Cadeira 34 - Lindolfo Fagundes // Cidah Viana


JOSÉ LINDOLFO FAGUNDES, bacharel em direito, nasceu em Andrelândia, no Sul de Minas Gerais. Escrevia crônicas, contos e peças de teatro ironizando, com bom humor, a moral e os costumes.
A novela "Chapéu Roxo" foi indicada para vestibular da FADOM - Faculdade de Direito do Oeste de Minas, indicação que obteve, também, a peça de teatro "A Barragem", em vestibular da FACED - Faculdade de Ciências Econômicas Administrativas e Contábeis de Divinópolis. A maneira simples de escrever, com concisão e clareza, a imaginação fértil, o conhecimento do meio e das pessoas onde as ações se passam, envolvem o leitor do princípio ao fim de suas narrativas:
Mas será o Benedito?
É o próprio. Benedito, bendito, abençoado, aquele que chega depois de quinze outros com o mesmo título. E isso acontece desde o ano 558 quando o Bispo Mercúrio foi eleito Papa. Não dava para manter um pontífice com nome de deus pagão. Ficou sendo João II. Foi aí que se iniciou o costume da imposição de um novo nome. Mas Benedito XVI teve, para nós no Brasil, apenas um papado de uns trinta minutos: do momento em que se anunciou:"Habemus Papam: Joseph Ratzinger que usará o nome de BENEDITO XVI", até a declaração que mudou o nome para Bento XVI, somente entre os povos de língua portuguesa.
Mas estaria correto dizer Bento em lugar de Benedito? Aí, a coisa pega, pois se para os latinistas ambos vêm de "benedicere" que quer dizer "abençoar, louvar, dizer o bem, bento", no nosso idioma, "bendito" é particípio de "bendizer", enquanto que "bento" é um dos particípios de "benzer". Aí reside a dúvida. Eu nunca conheci nenhum Benedito apelidado de Bento. Do primeiro, Bené ou Dito; do segundo, apenas Bentinho. E nunca soube de algum Bento, cujo nome de batismo fosse Benedito. E São Bento, cuja medalha trago no pescoço, nada tem a ver com São Benedito.
Por finalmente, deixando a questão para outrem, fica aqui uma linda frase em latim que soa redundante: "Benedictus benedicat benedictum" (Que Benedito abençoe o que está Bento). E de agora em diante quando se fizer aquela popularesca pergunta "Mas será o Benedito?", a resposta virá, prontamente: "Nananinanão... agora é o Bento".

CHAPÉU ROXO

Chapéu Roxo vivia no arraial da Santíssima Trindade, onde nascera. Ainda não usava o exótico chapéu e frequentava o Grupo Escolar. O pai trabalhava com uma carroça e a mãe já se iniciara como parteira, substituindo uma negra mirrada que morreu com mais de cem anos, e que conhecera a escravidão. Toda tarde, Chapéu Roxo levava para o pasto a mula que puxava a carroça. Ali galopava nos outros cavalos e fornicava com as éguas, levando-as para perto dos cupins, a fim de neles subir.

Ganhava uns trocados, ajudando na venda do sô Aniceto. No outono, vendia frutas do quintal de sua casa. todos o conheciam por Sócrates, seu nome de batismo, uma homenagem ao pai do Coronel, e o sobrenome era Pinto da Silva. Apelidara-se de "Soca", alcunha que não prosperou,pois, ligado ao sobrenome Pinto,o sentido tornava-se impudico, indecente mesmo. Por isso, Sócrates recebera uma enérgica reprimenda, numa aula de catecismo, quando a catequista, perguntando-lhe o nome, ele respondeu: "Soca Pinto."

Ao chegar à Santíssima Trindade, a notícia de que um automóvel se exibiria, pela primeira vez, em Turbidu, no domingo, sô Aniceto,o dono da venda, incumbira a Sócrates de ir até lá para observar a novidade, e contar, depois, no arraial, com que se parecia "esse tal de astromove", que ninguém por ali jamais vira de perto.

