Cadeira 40 - Rosália de Castro // Nieves Merino Guerra


Maria Rosalía Rita de Castro, ou Rosalía de Castro, nasceu no dia 24 de fevereiro de 1837, em Santiago de Compostela, Espanha. Assim que nasceu foi imediatamente batizada na capela do Hospital real e entregue a uma criada do solar dos Castro. Rosalía era filha de Doña Maria Teresa de La Cruz de Castro y Abadia, de ascendência nobre, e de José Martinez Viojo, um seminarista, ou sacerdote. Rosália de Castro foi registrada como "filha de pais incógnitos", e pesava sobre ela o fato de ser uma criança "Sacrílega" (fruto de uma profanação). Para não arruinar a reputação da casa fidalga dos Castro, e também preservá-la dos falatórios por conta do nascimento "indigno" de Rosalía, a menina foi afastada de sua mãe e enviada para morar no interior, em Ortoño. Embora fosse de origem fidalga, até aos oito anos Rosalía viveu como qualquer menina de aldeia.

A poesia de Rosalía de Castro efetua uma operação semelhante com referencia à Galicia, àquela efetuada por FLorbela Espanca no Alentejo. Vale destacar que a Galiza faz fronteira com o norte de Portugal e é a terra da mais antiga civilização neolatina da Península Ibérica. A cultura Galega difere da tradicionalmente conhecida no resto da Espanha, pois, a influência celta nela foi mais destacada que a moura, dessa forma, na Galícia, ao invés das touradas e da música flamenca, cultivou-se uma mais campestre e vinculada ao natural, e o idioma não é o castelhano, mas, o galego. 

O Galego, assim como o português, possui um tronco linguístico comum, elas são línguas românicas que derivaram do latim. O galego entrou em decadência no final da Idade Média, e ficou restrita aos contextos da comunicação informal, e ao âmbito privado por cerca de três séculos (XVI, XVII e XVIII). No século XIX surgiu na Galiza um movimento chamado "Ressurgimento", que propôs recuperar o galego como língua histórica, cultura e literária. Foi nesse contexto que surgiu Rosalía de Castro com seus Cantos Gallegos, primeira obra publicada inteiramente nesse idioma galego. Nem Rosalía e nem os intelectuais da época tinham dicionário ou gramáticas disponíveis, por isso recorreram á linguagem falada, transpondo-a para a escrita. Rosalía converteu a fala popular em ferramenta artística e nessa ela cantará, especialmente, as belezas da Galícia.

A Galiza foi durante séculos a mais agreste região da Espanha, e o povo galego padecia graves necessidades, dentre elas a fome. Nos séculos XIX e parte do XX a única solução de sobrevivência para os galegos era a emigração. A situação social, econômica e política marcou profundamente a poética rosaliana. 

Rosalía de Castro denunciou a exploração que os galegos sofriam como imigrantes, trabalhando de sol a sol por salários irrisórios, muitos não retornavam para as suas famílias. 

Rosalía de Castro cantou a saudade, o mar, e variadas temáticas que, aliadas às vicissitudes de sua biografia contribuíram para que em torno da mesma se erigisse uma aura, o que acabou por mitificá-la. A dor foi um tema recorrente na escrita rosaliana.

Após 1880, Rosalía vivenciou momentos de grande dificuldade. Ela experimentou a incompreensão literária, que fez com que abandonasse o idioma galego . Seu ultimo livro de poemas intitulado En las orillas Del Sar (1884) foi escrito em castelhano, bem como toda a sua obra em prosa. 

Considerado o livro mais maduro, nele Rosalía mostra a sua originalidade: por uma parte naturalidade na linguagem lírica, próxima à fala comum, e ideal de Campoamor, e por outra, o vôo lírico de um Bécquer. Naturalidade de linguagem e profundidade de sentimento são qualidades próprias do Intimismo, mas, além disso, e ao mesmo tempo, sua versificação fácil, variada e nova faz de Rosalía a mãe que da à luz uma forma cheia de combinações métricas. Durante uma época quando ditas inovações eram raras, Rosalía usava versos de quatorze silabas, de dezesseis e de dezenove, deixando a poesia espanhola da segunda metade do século XIX pra trás. Esquecendo as inovações métricas dos românticos, encontramos nesta poetisa um procedente para as novidades que, em dito aspecto, semearam transformações na poesia de língua espanhola e das quais colheu o nome de precursora do modernismo. A poesia do século XX teve como essência a poesia de muitos do XIX, porém foi a de Rosalía que, segundo Feal Deibe (1971) e Lapesa (1954), serviu como fonte a Lorca e A. Machado. 

Rosalía passou os derradeiros anos da sua vida em Padrón, onde a família alugara a "casa da Matanza", que depois se tornaria em casa-museu. A morte acidental do seu filho mais novo aos dois anos e sua doença amargaram os seus derradeiros anos. Morreu de cancro em 1885, aos quarenta e oito anos na sua casa de Padrón. Rosalía foi enterrada no campo-santo da Adina. Anos mais tarde, em 1891, seus restos foram transladados para o Panteão de Galegos Ilustres, no convento de São Domingos de Bonaval, em Santiago de Compostela.

Derradeiros momentos de Rosalía por Augusto González Besada[2] (traduzido para o português):

" Recebeu com fervor os Santos Sacramentos, recitando em voz baixa suas prediletas orações. Pediu aos seus filhos que queimassem os trabalhos literários que, reunidos e ordenados por ela mesma, deixara sem publicar, dispôs ser enterrada no cemitério de Adina e, pedindo um ramo de amores-perfeitos - a flor da sua predileção -, apenas foi achegada aos lábios sofreu um afogo que foi o começo da sua agonia. Delirante, e nublada a vista, disse à sua filha Alejandra: 'Abre essa janela, que quero ver o mar', e fechando seus olhos para sempre, expirou."