Cadeira 29 - Marcello Silva


Marcello Silva é brasileiro, bacharel em Contabilidade (UFPI), Estudante de Direito (UESPI) Blogueiro e autor do livro de poesias "O Pescador" (Chiado Editora). Membro da AMCL - Academia Mundial de Cultura e Literatura. Participou da coletânea "Natal do Castelo Literário" (Editora PenDragon); Participou do projeto literário "Enredado" (Editora Vidráguas). Participa do livro "Literarte Celebra o Ceará" (Grupo Literarte). Editor do blog Chavalzada. CONTATO: marcsantosilva@gmail.com / opescadorblog@gmail.com - WhatsApp: 86 99850 8320 - Facebook: https://www.facebook.com/marcellochaval https://www.facebook.com/BlogOpescador/ www.facebook.com/opescador.deilusoes.3?fref=ts - Instagram: @opescador_blog - Twitter: https://twitter.com/OPescador_Livro / https://twitter.com/Marcssilva - Blogs: https://www.chavalzada.com/ https://marcssilva.blogspot.com.br/


VELAS & FLORES

Entre túmulos mataram a saudade
No epitáfio das paixões avassaladoras,
Antes que morra o amor-menino, prematuro,
Assassinaram a nostalgia a golpes quentes de beijos e abraços.

Descansam ali, amantes dos vagos tempos de outrora
Na lápide desbotada, o resumo de quem foram:
Ninguém, senão poetas!

Viveram na brevidade do eterno por alguns minutos
O que não basta para saciar o desejo de possuir a infinitude
Do abraço do outro. Não basta!

Velas. Flores. Crucifixos. Sepulturas.
Que os mortos perdoem os invasores,
Pois os vivos, certamente, não perdoarão.

Pater noster, qui es in caelis: Sanctificétur nomen tuum.


VAZIO

O silêncio grita teu nome
Incorporo gênios
Com lâmpadas descartáveis
Faço meus (próprios) pedidos
Não me atendo
Encaixo-me na noite
Tímpano apurados
Quero teus sussurros
Teu respirar... Pulsar
Ouço o vazio a desdenhar
Perfurando-me a garganta.


SICRANO

Vasculho - me
Reviro - me
Reinvento - me
Me anexo ao subtendido dos silêncios uivantes

Peregrino sem rima
Deserto afora
Com sede de metáforas
Saara do Silva
De carona com as miragens eloquentes
Me invado... Evado - me

Cadê a lâmpada mágica?
Eu serei o meu gênio?
Brincarei de criador
Profano
Mera criatura reinventada
Reinventando...


AMIZADES VIRTUAIS
(a Iolanda Nogueira)

Num clique o portal se abre
Janelas virtuais ligam dois mundos.
Duas almas se juntam no ciberespaço
Em milésimo de segundos...

Quanto custa um amigo,
Que antes as cartas e postais
E agora os post em redes sociais,
São sempre nosso abrigo?

"Amizade é um amor que nunca morre"
Dizia Quintana em suas observações
Ela resiste ao tempo, distancia...
E as não curtidas ou visualizações...

Quanto custa um amigo...
Quanto dura uma amizade... Nesses tempos virtuais?


PRIMEIRO PORRE DE AMOR

O primeiro amor é tão tentador quanto o primeiro gole de álcool, bem como, pode ser arriscado e doloroso. Crescemos e ficamos suscetíveis cada vez mais a este mal traquino.

O primeiro amor é gole desavisado. Enchemos a cara de um amor eterno e único. Que porre! Em seguidas doses secamos a garrafa de rum. Que leveza! O coração, taquicárdico, flutua. Ligamos o wifi e enchemos nossas redes sociais de declarações e vômitos poéticos. Que porre!

Parece não existir mundo ou vida antes e depois daquele instante. É o agora infinito resumido naquele gole de amor. Beija-me com o beijo de tua boca porque é melhor teu amor do que o vinho1

Tantas adegas para serem conhecidas. Tantos sorrisos, abraços... Afagos. Quantas infinitudes iguais a estas se farão nessas mesas de am(b)ar? Quantos porres de amores ainda teremos?

Maldita ressaca, a primeira. Parece o fim do mundo a primeira desilusão de amor. Se for para doer tanto assim, nunca mais bebo disto. Que porre!

Doce engano de se enganar outras vezes. Mais uma vez, outras garrafas de amores. Desce mais uma. Anota aí, seu Zé. Hoje estou para essa 'droga' de amar.

COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA


BATUQUE

Enamorando o crepúsculo da tarde
Ouço o batuque dos meus antepassados
Minha alma grita no sussurro de Solano Trindade:
"Sou negro
Meus avós foram queimados
Pelo sol da África
Minha alma recebeu o batismo dos tambores atabaques, gongues e agogôs".

E alem dos anos passados
Ainda se ouve seus cantos,
Se ver suas gingas no terreiro de terra batida,
Que como uma ave negra adentrando á noite
Se fez infinita em um voo rasante e eterno.

