Cadeira 21 - Ernesto Moamba


Ernesto António Moamba, nasceu em Moçambique, África, Formado em Contabilidade Geral Básica e Financeira, Gestão de Materiais e Educação Financeira. Poeta e escritor, iniciou com apresentação dos seus trabalhos literários (poesias, contos, crônicas) nas escolas e mais tarde resolveu divulgá-los em jornais, revistas e redes sociais. Participou de três Antologias: O mundo dos sonhadores, um brinde a poesia e Corpo Negro, 2016- lança com a Editora do Carmo o seu primeiro livro intitulado "Liberta-te Mãe África" É membro do grupo Intercâmbio dos Escritores da Língua Portuguesa e presidente do grupo Lusofonidades-: Divulgando literatas lusófonas.



CONTINENTE CHAMADO NADA
[ A minha Mãe África]

Quem é nada?
Sujeito mais falado em África
Que não sei, se é branco ou negro
Se veste, se tem casa, se dorme ao relento.

Não sei,
Só sei que nada é nada
Talvez nos cruzaremos
Num momento de vanguarda
Sei lá, Se também foi usado
Como escravo, apenas ouvi falar,

Que nada carregava blocos e tijolos pelo colo
Que nada, era violentado pelos colonos
Mas no fim, nada tornou-se milionário em África

Nada já não é mais escravo
Nada é símbolo da África
Nada é respeitado na Europa,
E na diáspora da Ásia

Nada esta libertado,
Continua condenado na África
Porque, Nada é respeitado.


EUFORIA DE PRAZER

Nunca pensei
Que um dia a escrita,
Sobre forma de versos brancos
E soltos
Tensamente, excitaria o homem.

Hoje tenho a prova disso
Sou um poeta viciado em sexo
Sem proteção na esferografica
Rabisquei e engravidei o poema.


DESABAFO

Sou poeta
Filho de África
Embora a insônia me iluda
E escravize ideias em linhas cortadas
E rimas equivocadas
Crítico, menos ainda.
Não tenho o saber nem vocação
Mas sou leitor teimoso
E descendente da escravidão
De muitos anos de prazeres
No aroma da palavra certa.


A MUSA DA SOLIDÃO

Mãe
Enquanto com dentes de pedra
Rasgas tapetes de Alface
E cacana,

Lá de outro lado,
Clandestinamente se alimentam de
Olfacto das carnes...
De nada


DEAMBULANDO NAS BICHAS DE MUSEU
[ Conto vecedor de Premio Internacional de Prosa- Prêmio Machado de Assis 2017]

Recordo que naquela manhã de sexta-feira antes de o sol nascer e as nuvens despirem-se sobre o céu, totalmente azul, meus pés paralíticos rasgavam as silenciosas ruas e avenidas em direção ao Museu para apanhar o vulgar chapa sem de praça dos combatentes via jardim, mas no momento da partida o que parecia nos miolos da cabeça e enfraquecia a minha disposição, era pensar que iria chegar a paragem suado e cheio de cansaço e sem vontade de ultrapassar sequer um ponteiro vermelho do semáforo e, para piorar meu estado de aposento, ter que entrar em guerrilha sem armas nem azagaia com os sanguessugas de smart kikas e galaxy que de dia e de noite sempre encontravam-se instalados.
Mas o que não sabia é que um deles a sorte lhe tinha afugentado, passado poucos minutos ouvia de lado de trás o clamar da viatura da PRM que traziam as provas de busca imediata de um dos malogrados.
O susto partiu-me quase todos os meus sentidos, visto que o tal encontrava-se escondido no traseiro esquerdo de uma senhora volumosa, que o seguia na bicha. Mas graças a Deus a polícia agiu rapidamente. Já passava das 10:30 da manhã. Lá estava bem faminto e com sede, começava a me estressar lamentavelmente porque nem sequer o TPM passava para me recrutar, pois ainda tinha que fazer duas ligações.
-Oh meu Deus, dizia com os olhos virados ao céu. Quando senti o aroma de uma mão a passar pelas arredores das minhas costas em direção ao bolso da calça de uma das vizinhas na bicha...
Quando este voltou nem imaginam o que trazia, um lencinho bem sujo que o homem usava para sacudir o ranho e o suor do filho que estava bem ao lado dele, mas infelizmente sem se importar se é que o ladrão viu o seu estado sequestrava cada vez mais com clandestinidade... Até que o lencinho (continua)...


PORQUÊ MOÇA (MBIQUE)

Diz-me Mãe!
Porquê tenho que hoje comemorar
Sei que é o dia da paz
Mas porquê não enxergo o sorriso,
E o brilho nesses olhares?

Responda-me MOÇA (MBIQUE)
Porquê clamas em festejar,
Sabendo que lá de outro lado
Clandestinamente seus filhos
são massacrados...?