- O pai não deixa eu ir - lamentou-se Sócrates.

- Deixa, sim - afirmou convicto, sô Aniceto. - Eu falo com ele.

Falou e o pai concordou, sentindo-se até orgulhoso da escolha do filho para "espiador" do arraial. (...)

José Lindolfo Fagundes.

(...) ficou curioso? Continua no próximo domingo.


CHAPÉU ROXO
As peripécias bem humoradas de um ébrio envolvido com um feitiço.

(... continuação do dia 26/02/17)

O fordeco, dirigido pelo dono, ia e voltava na rua abaixo da estação, fazendo barulho, soltando fumaça na traseira e levantando poeira. Os mais audaciosos aceitavam o convite para dar uma volta. A maioria dos presentes, no entanto, ficava apenas olhando, receosa e espantada. Nas vezes em que a descarga explodia como uma bomba, todos corriam e alguns procuravam até se abrigar. Nas janelas das casas, as crianças olhavam curiosas; as mães assustadas. às vezes, empurrava-se o fordeco para que ele voltasse a funcionar. Nessas ocasiões, as pessoas se aglomeravam para empurrar, mas quando o motor "pegava" todos corriam para os lados, numa algazarra a que Sócrates logo aderiu. Só não andou no automóvel porque o Cabo Alarife, que comandava o reduzido destacamento policial, não permitia que menores entrassem no automóvel, exceto os acompanhados dos pais.

Ao meio dia, o dono se retirou com o automóvel e a festa chegou ao fim. Sócrates, satisfeito com a apresentação, entrou num bar e, com o dinheiro que sô Aniceto lhe dera, comprou um pão, um pedaço de salame e caminhou de volta para a Santíssima Trindade, comendo o sanduíche, gulosamente.

Ao passar pelo Cruzeiro, uma enorme cruz de madeira fincada numa pedreira, Sócrates viu a cidade lá embaixo. "É uma cidade bonita", admitiu Sócrates, enquanto, agora, olhava para o alto daquela cruz enorme onde jazia pregado um galo de lata, com o bico e as asas abertos como se preparasse para cantar. A mãe de Sócrates ensinara-lhe que aquele galo significava o anúncio do nascimento de Cristo. O pai discordava dela, dizendo que representava o galo que cantou depois que São Pedro traíra Cristo três vezes. Mas, no botequim do Carqueja, Sócrates escutara de um homem barbudo, de olhos parados como os de cobra, que aquele galo em cima da cruz simbolizava o invejoso, aguardando a hora de cantar sobre as nossas desventuras.

Sócrates chegou ao arraial quando já escurecia, pois na volta não resistira às águas das cascatinhas e banhou-se ali durante um bom tempo. Depois, seguiu caminho, imaginando como descrever o automóvel para o povo do arraial.

Ao chegar à venda, abriu caminho entre as pessoas que ali se acotovelavam e subiu no balcão para falar sobre o automóvel.
- Então, Sócrates - perguntou sô Aniceto, sob a expectativa dos presentes - como é o tal de astromove?
- Sô Aniceto, o senhor conhece máquina de costura Singer?
- Claro que conheço. Lá em casa tem até uma.
- Pois, pra começar, vou dizer para todos aqui que é muito diferente!

José Lindolfo Fagundes.

(...) continua no próximo domingo.


CHAPÉU ROXO

... O armazém de secos e molhados do sô Honório, em Turbidu, ficava num velho casarão com três portas para a rua, tendo ao lado um espaçoso pátio, calçado com pedras grandes e irregulares, onde os fregueses deixavam seus animais.

Naquele pátio, um negro forte, já de meia idade, de bigode preto e delgado, com as pontas longas e reviradas para cima, parecendo dois escorpiões, chamado sô Osmar, ferrava os animais. Era um mestre na arte de ferrar: limpava e nivelava o casco do animal com uma lâmina afiada, sem nunca ultrapassar o limite indolor; batia com força nos cravos, alternada e ritmadamente, para prender a ferradura ao casco; depois, com uma torquês de hastes longas, igual a uma tenaz que ele envolvia com as mãos grandes, cortava as pontas dos cravos que irrompiam na parte superior do casco. "Ficou bem calçado", elogiava o dono do animal, ante o riso do negro, imaginando gorjeta polpuda.