Minha alma herdou
O samba;
A crença;
A capoeira e a insana vontade de liberdade.


CORAÇÃO DE PEDRA

"Beleza incerta"
Disseram-me os anjos
Até tuas lágrimas
É poesia em movimento
Deveras.
Possue o encanto das fadas
E a indiferença das pedras

SILVA, Marcello. O Pescador, 2015. Chiado Editora


Crônica ' Dona Birica.

"Ah meu filho, estou muito cansada..." é a frase dela mais usual, ultimamente, depois de ter "criado" doze filhos, além de cinco outros que morreram antes de completar um ano de idade. E ainda ajudou a matriarca dos Araújos a 'criar' o seus.
Seu nome é Maria, igual a tantas outras 'Marias da Conceição'. O Silva é o detalhe que a torna de aço. Ela casou aos quinze anos, ficou viúva aos sessenta e em sua vida, incorporou uma heroína digna dos melhores roteiros hollywoodianos.
Hoje, aos 83 anos, 12 filhos, 37 netos e 48 bisnetos, ela contempla o silencio enquanto espera a água ferver para seu café mágico. Cansada e dolorida, mas, inquieta. Levanta ás cinco horas da manhã para seus afazeres domésticos. Por vez, desconfio que não seja humana: como pode tal bravura?
Seu corpo, de que matéria é constituído? Cada cabelo branco e cada ruga em seu rosto é uma página da vida, uma lição aprendida, cuja experiência foi preciso cravar na pele para que outrem, ao observar, também aprenda que a vida, para ter sentido, é preciso ser construída de desafios, batalhas e obstáculos quase intransponíveis.
De tudo, o que mais admiro é seu silencio que me cortam as metáforas... Aquele olhar para o vazio que esconde mistérios que jamais decifrarei. Não sei o que pensa. Se sente saudades de ontem ou se sonha com o amanhã.
Enquanto isso, o café já está pronto e ele tem gosto de flores e cheiro de fadas. Acho que, um pouco da sua essência, escapa em tudo que ela faz.

SILVA, Marcello. O Pescador. Chiado Editora, 2015. 102 p.

P.S.: Dona Birica faleceu último dia 09 (Novembro de 2016)


Não se esqueçam da Rosa

Não se esqueça da rosa
Não a "rosa viniciana"; não a rosa do jardim Botânico
Não a rosa do Parque Ibirapuera nem tampouco a rosa do Éden,
Mas a rosa que nasceu em teu quintal
Entre a cerca caída e o muro mal rebocado sob
Entulhos e lixos jogados.

Não se esqueça da rosa,
Plácida, incolor e insípida
O que importa sua cor ou seu cheiro?
Necessário é entender o porquê de seu nascer repentino.

Não se esqueça da rosa
Que com ela trouxe esperança , sentido novo,
Caminho diferente para que tu agora siga
Retilíneo a tua vitória.

SILVA, Marcello. 2017


CREPUSCULAR

Cai a tarde aos pés
Implorando poesias.
Declamo Billac
Leio Carmen
Café puro me congela os neurônios
o conhaque falsificado não me alegra...
Tenho a tarde e as dobras do tempo
em encaixes com postigos...

Entre poemas invento veredas
vestígios de caligrafia
sinais de poesias.

Me identifico...
me perco entre metáforas na solidão crepuscular...

SILVA, Marcello. 2017


BASTA!

É como se me bastasse esse instante em que habito
É tudo de necessário que necessito para existir
Gritos do passado ecoam nas paredes e eu os renego
Como quem dispensa a droga que o alimenta, por saber que ela também o matará...

Renego teus beijos e tuas promessas fáceis
Esse teu cheiro de éter não mais me ludibriará
Já conheço seus truques... Mágica repetida

Basta!

Não quero voltar a habitar teu mundo incerto
Ainda que belo e alucinógeno. Não, não a quero!

Basta!

SILVA, Marcello. 2016


AOS ARES

Do que vale o passado
se o verão o levou para além dos oceanos,
e as nuvens em tempestade louca o destruiu pelos ares.?

Passou o ocorrido e lá ficou
sorrindo, exato na história vivida
O passado apagou-se como se apaga uma vela;
uma fogueira despedaçada na chuva insana...

Com o tempo bilhões de coisas certas e
incertas deixaram de existir,
e o tempo, arquiteto mentiroso, construiu
outras tantas iguais...

Do que vale relembrar o passado,
se ele foi uma mentira incerta e mal contada?


SONHO MALDITO

Tive um sonho maldito
Em cujo, faíscas mortíferas voavam de teus poros
E Eu, de lança em punhos, desfigurava teu cerne...

Que sonho maldito!
Gosto de sangue em minhas salivas
Entre meus caninos, teus neurônios desfaleciam-se.

Que sonho maldito
Que, numa explosão de metal e sangue, nos despedaçamos no ar rarefeito.

Acordo assustado
Com cheiro de éter nas narinas.


VENHA!

