
Exploramos caminhos,
Descobrimos atalhos,
Um no outro,
Fizemos morada...
Nunca me tocou,
Mas teve o melhor de mim...
Tocou onde ninguém conseguiu,
Chegou onde ninguém jamais alcançou...
Nunca me tocou,
Mas profundamente me atingiu,
E penetrou,
No fundo de minha alma...
Aliesh Santos


OLHA-ME...

Olha-me com seriedade,
Com carinho,
Com atenção...
Olha-me com amor,
Com desejo
E muito tesão...
Olha-me...
Depois de cada briga,
Cada abraço,
Cada beijo,
De cada amasso...
Olha-me...
Daquele jeitinho
Que só você sabe me olhar...
Olha-me...
Ainda que não me beije,
Que não me abrace,
Que não me ame,
Apenas olha-me...
Mas olha-me com os olhos
De um homem,
De um amante,
De um amigo...
Ou com os olhos
Do corpo, da alma
Do espírito...
Só quero que me olhe
E nem por um instante
Deixe de me enxergar...
Aliesh Santos


FANTASIAS

Quando me quiseres,
Ainda que aparentemente eu esteja distante,
Não hesite: Tenha-me!
Toma-me em teus sonhos mais abstratos;
Tenha-me em teu mundo mais real, mais ousado...
Enquanto não posso te tocar,
Alimento-me das malícias
Que escorrem de teu olhar;
Enquanto de ti finjo estar longe,
Delicio-me com tuas palavras,
Como a abelha se lambuza com o mel...
Quando me introduzes em tuas poesias,
Tuas palavras tomam forma,
Gosto, cheiro e sabor de mim...
Quando em teus textos intitula-me Musa,
Tuas rimas ficam atrevidas, confusas...
Ora utilizas de formalidades, requintes, delicadezas,
Ora abusas de tuas indecências,
Descrevendo-nos despidos em deliciosas obscenidades...
Sem pedir licença,
Tuas prosas invadem meu corpo,
Sugam meus lábios, lambem meu pescoço,
Retiram meu néctar, todo meu extrato...
Abusadas, tuas trovas me cercam
E por tuas quatro linhas, sou rendida, sitiada...
Deixas-me nua, encurralada...
E eu? Comemoro, adoro...
Não há como fugir de ti.
Percebes como não estou longe?
Enquanto em tuas palavras, jamais estarei distante...
Então, leva-me contigo, vista-me com tuas fantasias...
Carrega-me por teu mundo, leia-me,
Desnudando meu corpo em escritos...
Depois, abraça-me em poemas,
Beija-me em poesias, devora-me,
Dando-me o melhor de ti...