Numa tarde de outono, um homem estava encostado numa das portas do armazém e assuntava o movimento da rua. Era claro, alto, forte, o cabelo aparado na nuca, mas de costeletas compridas, com um exótico chapéu roxo na cabeça que lembrava a flor do maracujá. De repente, ele saiu da porta e foi para o interior do armazém, dirigindo-se ao caixeiro.

- De quem é aquele enterro? - perguntou, apontando para o cortejo fúnebre que já havia ultrapassado a linha do trem, rumando apressado para a Igreja Matriz.

O caixeiro pulou o balcão e saiu para a rua, seguido do homem. Olhou, atentamente, na direção do enterro e reconheceu um tal de Zé Zica que caminhava junto à cabeceira do caixão.

- É do pai do Zé Zica - afirmou o caixeiro. - O velho morreu ontem à noite.

Zé Zica era um carapina moreno, baixo e atarracado, braços curtos sempre gesticulantes, cabelos encaracolados e que estava sempre de mau humor. Talvez, por isso, retorquia às advertências de modo grosseiro e peculiar: "Zé Zica, esse andaime pode cair", advertiam-no. E o carapina respondia com aspereza: "Que cai, eu não digo, mas que desaba, é capaz."

- Ô gente, Zé Zica é meu amigo! - exclamou o homem de chapéu roxo, enquanto o caixeiro retornava ao armazém. - Vou acompanhar o enterro...

José Lindolfo Fagundes.

(...) continua na próxima postagem...


CHAPÉU ROXO

(...continuação do dia 10/04/17)

- Mas, então, seu pai morreu mesmo? - perguntou Chapéu Roxo ao carapina, já pela segunda vez, antes que o corpo subisse à escadaria da Matriz.
- Que morreu eu não digo, mas que faleceu é capaz - retrucou o carapina, já impaciente.
E, nesse dia, Chapéu Roxo fingia-se de incrédulo, pois fora ver o defunto quando abriram o caixão dentro da igreja para a cerimônia de encomendação.

Assim que o caixão retornou à rua, perguntou outra vez:
- Mas, então, seu pai morreu mesmo?
Zé Zica olhou-o de través, magoado e ofendido, afastando-se para ir revezar-se com os amigos que empunhavam as alças do caixão, braços retesados, os rostos contraídos pelo esforço e brilhantes de suor.
E segue o enterro pela rua estreita e comprida que levava ao cemitério. O comércio, ao longo do trajeto, ia cerrando as portas em sinal de respeito ou, quem sabe, com receio de que a alma do defunto ficasse por ali, como acreditavam alguns. O carapina caminhava cabisbaixo, amparando a cabeceira do caixão. Vez ou outra, respirava fundo como a expulsar do seu interior aquela tristeza toda.
Aproximando-se do cemitério, o enterro seguia bem mais depressa, talvez pelo cansaço dos poucos carregadores ou, então, porque o defunto já cheirasse mal.
E Chapéu Roxo voltou a fazer a insolente pergunta:
- Mas, então, seu pai morreu mesmo?
O carapina, esquecendo-se de toda a sua dor, partiu enfurecido sobre Chapéu Roxo, empurrando-o para fora do acompanhamento e gritou:
- Morreu, não, bobo. O pai ficou velho e eu estou enterrando ele vivo mesmo!
Cabo Alarife, que saía de um beco, ouvindo as últimas palavras do carapina, indagou de Chapéu Roxo o que se passava.
- Falou que está enterrando o pai vivo - enredou Chapéu Roxo, apontando o carapina. - O senhor não ouviu?
- Ouvi. Mas será possível?
- O povo está falando - mentiu Chapéu Roxo - que aquele carapina está meio zureta.
O cabo coçou a cabeça debaixo do quepe:
- Melhor é conferir.
- Depois não custa nada - incentivou-o Chapéu Roxo.
- Se estiver vivo, bem; se não estiver, amém.
- É... não custa nada - concordou o cabo, depois de breve hesitação.
Chapéu Roxo correu para o beco; o cabo, atrás do enterro, ordenando aos gritos que Zé Zica arriasse o caixão e o abrisse ali mesmo.
- Quero conferir se o morto tá vivo mesmo! (...)

