Cadeira 50 - Catulo da Paixão Cearense // Maria Angélica de Oliveira


Catulo da Paixão Cearense foi um dos poucos, talvez o único, poeta popular no Brasil que, em vida, recebeu todas as glórias, todas as honras e uma adoração popular tão grande. Isso porque usou e abusou de toda a sonoridade que o sotaque nordestino lhe proporcionou, soube colocar em versos simples onde era o lugar de por versos simples. Tinha faro. Sabia ouvir, como ninguém mais, o rumor da terra.

O cancioneiro de Catulo, com letras que exprimem a ingenuidade e pureza do caboclo, cativou a sensibilidade do povo e levou Mário de Andrade a classificar o autor como "o maior criador de imagens da poesia brasileira".

Dele disse Ruy Barbosa: "Concordo sem reservas com o Sr. Julio Dantas no seu alto juízo acerca de Catullo Cearense, maravilhoso poeta, cujos versos de um encanto irresistível, são o mais belo documento da natureza e da vida nos sertões brasileiros, que a sua musa enfeitiça e parece recriar" - Petrópolis, 28/02/1921

Catullo de Paixão Cearense é um dos maiores compositores da canção popular brasileira. Segundo o crítico Murilo Araújo, "a poesia de Catullo tem raízes no povo e haveria de voltar, desfeita em flores e frutos, ao campo em que teve origem: volta ao povo e viverá com ele. Nenhum dos nossos poetas foi a tal ponto o rumor inspirado da terra".

Catulo publicou vários livros, mas o reconhecimento do grande público veio através da música. Com a chegada do mercado fonográfico ao Brasil, foi convidado a gravar alguns de seus sucessos. Foi o primeiro artista a se apresentar na antiga Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, atual Rádio MEC, a convite do amigo Roquete Pinto. Recebeu em vida uma grande homenagem organizada pelo jornal "A Noite", que fez uma campanha nacional arrecadando fundos para construção de seu busto nos jardins do Palácio Monroe, antigo Senado Federal, demolido por ocasião das obras do metrô, no Passeio Público. Sua casa no Engenho de Dentro, no subúrbio carioca, conhecida como "Palácio Choupanal", vivia sempre cheia com a presença de amigos, intelectuais e boêmios, prontos para apreciar a música, a conversa e a boa comida brasileira.

O grande legado de Catulo foi sua obra literária, os poemas, as peças, como "Um boêmio no céu", que fala do encontro entre o boêmio, São Pedro e Santo Onofre, recentemente montada pelo ator José Mayer. Como músico sua maior contribuição foi sem dúvida a de promover e quebrar preconceitos relativos ao violão na sociedade, como ele mesmo afirmou: "O grande feito, aquilo que mais me encanta no meu passado é a reabilitação do violão e a reforma da Modinha".


Por um beijo
Catulo da Paixão Cearense

Ó ri, meu doce amor,
Sorri lágrimas da flor
Teu sorriso inspira
A lira que afinei por teu falar
E quer de amor vibrar
Ao sol de teu olhar
Ri meu doce amor
Sorri, pérola da flor
Abre em teu lábio um sorriso
Onde um coração diviso,
De algum anjo que desceu do azul.

Num teu sorriso
Luz de poesia
Vem dar a melodia
E musicar os versos meus
Que eu mostrarei a Deus,
Como eu te amo,
Alma dileta
E sem eu ser poeta
Irei fazer o eterno
Te aclamar nos céus.

Irei estrelas lá no céu roubar
Trarei da lua, um raio de luar
Depois dos céus eu descerei ao mar
E a pérola mais bela irei buscar
Sem recear as iras do Senhor, irei,
Roubar os cofres do Senhor
Trarei a essência do divino amor
Se tu, velada no mais vasto véu,
Concederes-me a vitória
A suprema gloria,
De um só beijo teu!