Ernesto Moamba
(Filho da África)
© Todos os direitos reservados.


OUTRAS DORES

Quando espelhavam-me de chinelos
E de calças rotas e sujas
Tratavam-me de Rei,

Mas, hoje que estou de sapatos
Nem se quer ousam me ver.

Ernesto Moamba
[Filho da África]
© Todos os direitos reservados


OFORIA DE PRAZER

Nunca pensei
Que um dia a escrita,
Sobre forma de versos brancos
E soltos
Tensamente, excitaria o homem.

Hoje tenho a prova disso
Sou um poeta viciado em sexo
Sem proteção na esferografica
Rabisquei e engravidei o poema.

Ernesto Moamba
(Filho da África)
© Todos os direitos reservados


DEAMBULANDO NAS BICHAS DE MUSEU

Recordo que naquela manhã de sexta-feira antes de o sol nascer e as nuvens despirem-se sobre o céu, totalmente azul, meus pés paralíticos rasgavam as silenciosas ruas e avenidas em direção ao Museu para apanhar o vulgar chapa 100 de praça dos combatentes via jardim, mas no momento da partida o que parecia nos miolos da cabeça e enfraquecia a minha disposição, era pensar que iria chegar a paragem suado e cheio de cansaço e sem vontade de ultrapassar sequer um ponteiro vermelho do semáforo e, para piorar meu estado de aposento, ter que entrar em guerrilha sem armas nem azagaia com os sanguessugas de smart kikas e galaxy que de dia e de noite sempre encontravam-se instalados.
Mas o que não sabia é que um deles a sorte lhe tinha afugentado, passado poucos minutos ouvia de lado de trás o clamar da viatura da PRM que traziam as provas de busca imediato de um dos malogrados.
O susto partiu-me quase todos os meus sentidos, visto que o tal encontrava-se escondido no traseiro esquerdo de uma senhora volumosa, que o seguia na bicha. Mas graças a Deus a polícia agiu rapidamente. Já passava das 10:30 da manhã. Lá estava bem faminto e com sede, começava a me estressar lamentavelmente porque nem sequer o TPM passava para me recrutar, pois ainda tinha que fazer duas ligações.
-Oh meu Deus, dizia com os olhos virados ao céu. Quando senti o aroma de uma mão a passar pelas arredores das minhas costas em direção ao bolso da calça de uma das vizinhas na bicha...
Quando este voltou nem imaginam o que trazia, um lencinho bem sujo que o homem usava para sacudir o ranho e o suor do filho que estava bem ao lado dele, mas infelizmente sem se importar se é que o ladrão viu o seu estado sequestrava cada vez mais com clandestinidade... Até que o lencinho se soltasse do bolso do homem.
Eu assistindo todo o drama de frente nada poderia fazer além( continua)

Ernesto Moamba


OFORIA DE PRAZER

Nunca pensei
Que um dia a escrita,
Sobre forma de versos brancos
E soltos
Tensamente, excitaria o homem.

Hoje tenho a prova disso
Sou um poeta viciado em sexo
Sem proteção na esferografica
Rabisquei e engravidei o poema.


AS PEGADAS NO PASSEIO DO VENTO

Tu dormes minha virgem África!
Dormes mais que uma pedra estática.
Enquanto não despertas
O teu mundo murcha.
Levanta-te do silêncio
E esgravata no meu corpo precioso.

Ó mãe África misteriosa,
Vestida do aroma de ouro e mineral,
Como vagueias no alto da solidão?

Minha mãe,
Minha rainha,
Minha virgem
E idolatrada vaidosa,

Enxergo-te clamando
Sobre as montanhas do Zambeze,
Rios e lagos do Nilo.
Lamento seus acutilantes sorrisos
Que hoje te condenam a solidão e desespero

Minha mãe
Teu corpo põe-me a duvidar.


LIBERTADOR

Sou da geração libertada
Para esquentar o desespero
Da África.


O poeta Cruz e Sousa
João da Cruz e Sousa era Filho de Guilherme da
Cruz, mestre pedreiro, e Carolina Eva da
Conceição, lavadeira, ambos negros e escravos,
alforriados por seu senhor, o coronel Guilherme
Xavier de Sousa. Do coronel, o menino João
recebeu o último sobrenome e a proteção, tendo
vivido em sua casa como filho de criação.
Estudou no Ateneu Provincial Catarinense, de 1871
a 1875, onde aprendeu francês, inglês, latim,
grego, matemática e ciências naturais. Aos oito
anos, já recitava versos seus, em homenagem a
seu protetor.
Em 1881, fundou com Virgílio Várzea e Santos
Lostada, o jornal Colombo, no qual proclamavam
adesão à Escola Nova (o Parnasianismo). Nesse
mesmo ano, viajou pelo Brasil na Companhia
Dramática Julieta dos Santos, na função de ponto.
Também realizou conferências abolicionistas em
várias capitais. 