José Lindolfo Fagundes.


CHAPÉU ROXO
... continuação do dia 19/06/17

Quando Chapéu Roxo apareceu no pátio do armazém, naquela manhã de verão, sô Oscar, o negro ferrador, preparava os cascos de um cavalo, enquanto outros animais enchiam o pátio à espera de ferraduras novas.
- Qual é o cavalo que eu vou arrear? - perguntou Chapéu Roxo ao negro, fingindo não saber qual seria o animal.
Sô Oscar não respondeu. Era próprio dele responder somente depois de ouvir o seu nome mencionado.
- Hem, sô Oscar? - insistiu Chapéu Roxo: - Qual é o cavalo?
- O baio que tá amarrado perto da água - respondeu sô Oscar, sem desviar a atenção do que fazia.
- É manso? - quis saber Chapéu Roxo.
- Despois de muntá ocê vai ficá sabeno.
Chapéu Roxo sorriu. Passara a meninice montando os cavalos soltos na vargem da olaria, lá na Santíssima Trindade; na juventude, os animais da fazenda do Coronel. Sempre teve intimidade com os equinos; com as éguas, até mais...

Chapéu Roxo caminhou entre os animais, seguido pelo olhar abelhudo do negro ferrador, e entrou no barracão. Ao ver os arreios, pendurados nos caibros do telhado por uma forquilha de madeira, a lembrança da venda do sô Aniceto trouxera-lhe um desejo intenso, uma vontade mesmo de dar marcha-à-ré no tempo e voltar à juventude no arraial. Teve saudades de tantas coisas: do pai, da mula e da carroça, do Coronel, das frutas do quintal, do Grupo e das reguadas da dona Geva, das éguas, dos cupins, da cabrita na fazenda do Coronel e do bode que lhe dera uma chifrada, inconformado com a concorrência, de pecar contra a castidade e depois ter que contar para o padre, das anedotas picantes que segredava com as mulheres e do riso delas, as faces coradas, mas o semblante de gente livre, sem medo, sem temor, sem peias, e, até mesmo, da desdentada da Cuia, que iniciara a meninada no sexo. "Quantos anos!", suspirou, sacudindo a cabeça, comprimindo os lábios, gozando aquelas recordações inesperadas, gostosamente nostálgicas.

Escolheu um dos arreios, retirou-o do gancho e voltou para o pátio, trazendo-o nas costas, segurando as rédeas.
Jogou o arreio sobre o lombo do animal, apertou a barrigueira, passou as rédeas pela cabeça dele, abriu-lhe a boca e enfiou nela um bridão que trouxera de casa. Tudo isso foi feito sem qualquer movimento de recusa do cavalo. Mas, quando ia colocar o pé no estribo, a voz áspera do negro, que se erguera, retumbou pelo pátio:
- Num munta aqui dentro!
Chapéu roxo puxou o cavalo pelo cabresto até a rua, e pôde notar que o negro, agora, ostentava um sorriso de gozação. Na porta do armazém, algumas pessoas olhavam curiosas e atentas.

Ele colocou o pé no estribo, envolveu as rédeas com uma das mãos, com a outra segurou a cabeça do arreio e, com um movimento brusco do corpo, jogou-se sobre a montaria. O cavalo deu dois pinotes com a traseira e seguiu trotando, a cabeça erguida e a cauda levantada com a vassoura jogada para frente, brindando os curiosos com abundante estrumação.
- Ele tem parte cum demonho! - disse o negro, da entrada do pátio, decepcionado e cuspindo para os lados, pois esperava que o cavalo derrubasse Chapéu Roxo. (...)