https://www.letras.mus.br/catullo-da-paixao-cearense/687420/


Ontem ao luar
Catulo da Paixão Cearense

Ontem, ao luar,nós dois em plena solidão
Tu me perguntaste o que era a dor de uma paixão.
Nada respondi, calmo assim fiquei
Mas, fitando o azul do azul do céu
A lua azul eu te mostrei
Mostrando-a ti, dos olhos meus correr senti
Uma nívea lágrima e, assim, te respondi
Fiquei a sorrir por ter o prazer
De ver a lágrima nos olhos a sofrer
A dor da paixão não tem explicação
Como definir o que eu só sei sentir
É mister sofrer para se saber
O que no peito o coração não quer dizer
Pergunta ao luar, travesso e tão taful
De noite a chorar na onda toda azul
Pergunta, ao luar,do mar à canção
Qual o mistério que há na dor de uma paixão
Se tu desejas saber o que é o amor
E sentir o seu calor
O amaríssimo travor do seu dulçor
Sobe um monte á beira mar, ao luar
Ouve a onda sobre a arei-a a lacrimar
Ouve o silêncio a falar na solidão
De um calado coração
A penar, a derramar os prantos seus
Ouve o choro perenal
A dor silente, universal
E a dor maior, que é a dor de Deus

https://www.letras.mus.br/catullo-da-paixao-cearense/687419/


Recorda-te de Mim
Catulo da Paixão Cearense

Recorda-te de mim quando de tarde
Gloriosa a morrer na luz do dia
E nos seios da noite a serrania
Em candores de neve se ocultar
Recorda-te de mim nesse momento
As estrelas saudosas do penar

Recorda-te de mim quando alta noite
Escutares um canto de tristeza
Descantado por toda a natureza
Nos formosos harpejos do luar
Recorda-te de mim quando acordares
E sentires no peito do adolescente
Um espírito em mágoa florescente
Uma hora em teu peito a suspirar

Recorda-te de mim quando no templo
Numa prece serena, doce e fina
Sob o altar florescido de Maria
Teus segredos à Virgem confiar
Recorda-te de mim nesse momento
Para que minha dor tenha um alento
E me deixe morrer com o pensamento
De que morro feliz só por te amar

https://www.letras.mus.br/catullo-da-paixao-cearen.../1500343/


Saudade (um trecho)

(...)
Como é que sente a saudade um vaqueiro?
Ouça lá, meu bom patrão, vou lhe dizer:

Como um boi velho, cansado,
Pacientemente, a remoer,
Que o capim verde que come,
Torna outra vez a comer;

Hoje, velho, relembrando
Minha alegre juventude,
Tudo quanto já fruí;
Como um boi, vou ruminando
O meu Passado saudoso
Que foi em tempo ditoso
O capim verde e cheiroso
Que, quando moço, eu comi.

Mas, às vezes, a saudade
Acorda minha mocidade
Com tanta exasperação,
Que eu abro as duas porteira
Dos óio, meu bom patrão,
E deixo que, atropelada,
Saia, só numa arrancada,
Toda a boiada das lágrima
Do currá do coração.

Catulo da Paixão Cearense

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A Flor do Maracujá

Catulo da Paixão Cearense

Encontrando-me com um sertanejo,

Perto de um pé de maracujá,

Eu lhe perguntei:

Diga-me caro sertanejo,

Porque razão nasce branca e roxa,

A flor do maracujá?

Ah, pois então eu lhi conto,

A estória que ouvi contá,

A razão pro que nasci branca i roxa,

A frô do maracujá.

Maracujá já foi branco,

Eu posso inté lhe ajurá,

Mais branco qui caridadi,

Mais brando do que o luá.

Quando a frô brotava nele,

Lá pros cunfim do sertão,

Maracujá parecia,

Um ninho de argodão.

Mais um dia, há muito tempo,

Num meis que inté num mi alembro,

Si foi maio, si foi junho,

Si foi janeiro ou dezembro.

Nosso sinhô Jesus Cristo,

Foi condenado a morrê,

Numa cruis crucificado,

Longe daqui como o quê,

Pregaro cristo a martelo,

E ao vê tamanha crueza,

A natureza inteirinha,

Pois-se a chorá di tristeza.

Chorava us campu,

As foia, as ribeira,

Sabiá tamém chorava,

Nos gaio a laranjera,

E havia junto da cruis,

Um pé de maracujá,

Carregadinho de frô,

Aos pé de nosso sinhô.

