Cadeira 61 - Lin Quintino


Lin Quintino, mineira, escritora, poeta, professora e psicóloga. Academia das quais faz parte: ANLPPB- cadeira 99, / ALPAS 21, sócia fundadora, cadeira 16; / ALTO; / ALMAS; / ARTPOP; / Academia de Letras Y Artes Valparaíso (chile); / Núcleo de Letras Y Artes de Buenos Aires; / ACML, cadeira 61 Membro da OPB e da Associação Poemas à Flor da Pele. Autora dos livros de poemas Entrepalavras e A Cor da Minha Escrita. Comendas: destaque literário da ALPAS-21, / Ubiratan Castro em 2015 pela ABRASA / Certificado pela ALAF de Destaque Literário em 2014 7 Troféu destaque Mulheres Notáveis - Cecília Meireles- Itabira/MG, 2014 Participou de várias coletâneas e antologias nacionais e internacionais. Email - Lindalva.quintino@gmail.com / Facebook - https://www.facebook.com/lin.quintino / Site - https://www.facebook.com/linpoesias/



Será que aquele olhar
que me despe
só cabe naquele porta retratos
ao lado da cama
onde à noite me dispo... 


Vinha com a pressa, nos olhos,
queria abarcar o mundo de uma só vez,
assim, atropelava o tempo,
ia derrubando os pensamentos.

Mas, com leveza, pousou nos lábios dela
os seus, e os marcou com a delicadeza
de quem toma nas mãos o sentimento.

Ele a fez se entregar ao senti-lo
dessas entregas que a gente só usa o coração
pois, só cabe nele à delicadeza da vida,
e ela descobriu que esse amor morava dentro dela.


A cidade chove
enlutam-se as janelas
pássaros entrincheirados nos ninhos, espiam

Cães guardam os ossos
o quintal é lama
afundam os pés na poça d'água
os afoitos

O rio se forma
leva junto os restos da cidade
aos trambolhões se perdem

A cidade chora suas saudades...


LEMBRANÇAS

Na casa velha de minhas lembranças
moram chão de barro
e fogão à lenha

Odores de tempero temperando
a fome e silêncios

O que nasceu em tão velha casa
foram raízes que me prenderam
no gosto de ouvir histórias

Enquanto crepitando brasas
o fogo me aquecia
o tempo preparava minhas lembranças.


Espio pela fresta
o vazio da cidade
o vento que sopra
arranca a pele das árvores

o silêncio presencia
o hálito adocicado do medo

gerado no ventre da noite
um rosto iluminado
pela luz
esmaece na secular travessia do tempo

há silêncio naquele rosto... Florescendo à luz...


Não sei por que
essa vontade
esse querer
em te querer

esse enganar o coração
de não te querer
mas te querer
e não te esquecer

e, no mesmo instante,
em que nos tocamos
há esse querer

que em outros braços não conseguimos esquecer...


No oculto
das tuas roupas
teu corpo
indefeso e ingenuo
à espera pra se abrir ao mundo

Estendo as mãos
quero tocar-te
sentir pulsando
o sangue nas veias

Fazer do teu corpo
meu espaço
rodopiar
livre feito pássaro
elevar os pés do chão

Deixo falar em silêncio
enquanto teu corpo dorme
os desejos que se acendem em teus olhos
e despertam devagar
quando fecho entre meus braços teu corpo indefeso e ingênuo...


AUSÊNCIA

No vazio da madrugada
senti tua falta
a cama vazia denunciou
tua ausência e abriu uma fenda
entre nós...

Ao partir, calado, deixou
uma mensagem no criado
que a ausência se faria breve
e voltaria saudoso pros meus braços...

Mas, da distância que te leva
e dos abraços que o espera
novos risos, rostos e afagos
eu sei do ciúme que me corrói...

Na volta pros meus braços
talvez se faça, mas decerto
não será como antes
pois quem tem amor ausente
não se é feliz o deixando distante...


A OUTRA FACE DO POEMA

A outra face do poema
guarda o inacabado
as ansiedades da perfeição
o ato da criação

A outra face do poema
guarda a busca incessante
do poeta o ápice da beleza
sua obra prima

A outra face do poema
comunga com a madrugada
a insônia, a falta da palavra
como o seio da mulher amada

onde o poeta repousa seu sono...


EU, MULHER

Á noite, me dispo dos laços
amasso os papéis
coloco-os no cesto ao lado
de manhã me refaço
renasço...Mulher

À noite, sou apenas mulher
abandono os enfeites
lavo o rosto, retiro o pó
de manhã me pinto
me adorno...Mulher

À noite, sou singela
menina sempre à espera
desfaço em gemidos
em afetos
de manhã fortaleço
coloco a armadura, vou à luta...Mulher

À noite, me entrego
desintegro
sou o que quiser
no escuro do quarto
sou apenas mulher..


Com determinada urgência
navego pra dentro
do silêncio

busco nas águas agitadas
das lembranças
a transparência dos teus olhos

ainda penso em nós
noite a dentro acendendo
fogueira nos olhos

e o amor crepitando em brasas
com a mesma urgência
que esperava, malas prontas, as férias...


COMPASSO

As horas passam
num compasso ritmado
e me encontram na
solidez do tempo
encurralada.

Entre a abstrata linha
que me separa do sonho
e a realidade,
há um momento frágil
em que meu corpo
preso aos pensamentos
solta-se no ar
e flutua como o vento.

Já não tenho
a necessidade urgente
de contar as horas
posso andar
no compasso do meu
silêncio... Sonhar...