José Lindolfo Fagundes.

CHAPÉU ROXO
As peripécias bem humoradas de um ébrio envolvido com um feitiço.

(... continuação do dia 19/02/17)

Apesar de jovem e inexperiente, Sócrates era considerado um dos moradores mais inteligentes do arraial. Na escola sempre se destacou pela vivacidade e rapidez de raciocínio. Extrovertido e alegre, prestativo e educado, nunca se zangavam com ele, mesmo contando piadas picantes, ou que criticassem os costumes da época. Nascera artista e, inconscientemente, vivia em alguma época do futuro. Anos depois, após a morte do pai, quando se mudou com a mãe para Turbidu, muita gente chorou. Até mesmo os carros-de-bois do Coronel, que levavam a tralha deles, tinham um canto melancólico, lastimoso, diferente. "A Santíssima Trindade perdeu a graça", trocadilhava Tião Barbeiro, o poeta do lugar.

No domingo, bem cedo, Sócrates partiu rumo a Turbidu. Deixou a estrada na altura de uma árvore de óleo, pegou um atalho e passou pelas cascatinhas, onde sempre ia se banhar com os colegas. Olhando-as, Sócrates teve vontade de tirar a roupa e cair naquela água cristalina e convidativa dos poços cercados de pedras lodosas, formados sob as pequenas quedas d'água. Resistira à tentação, mas só prosseguiu viagem, após ouvir, prazenteiro, o barulho da água engolindo as pedras que, do alto, lançara num dos poços.

Chegou à praça da matriz, em Turbidu, durante a missa das dez. Rodeou a igreja, olhando em todas as direções, e não viu o automóvel. "Será que ele não veio?", perguntou-se com certo desapontamento.

Decidira sentar-se na escadaria e esperar pelo término da missa, mas os sons da bela música coral que vinham lá de dentro, arrastaram-no para o interior do templo. Ele gostava de música, pois desde bem pequeno já dedilhava o violão que o pai tocava com maestria. Cantava, também, mas na sua idade, não raro, a voz era de falsete. "Voz de taquara rachada", caçoava o pai. "Tá na pubescença", acudia a mãe.

Terminada a missa, os fiéis saíram e se dispersaram pela praça. Sócrates pôde observar que a maioria descera para o lado da estação do trem e em pouco tempo a praça voltara a ficar deserta. "Será que o automóvel não veio, mesmo?", interrogou-se, agora, já desiludido.

O sacristão veio fechar a porta lateral da igreja. Era pequeno e magrinho, o rosto arredondado, pregueado de rugas, o cabelo embranquecido e encacheado, lembrava um São João Batista envelhecido. Sócrates perguntou-lhe sobre o automóvel.

- O automóvel vai funcionar é lá perto da estação - informou o sacristão secamente, mordendo a dentadura, encerrando o assunto e cerrando a porta.

Sócrates se animou: sorriu e saiu em disparada, rua abaixo, até a estação.

José Lindolfo Fagundes.

(...) ficou curioso? Continua no próximo domingo.


CHAPÉU ROXO

(... continuação do dia 05/03/17)