CONDENAÇÃO

Sou terra seca,
Bebendo das aguas dos rios, que defecas dos teus olhos feridos,
Mãezinha!


[...]

Mãe!
Não te suicides,
Por mais dor que sentires
Não te irrites,

Continue firme e virgem
Pois, estas feridas não
existem,
São apenas sitomas de prazeres.

Ernesto Moamba
[Filho da África]
© Todos os direitos reservado


[...]

Sou terra seca,
Bebendo das aguas dos rios, que defecas dos teus olhos feridos,
Mãezinha!

Ernesto Moamba
[Filho da África]
© Todos os direitos reservados


RESENHA DO LIVRO: "Liberta-te,
Mãe África", de Ernesto Moamba, com João Paulo Silva.
[Adquira no site: www.amazon.com]
-www.editoradocarmo.com

Temos nesta obra inigualável do grande Ernesto Moamba um conjunto de poemas que se sequenciam ao longo do livro, não de forma vitimada, mas um grito de clamor de liberdade que já começa pelo próprio título da obra "Liberta-te, mãe África". O estilo do livro, de forma clara reflete o estilo do autor, com sua simplicidade, mas com uma força surpreendente.
Poemas escritos por um jovem rapaz, que tem uma carga de maturidade muito grande.
Podemos perceber uma relação lógica entre as ideias, pensamentos e fatos; entre o discurso e a ação.
Unindo o discurso reflexivo e o grito por socorro, Ernesto cria uma obra riquíssima e emocionante em que temos poemas onde o autor implora para que a virgem África acorde de seu repouso, levante-se e liberte seus filhos.
Há também muitas referências aos
costumes africanos, costumes do povo moçambicano. Além de referências aos escritores e poetas Ungulani Ba Ka Khosa (pseudónimo de Francisco Esaú Cossa), José Craveirinha, Luís de Camões, dentre outros. O objetivo deste livro não é o de transmitir uma sensação de piedade para quem o lê, mas, sim,transmitir o desejo de liberdade, e isto está nitidamente e intensamente presente em cada um dos poemas que compõem o livro. Este autor dá ênfase e valoriza a literatura africana, viabilizando uma rica ponte entre a lusofonia. É através da literatura que o autor escolheu levar ao mundo seus textos grandiosos, é através da lusofonia que o autor está construindo uma ponte de união entre os lusófonos em língua portuguesa e é através da sua humanidade que o autor mostra o ser humano que existe em seu íntimo que, por sua vez, "esconde" sua parcela de divindade.

"Liberta-te, Mãe África"é uma obra ímpar como bem comecei esta resenha, um convite à autorreflexão


MULATAS

Fartei-me, de esgotar nessas rotinas
Que cheiram a histeria
Dessas turvas meninas.

Ernesto Moamba
(Filho da África)
Brasília 2016, Editora do Carmo


As pegadas no passeio do vento

Tu dormes minha virgem África!
Dormes mais que uma pedra estática.
Enquanto não despertas
O teu munda murcha.

Levanta-te do silêncio
E esgravata no meu corpo precioso.
Ó mãe África misteriosa,
Vestida do aroma de ouro
E mineral,
Como vagueias no alto da solidão?
Minha mãe,
Minha rainha,
Minha virgem
E idolatrada vaidosa,
Enxergo-te a lacrimejar
Entre as paredes insólitas da panela de barro,
Curvando-se aos pés da cacana e nhangana;
Das resinas verdes sob as folhas do
Embondeiro.

Minha mãe,
Teus olhos nus reflectem
Feridas de desespero
Marcas de solidão,
Sorrisos de omissão,
Governação histórica
E mortes das orbitas nos hospitais
Mãe,
Enxergo-te clamando
Sobre as montanhas do Zambeze,
Rios e lagos do Nilo.

Lamento seus acutilantes sorrisos
Que hoje te condenam a solidão e desespero
Mãe,
Oiço o romper da sua corda vocal
Chorando a histeria de uma politica
(velha e caiada).

Seus filhos (em troca da liberdade)
Recatando feitiços
E dívidas acumuladas.
Condenados ao trabalho
E à glória atrasada.

Enxergo-te a lamentar,
(de joelhos) cavando túmulos.
Desterradas no umbigo do seu olhar
Minha mãe
Oiço-te a gargalhar com a sua enxada de pau
Rasgando a terra por uma migalha.
Diz-me, mãe:
Porque carregas cicatrizes;
Meu berço coração,
Filhos magistrados condenados sem razão?
Seu sangue, mãe,
Irrigando areia no orvalho da manha.
Porque tantos mistérios?
Guerras no save,
E delírios das armas em muchungwe
Estiagem e secas imundos.
Minha mãe
Seu corpo põe-me a duvidar
De ti, minha amada
Mama África.

Ernesto Moamba
(A voz da África)