Cadeira 32 - Samuel de Leonardo


Samuel de Leonardo, nascido em Inúbia Paulista (SP) em 02 de fevereiro de 1956.

Casado há 33 anos com Inmaculada Figols e pai de Felipe e de Victor.

Graduado em publicidade e propaganda pela FIAMs, pós-graduado em Administração e Marketing pela FECAP e pós-graduado em Gerenciamento Estratégico pela Faculdade Anchieta de S B Campo.

Tenho textos publicados nos sites Recanto das Letras, O Campo (futebol), São Paulo Minha Cidade (Regional),

Textos radiofonizados na Rádio CBN São Paulo (Program São Paulo Conte a sua História)

Livro editado em 2016 de crônicas, intitulado " Hacasos".



CREPÚSCULO

Agora, o que resta de dessa vida afinal?
Viver intensamente, eu vivi.
Felicidade plena, não consegui.
Alegrias muitas tive,
Tristezas, umas tantas.
Se fiz sofrer, talvez,
Se fiz chorar, quem sabe.
Sei que as mágoas apaguei.
Num dia eu aprendi,
Noutro eu ensinei.
Caminhos segui,
Lugares alcancei,
Por vezes não cheguei.
O tempo passou,
Amores se foram,
Canções se perderam,
Amigos partiram,
A velhice chegou.
Antes que a alma se aquiete
Só peço outra vida, perene.


BOLINHAS DE SABÃO

Quando criança gostava muito de brincar com bolinhas de sabão. Passava as tardes ensolaradas sentado na mureta da varanda com a canequinha de esmalte vermelha, descascada de tanto uso e os canudos de mamonas colhidos no terreno baldio em frente à minha casa. Isto tudo foi na década de 1960, no longínquo bairro do São Domingos no Butantã, ainda me lembro muito bem que por vezes para produzir a espuma usávamos sabão em pó das marcas Rinso ou Viva, por vezes detergente ODD da Orniex, marcas que há muito saíram do mercado.
Não era fácil moldar esfera tão singular, tinha uma técnica para apanhar a espuma, soprar o canudo, com leveza para não estourar e soltá-la de mansinho, permitindo que flutuasse até alcançar as alturas. Momento de pausa para observar e com olhos acompanhar o trajeto da criação em direção ao infinito.
Já naqueles tempos e mesmo com pouca idade ficava a imaginar para onde iriam aquelas tantas bolinhas coloridas soltas pelo ar, a vagar. Nos meus pensamentos eu determinava o caminho a seguir de cada uma, como se fosse o senhor do destino.
Então, num sopro e uma bolinha de sabão se fazia, logo ela leve e solta vagava pelo ar,. Assim como meus pensamentos vagos. Esta vai para Roma para com o Papa rezar. Outra com certeza logo estará sobrevoando o Morumbi torcendo pelo meu tricolor.
Outro sopro e mais uma esfera a voar com destino a qualquer lugar. Notava que poucas conseguiam vingar, muitas numa fração de segundos estouravam antes de alcançar uma altura razoável. Mas tinham outras vitoriosas que iam longe, longe até a vista não mais alcançar. Para onde teriam ido aquelas tantas bolinhas de sabão, lindas criações, mas tão sensíveis ao vento?
Hoje, maduro e experiente faço um paralelo entre cada bolinha de sabão surgida numa brincadeira infantil e cada vida nascente. Num sopro surgimos, morremos ou seguimos em frente e, mesmo com todo o vento nos deixando por vezes à deriva fica a certeza que podemos triunfar e atingir o nosso objetivo.


O MENINO DA PIPA

Passava das quatro horas de uma tarde de verão paulistano com um calor insuportável, beirando a casa dos 35 graus. Correndo de um lado para o outro no meio da rua o menino tentava a todo custo colocar a sua pipa no ar, empreendimento por demais desafiador, o vento se mostrava insuficiente para alçar o seu brinquedo confeccionado de papéis de sedas nas cores vermelho, preto e branco rumo ao céu de brigadeiro sem nuvens e de um azul tão intenso que mais lembrava um oceano manso com suas águas límpidas.
Da janela da minha casa no bairro do Butantã, sem compromisso, eu apenas observava aquela criança em sua busca incessante de colocar o objeto no ar.
Lá vai ele ladeira abaixo em disparada correndo contra o vento e soltando a linha para que a pipa, como se estivesse a desafiar a lei da natureza, tomasse o seu rumo num céu sem limites.
Momentos depois ele volta subindo a rua carregando o seu brinquedo, ofegante, mas trazendo em seu semblante a certeza que mais cedo ou mais tarde consegue atingir o seu objetivo.
Inúmeras foram as tentativas até que o menino tem seu esforço recompensado, logrando êxito e se alegrando com a pipa em movimentos suaves como um peixe a nadar em águas tranquilas. Agora sentado ele curte aqueles instantes e soltando compassadamente a linha deixa que o vento carregue para cada vez mais distante a pipa tricolor.
Eu o invejei, pois sei bem como é esse instante, na minha infância eu já empinei muitas pipas, papagaios e seja lá que nome recebe a peça nesse imenso Brasil e pude passar horas de plena satisfação.
Olhando para o alto meus olhos já não conseguiam localizar a pandorga na imensidão do oceano celeste, aquela abóbada anil moldando o firmamento. Não resistindo à vontade e à saudade que se apossou de mim, me dirigi ao garoto para vivenciar de perto aquela sensação de alegria. O Encontrei com um sorriso puro de moleque moldado em seu rosto, muito compenetrado. Com uma mão ele segurava a lata vazia e com a outra tocava a linha esticada que seguia em direção às alturas.
- Poxa, você descarregou toda a linha para ele subir - indaguei.
- Descarreguei mesmo, é a primeira vez que consigo botar uma pipa tão alta.
- Você parece feliz com a sua pipa, mas não pode vê-la.
- Verdade moço, de tão distante não consigo enxergá-la.
Mostrando a linha ele pede para que eu a toque e de imediato fala com toda propriedade:
- O importante não é ver, moço, o importante é sentir.
Suas sábias palavras me levaram então à reflexão, o segredo das coisas boas da vida está não apenas naquilo que contemplamos, mas também naquilo que sentimos.