O dono da venda, no arraial da Santíssima, sô Aniceto, saíra para almoçar, deixando Sócrates, sozinho, no estabelecimento. Pouco depois, entrou um homem na venda e perguntou pelo vendeiro.
- Foi almoçar - explicou Sócrates.
- Onde é que estão os arreios, menino - quis saber o homem, com voz autoritária, já ultrapassando o balcão e indo dar com os arreios num cômodo contíguo à venda.
Naquele local,ficavam os arreios pendurados no teto enegrecido pela fumaça de um fogão semidestruído, e que outrora servira de cozinha para tropeiros que pernoitassem no arraial.
- Vou levar este daqui - decidiu o homem, usando uma vara para soltá-lo do gancho.
- O senhor não acha melhor esperar o sô Aniceto? - perguntou Sócrates timidamente.
O homem colocou o arreio nas costas, passou para a venda e já saindo para a rua, gritou para Sócrates:
- Fale com o Aniceto para botar na minha conta.
Sócrates ficou, medrosamente estático, vendo o homem carregar o arreio. E quando lhe ocorreu de perguntar-lhe o nome, chegou à porta e viu que ele desaparecera num beco próximo dali. Não podendo deixar a venda, Sócrates optou por esperar pelo vendeiro e contar-lhe o ocorrido.
Sô Aniceto não demorou a voltar do almoço:
- Tudo certo, Sócrates?
- Mais ou menos.
O vendeiro olhou-o interrogativo:
- Por que mais ou menos?
Sócrates narrou o fato acontecido e sô Aniceto quis saber a descrição do homem.
- É um homem alto e de fala grossa - informou Sócrates.
- E o que mais?
- Estava de botas, camisa de manga arregaçada, chapéu de palha...
- Estava de óculos?
- De óculos, não senhor. Mas tinha bigode.
O vendeiro ficou pensativo.
- Deve ser freguês - disse Sócrates.
- Pode ter sido um ladrão - concluiu o vendeiro, tirando o chapéu e coçando a cabeça já bem careca.
Sócrates assustou-se. Não pensara nessa hipótese:
- Mas ele conhece o senhor.
- Ele disse que me conhece?
- Não disse, mas falou o nome do senhor.
- Isso não quer dizer que ele me conhece e nem que é freguês. Pode ter lido o nome na tabuleta da entrada.
Sócrates sentindo-se culpado disse:
- Eu vou levar um tempão, mas pago o arreio para o senhor.
Sô Aniceto soltou um palavrão e afirmou:
- Tem que pagar nada. Se eu pedi pra você ficar aqui, a responsabilidade é toda minha.
Os olhos de Sócrates sorriram junto com a boca:
- Obrigado, sô Aniceto.
Sô Aniceto tirou um caderno da gaveta:
- Mas, pensando melhor, deve ser algum freguês mesmo.
- Puxou a caneta do bolso da camisa e acrescentou, espertamente: - Vou anotar um arreio pra cada fazendeiro que tem conta aqui. Quem não tiver levado, vai reclamar.

José Lindolfo Fagundes.



CHAPÉU ROXO

(... continuação do dia 27/03/17)

O homem do chapéu roxo alternava prolongadas fases de embriaguez com curtos períodos de sobriedade.
Por causa do extravagante e inseparável chapéu que usava, apelidaram-no de Chapéu Roxo. Morava numa pequena chácara, à entrada da cidade, em companhia da mãe viúva, de onde dizia tirar o sustento, mas era ela, com o ofício de parteira, que garantia a fumacinha do fogão deles desde que vieram morar em Turbidu, há alguns anos. Eram naturais de um arraial, no mesmo município, chamado de Santíssima Trindade, e, segundo o maledicente Carqueja, dono do botequim do arraial, Chapéu Roxo ao nascer não chorou, como faz toda criança, mas já riu da feiura da velha parteira que ajudava a mãe no trabalho de parto.
"Chapéu Roxo não bate bem da cabeça", diziam dele os moradores do lugar. Para alguns, no entanto, ele não passava de "sabiá", assim, carinhosamente chamadas as pessoas que perambulavam pela cidade sem nada fazer. E acrescentavam: "É um gozador e malandro, mas vivo, inteligente e irônico, além de cantar e toar violão muito bem." O vigário via nele um oportunista, galhofeiro e irônico "além de irreverente e despudorado quando bebe." O velho médico da cidade dizia que Chapéu Roxo não crescera por dentro, pois continuava o mesmo menino vivo, extrovertido e brincalhão que ele conhecera na Santíssima Trindade. E concluía entristecido: "Pena que se tenha deixado levar pelo vício do álcool". Para a polícia, Chapéu Roxo só se tornava inconveniente quando começava a gritar palavrões pelas ruas. Na sua última "estação das águas" - assim diziam dos que bebiam, continuamente, durante um longo tempo - de herói pela manhã, passou a bandido na madrugada seguinte. Herói ao mostrar-se com coragem para voar num Teco-Teco, inaugurando o campo de aviação de Turbidu. E bandido porque na madrugada do dia seguinte, deitara-se à porta da casa do prefeito e entre uma e outra madorna, levantava-se, esmurrava a porta e gritava: "Eita prefeito alcaide!" trocadilhando, com fina ironia, a longa permanência do prefeito no cargo.
O prefeito, homem tolerante e caridoso, sempre paciente com ele, em deferência à mãe que já assistira o parto de cinco dos seus oito filhos, teve que sair, furtivamente, pelos fundos da casa, correr à delegacia e acordar o Cabo Alarife, ordenando-lhe que retirasse o ébrio de sua porta.
Naquela madrugada, Chapéu Roxo foi conhecer o xilindró, e constatou a veracidade das palavras do Coronel:
"Cana na fazenda dá pinga; pinga na cidade dá cana." (...)

