Cadeira 65 - Osvaldo Sá D'Rodrigues


Osvaldo Dias de Sá Ngalula Rodrigues Nasceu em Angola, L. Norte, aos 23/07/1998. Escritor e poeta. Fez seu ensino primário na escola Deolinda Rodrigues, passou a infância cheios de aventuras, românticas e boêmios. Dedicou-se desde já aos escritos de poemas líricos, actualmente está se formando como professor de literatura e Língua Portuguesa. É árcade, e escreve sonetos, canções, Odes, Elegias, Idílios, Trovas e motes. É religioso praticante, Testemunha de Jeová. E está escrevendo uma obra poética com o título: Encantos de Saturno. Saturno é seu pseudônimo árcade, mas prefere assinalar os poemas com o nome de Osvaldo Sá.



CACIMBO CRUEL
Quando nos passa a húmida estação,
Que pouco a pouco a luz tempestuosa,
Em níveo clima acaba melindrosa
Secando as lavras, molha o coração.
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Cacimbo, que lembranças, que visão
Me trazes da natureza tão formosa?
Sinistra seca a flor, pura e maviosa
Que ao tempo me enleiou negra paixão.
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Como está feia e fria a natureza!
Que hórrida imagem vejo p'la janela,
Já sem cor, sem ternura, sem beleza;
.
Triste de mim! Que não posso mais vê-la,
Esta que é causa férrea da tristeza
Que vem-me agora com saudades dela.
Osvaldo Sá


FUGA

Quero fugir de tudo... Desta terra,
De mim, da Luz, fugir logo daquela
Cuja beleza é causa de procela
Que vivo me corrói, me desespera!...
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Ah! Sinto me vazio, o fel me desterra,
Quisera não ter mais olhos pra vê-la!
De que me vale a vida, se a vida é ela?
De que me vale a paz, se a paz é guerra?!
.
Alvas gotas deslizam em meu rosto,
Férreas mágoas em minha profundeza,
Razão de escuridade, o meu desgosto.
.
Ela tem tudo, tem minh'alma presa,
E eu sem nada, sem ela, estou suposto
A me banir da feia natureza!
Osvaldo Sá


MARÍLIA LUMINOSA
Naqueles olhos de Marília bela,
Onde Júpiter, mil vezes tem dado,
Como Favônio as Rosas tem beijado,
Ordenando que Amor fosse tutela.
.
O deus Marinho, que ama a tal donzela
Adoraria Marília, e desprezado
Pediria a Circe, o encanto desejado,
Pra sua desgraça, em vão morre por ela.
.
No rosto de Marília o brilho exposto,
Vênus inveja, e Lueji, vergonhosa,
Reconhece a beleza, o terno rosto.
.
Oh Mortais, que alma não se faz ansiosa
Para encontrar a paz, Amor e gosto,
Nos braços de Marília luminosa?
Osvaldo Sá 


AQUELA NOITE
Aquela noite clara, Oh Esmeralda
Cheia toda de Amor e mil vontades,
Enquanto meu peito sentir saudades
Será sempre por mim tão celebrada:

Quando estavas, meu bem, amedrontada
Nossos olhos de plácidas verdades,
Reveladas por nossas claridades
Tua alma a minha tinha sido atada

Teu rosto a timidez umedecia
No meio dessa estrada, Ah que emoção
O vergonhoso meu peito sentia

Ah! Doçura, tua mão a minha mão
Se alia, Oh, como tua era tão fria,
Mas que aquecia meu tênue coração.
Osvaldo Sá


O Beijo
Lembras-te, meu amor, do terno beijo
Que dei-te vez primeira... lentamente?
Sentias no peito o fogo mais ardente
Que corrói a alma, mas nunca o desejo?
.
Nessa memória tímida te vejo
A meus lábios tão trêmula, tão quente;
E tinhas a alma Alegre já contente,
Tinhas no rosto belo, certo pejo.
.
Tão bom foi ver-te a meus braços graciosa
Tão bom foi ver-te a meus beijos vencida;
Que lábios tão suaves! Que mão preciosa!
.
A meus abraços foste derretida.
Não preciso mais, nem joia, nem rosa
Pois um beijo teu, é melhor que a vida.
Osvaldo Sá


A TI EU AMO, E A MIM ODEIO

Ó Ritália, mil vezes te ofereço
Mil olhares seguidos de perjuro;
Se mais te vejo, mil vezes te juro
O Amor com que aos teus pés eu m'arremesso.

De ti mil vezes lembro, e a mim esqueço;
Se mais te encontro, amor, mais te procuro;
E em teus olhos brilhantes eu me apuro,
Em teus olhos tão frios eu me aqueço.

Em vão que contra ti eu faço luta
Se a ti resisto, contra mim guerreio
E sempre És tu que vences a disputa.

Em teus olhos dulcíssimos me enleio:
E mais que a terra, os céus és impoluta,
Ah! E sabes, que a ti amo e a mim odeio.