Oh menina!
Quero morar no teu abraço
Nesses teus afáveis laços
Sem palavras ou intenções terceiras... Adormecer.

Esse teu respirar arfante
Cúmplice do meu silêncio
Que entende o que não digo.

Oh menina!
Veja! No céu há lua
Aqui há uma cadeira vazia
E uma xícara de chá a sua espera desde as três.

Venha!


JOGO

Debaixo dos meus troféus
Descansam minhas cicatrizes
Ninguém vence sem suar sangue
Que não chorou no silêncio entre as batalhas...

Há em cada conquista
Uma renúncia de igual dimensão
Mas é você que decide...
Qual será a próxima jogada
E quais peças serão usadas ou descartadas...
Segue o jogo.

COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA


MORRE TARDINHA, MORRE.

O dia morre lento
No morro ali atrás
É levado leve pelo vento
E sugado cada vez mais

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços...

As mulheres passam vazias
Numa ligeira passagem
Cheias de confusões e melancolias
Como doces e alegres miragens

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços...

Passou Florine, passou
Cheia de charme e melodia
Cantou uma música, cantou
E deixou meu coração numa euforia

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços...

Passaram Camilas sorridentes
Como lindos anjos perdidos
Passaram Marias inocentes
De olhares sem sentidos

Morre tardinha morre
Vem ninar em meus braços...

Ficam as ilusões alheias
Guardadas no meu armário
A trade é fria e feia
E o dia necessário

Morre tardinha, morre
No morro ali atrás
E vem ninar em meus braços
Vem. Vem cada vez mais.

COPYRIGHT © 2017 MARCELLO SILVA


Ônibus

Chaminé branca
Exalando calor pela narina negra
Meu Deus e Eu?
Viro carvão em brasa
Nesta fornalha acesa.

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LOUCURA

Só os loucos sabem amar
mas são loucos por que amam
ou amam por que são loucos?

Lucidez fugidia, quem me dera possuir...
amar sem indagações...Sem querer entender os porquês

Ser eterno em um beijo, num carinho
numa carícias...
ingerir amor sem saber quem é este.
ter as horas nas mãos e não querer segura-las

Caísse por terra a face de homem
me desse a doce ingenuidade de criança.
Amar sem medo, sem conceitos, sem fórmulas, sem previsões...sem intenções.

Que me dera a loucura dos bons

Mas, quem é louco, senão os que amam?
Amam?


INSTANTES

Dentre sete bilhões de transeuntes (aproximadamente) perambulantes neste mundo habitável (ainda ).
Não sou nada.
Não posso ser nada...ainda que, alimento da rotina e aprendiz da sabedoria.
Reconheço minha importância: um grão de areia na ventania da existência, mas, um grão de areia sou e serei e a ventania não será igual se não conter essa minúscula parte.
Enquanto casas longínquas me espiam, tento ingerir o sumo vital do dia; fazer parte da fotossíntese do verde ou ainda me recolher ao casulo e ser uma "metamorfose ambulante".
Porque há pessoas que não evoluem? Não buscam alternativas e se aprisionam em si? apegados a teoria da inércia acovardam-se em seus medos: medo da descoberta; medo da mudança; medo do triunfo ou medo do amor. Amor. Ah amor! Como diz Goethe: "Só por ele eu falo".
Entre muitos, sou mais um a vagar no silencio do dia, pés descalço, pegando carona com o vento e amando essa tal liberdade posta em meus braços como uma criança a ser mimada...
Enquanto...
O que estará fazendo agora meus amigos? Minhas musas inspiradoras? Todos o que fazem o que pensam?
Indago curioso...
Enquanto me debruço sobre filosofias esquecida e teorias evolutivas, o que faz neste instante o mundo, onde bilhões de individuo são reféns de bombas atômicas e nucleares, (cogumelos da morte)? Qual a nova tecnologia inventada que desconheço?
Qual o próximo passo da evolução?
Invadir Marte, Pandora ou a Terra do nunca? Aprisionar os ETs, Pequeno Príncipe ou Peter Pan?
Não. Não. Não
Como sete bilhões de pessoas não sei de nada. Não posso saber de nada e mesmo se soubesse minha modéstia não diria.
Deixe-me ser, ainda, um só grão de areia levado e moldurado pelo sopro divino de DEUS.

SILVA, Marcello. 2017


VORACIDADE
Eram meros apaixonados
Dois amantes
Calados...

Mesmo que antes
Declaravam-se a todo lado
Aos beijos flutuantes
Ainda não saciados...

SILVA, Marcello. 2016


A DOR QUE UNE

Sobre o caixão de um ente querido
Duas famílias se reencontram
Unidos pela dor...
Antigos insultos esquecidos
Velhas diferenças amenizadas.

As lágrimas de agora
Inundam as mágoas de outrora
Se abraçam como se nunca tivessem se renegados...

A cada aperto de mão;
A cada abraço;
A cada soluço... O passado se afogava.

SILVA, Marcello. O Pescador. Chiado Editora, 2015.