Cadeira 62 - Maria Antonieta Tatagiba // Nina Costa


Nascida na bucólica São Pedro do Itabapoana, no interior do Espírito Santo, Maria Antonieta Tatagiba fez história para além da tríade esposa, mãe e dona de casa.

Destemida e impetuosa, não conseguiu realizar seu sonho de ser uma farmacêutica, mas fora professora, diretora de escola, poetisa, colaboradora de jornais e revistas capixabas e de Campos- RJ, além de assumir a direção de um jornal são-pedrense por quase um ano, do qual o marido era colaborador. Soube driblar a angústia e a frustração que poderiam ter-lhe sombreado a alma ao ver que seu desejo de se tornar diferente da maioria das mulheres de sua época não seria realizado. Substituiu os fármacos pelos poemas. Dedicou-se intensamente à produção literária e tornou-se a primeira poeta capixaba editada, em 1927 (um ano antes de ser vitimada pela tuberculose), com a publicação de "Frauta agreste".

Ao longo dos oitenta anos decorridos desde sua morte, Antonieta tem sido lembrada por estudiosos, escritores, amantes das letras capixabas que vêm revisitando, reconhecendo e reafirmando o valor literário de sua obra, sobretudo neste século, e a sua importância como representante feminina da poesia capixaba do século passado.


IDÍLIO

Na copa da acácia florescente
Que o sol no ocaso já não doura mais,
Dizem os passarinhos meigamente
Seus amores em leves madrigais.

Linda esta tarde! Adeja a travessura
Das borboletas pela selva em flor...
Festeja, ao longe, uma alegria pura
A dulcíssima frauta de um pastor.

Nuvens de prata esfiadas em fouxel
Boiam no céu azul... Brisas propícias
As rosas encarnadas do vergel,
Desfolham na subtis,ternas carícias...

E à sombra fresca e verde do arvoredo
Noivos da aldeia... Linda namorada...
Ele ao pecado não resiste e a medo,
Beija-lhe a linda oca acerejada...

E tal a graça cândida, a meiguice,
Do idílio que ante a mim se desvendou,
Que foi, como se a frente se me abrisse
Um precioso leque de Watteau!
Maria Antonieta Tatagia
Poetisa São-pedrense, Mimoso do Sul, ES.


CETICISMO

Já não creio no Amor... Qual um vergel queimado
Pela ardência do sol, secou meu coração...
Mas o pranto do céu fará virente o prado
E ai de mim! Não terei o orvalho da ilusão!

Mas quantas vezes, ah! quanta! um prado agoniado
Dos meus olhos correu...quando chorei em vão!
Sentindo-me morrer... e escutando a meu lado
A vida a gorgeiar a perpétua canção...

Depois veio a descrença ingente e dolorosa
É que bebi dessa água eterna de verdade
Mais amarga que um pranto amargo de mulher.

E em meu seio esfolhou-se o amor qual uma rosa
Deixando o desencanto, esse rir de piedade,
De tudo e de mim mesma - o riso de Voltaire!
(Maria Antonieta Tatagiba)

DOR SILENE

Tem a expressão tranquila e mesta de um sol posto
Sobre um vale onde plange o sino da saudade
Esta tristeza atroz que me anuvia o rosto
E que todo o meu ser tão fundamente invade.

É triste o meu olhar como este céu de agosto
Enevoado a exprimir uma vaga ansiedade...
Mas pálpebras me pesa o chumbo de um desgosto
Profundo, sob um véu de vã serenidade...

Dentro de mim é gelada e escura a atmosfera
Nem prazeres nem luz neste tormento eterno
Em que somente a mágoa é que em minha alma impera...

Em meus lábios, entanto, um sorriso presiste,
Como um raio de sol, decorado de inverno
Tentando iluminas uma paisagem triste!

Maria Antonieta Tatagiba


EGOÍSMO

Quando passeares no jardim da vida
E uma flor amiga se desabrochar
Tu a afagares com olhos cuidadosos
E sentires a essência do perfume doce
Hás de querer não só tocá-la
Como possuí-la

E a tua mão amiga deitarás à rama
E colherás da roseira tua flor amiga
E a porás num jarro sobre a tua cabeceira
E sentirás o cheiro até dormires
E sonharás com ela em teus sonhos ternos
Enquanto tua rosa amiga, fenece desprovida
Pois tu, egoistamente
Ignoraste

Que não eram os teus olhos que lha davam vida...

(By Irene Cristina dos Santos Costa - Nina Costa, in 02/12/2010)
https://www.recantodasletras.com.br/poesiasdeamor/2648732


O RISO

Bendito seja o riso que aos negrores
Da vida, ao infeliz faz olvidar,
Como o vinho, adormece as nossas dores,
De quem sofre é conforto singular.

Disfarça o sentimento sob flores...
Padeces? Trazes na alma algum pesar?
Ri que o riso adormece as nossas dores
E nele um lenitivo hás de encontrar...

Riso é ironia - riso é esquecimento,
Aos tristes dá aspecto de ventura
E faz supor distante o sofrimento...

Riso - invencível arma de mulher
Que, rindo, docemente, com ternura,
Seduz o mundo inteiro, quando quer!

(Maria Antonieta Tatagiba)