Osvaldo Sá .... Encantos


Lembranças Negras
Hoje neste cacimbo seco e frio
Lágrimas me invadiram a frac'alma,
E a face de saudades fez-se em chama
Onde mudo mil vezes desvario:
.
Soltando, pois, murmúrios como em rio,
Mares, oceanos, meus olhos derrama,
Acérrimas tristezas se me inflama
Em lembranças mais íntegras me fio.
.
E vendo-me na luz me desespera,
Me desagrada, e apraz-me a escuridão
Que o pensamento as vezes faz em guerra.
.
Inútil (aí de mim!) Minha visão
Onde somente sinto a dor mais severa
Quando lembro mil vezes meu irmão!
Osvaldo Sá 


MINHA DESVENTURA
Minh'alma perseguida à desventura,
Cumpre tamanhas penas, e torrente
É o desalento, que m"ocupa a mente,
Me rouba o sono, e junto me perjura:
.
Que há de passar as mágoas e quentura
Destas penas quão duras que somente,
Me tirou alegria, e fez enchente,
De lágrimas meus olhos e amargura.
.
Ah! Donde me não fica mais a calma
Ai de mim, que esta vida causou ira
Matando-me o espírito junto a alma.
.
Ó Paz! Ó paz, atenda meus clamores
Para que esta alegria que me traíra
Se reconcilie com os meus horrores.
Osvaldo Sá (Saturno)


A NEGRA FLOR
De Eunice, o ledo riso encantador,
As mãos finas, os gêmeos transparentes,
Os lábios doces, úmidos e quentes,
Tem de Néctar, ou mel, terno sabor.
.
Onde Júpiter rende-se, onde Amor
Encontra Mimo e Graça, suficientes
Para adorar com Zéfiros regentes
Eunice bela, e doce, e negra flor.
.
Oh, que coisa há no mundo mais valiosa,
Do que aquele par meigo, e tão perfeito?
Ah, ponderai senti-la tão mimosa!
.
Que coisa mais doce terá Deus feito?
Quem dera dar-lhe um beijo enquanto goza;
Quem dera uni-las todas ao m


EU AMO, EU DESESPERO
A teu colo, ombro, pernas, e mão fina,
Eu, minh'Amélia, pasmo, e firme adoro,
Circe ou Vênus, de inveja por agouro
Em vão maldição férrea te destina.
.
A mãe dos bosques, a Ninfa divina
Com seu irmão, o deus sol, e canoro,
Ao teu agrado cantam, e eu comemoro
Louvo, e pasmo a tua veste bailarina.
.
O Folgazão menino, com sua flecha
Atiçando-te, a ele mesmo atira
E a teu desdém, a Zéfiro se queixa.
.
Em vão por ti eu luto, por ti espero
E a arder o peito sofre, atroz suspira
Ai eu te Amo, eu desejo, eu desespero.
Osvaldo Sá


SONETO DO PAI PREOCUPADO
Certo dia, o pai muito preocupado
Conversava côa filha sobre a vida
"Minha filha primeira e tão querida
Digo-te apenas filha tem cuidado
.
Principalmente com aquele Osvaldo
Filha eu sei,( Ó meu Deus!) Quanto és fingida,
Só não quero te ver nunca que unida
Estás co'aquele poeta tão malvado"
.
Abanando a cabeça a tal criança
O pai com olhos álibi desfeito,
Sobre a casa gritava, sem folgança.
.
E Osvaldo o brincalhão, sempre ao seu jeito,
Passa, avança, argamassa, dança e cansa,
Sempre despreocupado, tão perfeito.
Osvaldo Sá


BENDITO
Já sobre o céu começa a noite escura
E nasce logo atroz, primeira estrela;
O brilho da lua, sobre a luz da vela
Ilumina tua face, amena e pura.
.
Sobre os teus olhos belos, a brancura
Ilumina os meus, quando por ti zela:
Ver-te sublime, e rara, e fina, e bela
Para encontrar em tuas mãos a candura.
.
O eflúvio de teus lábios pecadores
Têm o sabor do Mel, e do embaraço;
Hó Bem aventurado os teus favores.
.
Bendito quem está preso em teu laço,
Pois viverá morrendo só de amores,
Bendito, meu bem, quem morre em teu braço.
Osvaldo Sá 


A mais perfeita
Noêmia, nos teus lábios tentadores
Co'a doçura de teu meigo sorriso;
O encantado Saturno, ao teu bel-siso
Crê que tu és melhor dentre as mil flores.

Teus olhos luminosos, meus furores
Aquietam; me parece um paraíso
Teus fios negros, Hó! teu belo viso.
És razão de o poeta cantar de amores.

És da Minerva, a melhor arte feita
Júpiter da carruagem celestial
Descendo, coas flores teu rosto enfeita.

Na terra és deusa, e lá no céu astral
És dentre as perfeições a mais perfeita
És dentre as sensuais, a mais sensual.

Osvaldo Sá