Cadeira 51 - Verônica Marzullo de Brito


Verônica Marzullo de Brito, analista de TI (administração de dados) e poeta. Não sei dizer quando comecei a escrever poemas. Talvez, como todos nós: De vez em quando, desde a infância, nascem algumas linhas destinadas a nós mesmos. Entre 2000 e 2010, alguns dos anos dos quais passei fora do país, construiu um blog, mas nunca levei à frente. Apenas em finais de 2015 a escrita passou a me dominar. O namoro com um escritor e o convívio com seus amigos do meio literário me incentivaram Publica na internet (sites Recanto das Letras e Facebook). Com isso, recebi convites para participar em projetos poéticos, tais como Casa dos Poetas e da Poesia / Pé de Poesia e Antologia Fénix / Desde Setembro/2016 sou membro do Movimiento Poetas del Mundo. Penso em ter meu próprio livro, um dia. A poesia me agarrou de vez. 



Quando me cobres de flores,
Quando me beijas assim,
Caem passados amores
Como as folhas do jardim.

Quando incendeias a cama
E ferves minha saliva,
Vulcões captam nossa chama
E, loucos, entram na ativa.

Quando me olhas assim
Como ninguém mais me enxerga,
Sugas todo o mel de mim...
Meu corpo, tonto, se verga.


ISABELLA

Moça que insisto em ver como criança.
Força que mora na suavidade.
Olhar que transmite paz e verdade;
Mel nos olhos e nos cachos em trança.

Sabedoria além da corriqueira,
Cuidando do que realmente importa.
Carinhosa, tem sempre aberta a porta;
Beleza tranquila, sem ser faceira.

Grão, nasceu do fruto que eu cultivei.
Aonde vai, semeia amor e paz.
Representa com louvor a nossa grei.

Que a vida te faça sempre capaz;
Que justiça e amor sejam tua Lei;
Que o riso norteie tudo o que faz.


Bálsamo

A tarde foi tão difícil!
Por isso te olho assim
Com olhos de pedir beijos.
Faz um poema pra mim...

O relógio não perdoa:
A vida desce a corrente.
Cachoeira não tem volta,
Tal como a vida da gente.

Então para. Olhos nos olhos
Neste por de sol sem fim,
Coração, lápis, papel:
Faz um poema pra mim?

(Verônica Marzullo de Brito - 16/06/2017)


Uivo

Às vezes, somos assim:
Menina e menino...
Meu peito é teu alimento
E teu colo é meu alento.
Mulher e homem...
Acabas com meu recato:
Beijos e banhos de gato.
Senhora e senhor:
Distintos, sóbrios por fora;
Por dentro, tesão que aflora.
Animais...
Entras por minha janela...
Lobisomem e cadela!

(Verônica Marzullo de Brito)


Tchibum!

Põe maiô, snooker, cilindro:
Enche o peito p'ro mergulho!
Dores no corpo e na alma?
Angústia, dores... Barulho?

Foram teus ossos, mulher!
Tu, que és tão boa de conta,
Não percebes que esse lago
É gelo? Então? Estás tonta?

Queres mergulhos profundos?
Esquece! Compra uns patins!
Assim, quem sabe, teus shows
Serão bem menos ruins!

Se dizes "A", lêem "B"?
Dizes "liga-me": "ciúmes"?
Deturpam tuas palavras
Com ásperos azedumes?

Bem feito por seres parva,
Pois carinho não se pede!
Aprende com o lago frio,
Que, às emoções, nunca cede.

(Verônica, em 19/01/2017, para uma grande amiga que faria aniversário hoje, caso ainda estivesse no planeta).


Sutil

A fluidez que não mata a sede.
A suavidade que não acaricia.
O doce que não consola.
A música que não acalenta.
O bálsamo que não cura.
A mancha que não sai.
Viscosa,
Áspera,
Amarga,
Estridente,
Venenosa,
Indelével:
Assim é a mentira.

Verônica Marzullo de Brito


Polis

Tiros incomodam britadeiras.
Britadeiras abafam camelôs.
Camelôs ensandecem transeuntes.
Transeuntes desprezam flautistas.
Pega-ladrão deturpa lamento de flautas.
Burocratas correm às janelas;
buscam por novidades e cadáver.
Um andaime sobe, sobe, sobe,
trazendo as mesmas notícias
(nunca ouvidas).
Pedreiros quebram as paredes
(como quem quebra lápides),
tentando desenterrar burocratas.
Burocratas se incomodam com o sol no rosto.
Pedreiros agradecem pelo sol no corpo.
Encaram-se.
O sol põe auréolas nas cabeças dos pedreiros
(cegando os burocratas)
e esconde-se por trás do mosteiro
(Santo Antônio nem percebe).
O andaime ruma ao céu,
enquanto a melancolia cai doze andares.