José Lindolfo Fagundes.


CHAPÉU ROXO
continuação do dia 24/04/17

Lançado como um bólido dentro do bar, por um grupo de jovens numa infernal algazarra, que vinha atropelando moças e rapazes que passeavam pela calçada do footing de Turbidu, Chapéu Roxo vai de encontro a um homem que bebia, tranquilamente, uma bem gelada cerveja, de costas para a rua.
- Chapéu Roxo! - exclamou Zé da Rosa, virando-se meio desequilibrado pelo esbarrão, tentando manter a cerveja dentro do copo.
- Oi, Zé. Me empurraram - desculpou-se Chapéu Roxo.
- Não tem importância - respondeu Zé da Rosa, servindo um copo de Brahma para Chapéu Roxo. - Você não morre tão cedo. Estava pensando em você. Estou saindo para um arrasta pé na Fazenda Bela Vista. Já foi um montão de gente. Quer ir comigo?

Zé da Rosa não perdia baile na roça, especialmente se dentro de casa, pois a sala, sempre pequena, ficava abarrotada de gente o que permitia dançar bem agarradinho. Além disso, a luz da lamparina iluminava pouco, pois não podendo ficar muito alta, que arriscava incendiar o forro de esteira, não fazia mais que projetar enormes cabeças nas paredes circundantes.
Chapéu Roxo enfiou a mão por baixo do chapéu, coçou a cabeça, olhou para o amigo e argumentou:
- Tem que passar pelo sítio do Libório e a cachorrada pega a gente.
- Pega nada. A gente só tem é que sungar as calças.
- É alguma simpatia?
- Não, sô. Acontece que se o cachorro morder, a gente salva a calça.
Começaram a rir e Zé da Rosa aproveitou-se para sugestionar o amigo, elencando, até com certa inflexão teatral, o nome das pessoas que mais cedo foram para a fazenda.
- Até a Didina já foi. Sabia?
- Foi mesmo? - perguntou Chapéu, com visível interesse.
Zé da Rosa confirmou com um meneio de cabeça e virou-se, procurando fugir do olhar desconfiado de Chapéu Roxo.
Didina, morena espigada, da cor de jambo, de dentes brancos como o marfim, olhos de jabuticaba madura e cabelos longos, pretos e anelados, que lhe quedavam pelas costas quase até a cintura, tornara-se a paixão de Chapéu Roxo, desde que ele mudara para Turbidu.
Conhecera Didina num circo mambembe quando ela, sentada perto do picadeiro, sorria para ele que cantava em dupla com um amigo chamado Bento. Dias depois, começou a fazer serenata na janela do quarto dela que dava para a rua.
E a música preferida caía como uma luva naquela morena:
Índia seus cabelos
nos ombros caídos,
negros como a noite
que não tem luar;
seus lábios de rosa
para mim sorrindo,
e a doce meiguice
desse seu olhar,
Índia da pele morena,
sua boca pequena
eu quero beijar.

Didina levantava-se e ficava sorrindo atrás da vidraça de pequeninos vidros que dividiam sua beleza em vários pedaços. (...)