I o sangue de Jesus Cristo,

Sangui pisado de dô,

Nus pé du maracujá,

Tingia todas as frô,

Eis aqui seu moço,

A estória que eu vi contá,

A razão proque nasce branca i roxa,

A frô do maracujá

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U Poeta du Sertão
Catulo da Paixão Cearense

Si chora o pinho
Im desafio gemedô
Não hai poeta cumo os fio
Du sertão sem sê doutô
Us óio quente
Da caboca faz a gente
Sê poeta di repente
Que a puisia vem do amor

Não há poeta, não há
Cumo os fio do Ceará!

Dotô fromado, home aletrado
Lá da Côrte
Se quisé mexê comigo
Muito intoncê tem qui vê
Us livro da intiligença
I dá sabença
Mas porém u mato virge
Tem puisia como quê!

Poeta eu sô sem sê dotô
Sou sertanejo
Eu sô fio lá dus brejo
Du sertão do Aracati
As minha trova
Nasce d'arma sem trabaio
Cumo nasce na coresma
Nu seu gaio a frô de Abri

https://www.letras.mus.br/catullo-da-paixao-cearen.../1499916/



Cabôca de Caxangá
Catulo da Paixão Cearense

Laurindo punga, chico dunga, zé vicente
Essa gente tão valente do sertão de jatobá
E o danado do afamado zeca lima
Tudo chora numa prima e tudo quer te traquejá

Cabôca di caxangá (bis)
Minha cabôca venha cá. (bis)

Queria ver se essa gente também sente
Tanto amor como eu senti
Quando eu te vi em cariri
Atravessava um regato no patau
E escutava lá no mato
O canto triste do urutau.

Cabôca, demônio mau, (bis)
Sou triste como o urutau. (bis)
Cabôca de caxangá (bis)
Minha cabôca, vem cá (bis)

Há muito tempo lá nas moita
Da taquara junto ao monte das coivara
Eu não te vejo tu passar
Todo os dia até a boca da noite
Eu te canto uma toada
Lá de baixo do indaiá.

Vem cá, cabôca, vem cá (bis)
Rainha di caxangá (bis)

Da noite santa do natal na encruzilhada
Eu te esperei e descansei
Até o romper da manhã
Quando eu saia do arraiá o sol nascia
E lá na mata já se ouvia
Pipiando a acauã.

Cabôca, toda manhã
Som triste de acauã (bis)
Cabôca de caxangá (bis)
Minha cabôca, vem cá (bis)

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Até as flores mentem

Catulo da Paixão Cearense


Em um jardim à beira-mar
(fazia um luar de níveo albor
E o céu sem véu tinha o fulgor
Da cor do meu primeiro amor)
Estava ali a meditar
A meditar pensando em ti
Quando uma flor estando a sonhar
Do nosso amor falar ouvi

Compaixão! À flor eu disse então:
Ó tu que o coração conheces dela
Dize a mim se é vero o seu amor!
E a flor sonhando ainda
Assim me diz, assim:

"Ó feliz, tu és poeta!
A tua mais dileta flor
A nossa irmã de mais candor
Tem amor a ti ardente
Somente vive por te amar
E morrerá por te adorar!"

E a rosa ouvindo assim falar
Senti minh'alma a Deus voar
E de prazer, cheio de amor
Ia na flor um beijo dar...
E ouvi então a flor dizer:
"Eu quis magoar teu coração
Eu quis zombar da tua dor
A ti não tem, não tem amor!"

https://www.letras.mus.br/catullo-da-paixao-cearen.../1500347/


Flor amorosa

Catulo da Paixão Cearense

Flor amorosa, compassiva, sensitiva, vem porque

É uma rosa orgulhosa, presunçosa, tão vaidosa

Pois olha a rosa tem prazer em ser beijada, é flor, é flor

Oh, dei-te um beijo, mas perdoa, foi à toa, meu amor

Em uma taça perfumada de coral...

https://www.letras.mus.br/catullo-da-paixao-cearense/687417/