(Verônica Marzullo de Brito)


ELA VEM...

Sutil, persuasiva ou agressiva,
Ela vem pelas grades do portão.
Circunda a roseira num turbilhão;
Levanta meu vestido, subversiva.

Atira para longe o meu chapéu,
Joga meus neurônios no vendaval,
Escava as memórias do meu quintal,
Transforma meu silêncio em escarcéu.

Perfila-se, calma. A um gesto meu,
Põe-se a murmurar e a contar nos dedos:
Pouco a pouco, desvela o que era breu.

De lembranças, ela elabora o enredo.
Poesia! Brincando de ser eu,
Desvela nigredo, albedo e rubedo.

Verônica Marzullo de Brito
Livro publucado: "Moto Contínuo - A poesia não pode parar". Para adquiri-lo, entre em contato com a própria autora.


Hoje eu tenho um trabalhinho
Muito, muito complicado:
Fazer um poema doce
Sobre meu mundo encantado.

Pela estrada cor-de-rosa,
Caminho ao som de andorinhas,
Procurando inspiração
Ao saltitar por pedrinhas.

Pouco a pouco, me aparecem
Nuvens de doce algodão.
As flores falam comigo
E é reluzente o chão.

Chega uma música à mente:
Puro sonho, surreal!
Cantando o céu cor-de-rosa
Desta cidade infernal.

Ah... Mas que inferno, que nada!
Cidade Maravilhosa!
É isso o que todos dizem;
Não há outra mais formosa.

Temos alguns probleminhas.
Coisa pouca! Irrelevantes!
Respingos em rosa-choque
Num céu de balas traçantes.

Na Mangueira, verde e rosa,
Soam vibrantes rajadas.
Não me apavoro: É um samba
Com metralhas ensaiadas.

Só para fixar o tema,
Um rosa-carne reluz.
São as crianças do Chico
Que se alimentam de luz.

Ah, quanto sonho e beleza!
Rio cor de rosa-chá...
Só vejo um momento triste:
A hora de despertar.


Pisando em ti!

Terra quente de Gregório,
Raulzito, Castro Alves,
Caetano, Jorge Amado,
João Gilberto, Betânia...
Lá vou eu a céu aberto
Pisar no teu rico solo!
Tantas vezes já cá estive
Nesta cidade que, dizem,
Deixa a todos encantados,
Mas só pousei, não pisei;
Seguia para outra joia:
Trabalhava no Recife,
Também linda como o quê.
Pousava em ti, Salvador,
Mas só para abastecer,
Enjaulada no avião,
Tu na imaginação!

(Verônica Marzullo de Brito)


Romantismo

Como pensar em romantismo?
Plena noite de Super Lua
E ele não quer bailar na rua!

Até tento escrever algo doce:
Abat-jour, sofá, bebida, som...
Aí a TV me vomita politiquice!

Desligo a monstra; tento outra vez:
Vem meu lado esquerdo do cérebro
Pensando nas contas deste mês!

DESISTO!

(Verônica Marzullo de Brito- 14/12/2016)


Rios

Quando tive medo do tumulto,
Quem me cuidou?
Quando bombas explodiram lá fora,
Quem teve medo por mim?
O gás lacrimogênio liberta.
Liberta os rios...
Rios dos meus olhos
Que jorram para a alma.
Por fora:
Mármore, força, coragem.
Por dentro,
Bem fundo,
Fundo das órbitas:
Dois rios.
Rios alegres,
Simplesmente por saberem
Que não jorram em vão...
Que existem outros rios.

(Verônica Marzullo de Brito)


Houaiss

O que significa:
O espinho que doeu para sair?
O mecânico após prisão no elevador?
Um abraço de conforto?
A farpa arrancada com agulha incandescente?
Galanteios pela rua após inverno noturno?
O caco de vidro que exigiu corte no pé?
O pára-quedas que abriu?
A dor curada por injeção?
Um bom filme após desistir de conversar?
O dente de leite sangrento no telhado?
Mais abraços, secando as lágrimas?
O bote no naufrágio?
O corpo após a dieta?
A integridade após a solidão a dois?
O arco-íris?

(Verônica Marzullo de Brito)


Sina

Se vives entre inferno e paraíso
Se choras com sorriso no olhar
Libertas tua alma, sem juízo
Num improviso, te deixas voar

Se enxergas letrinhas pequeninas
Nas janelas dos prédios ao redor
Passarinhos nas pedras atiradas
Vês iguais agredido e agressor

Acusam-te de tonto e ficas prosa
Respondem-te de forma belicosa
E sorris, em resposta ao desamor

Tu estás condenado a ser poeta
Traduzir em beleza tua dor
E em amor toda rosa que te espeta.

Verônica Marzullo de Brito