Cadeira 73 - Carla Torrini


Carla Torrini, carioca, jornalista, livreira. Publicou seu primeiro livro "Os Heterônimos da Dor" em março de 2016, Prêmios: Finalista do IX Festival de Poesia Falada do Rio de Janeiro - Prêmio Francisco Igreja, realizado pela APPERJ, 2016 - finalista do Prêmio Café com Poemas,participação especial no livro "Maínga", de Robson Valle, - finalista do II Concurso de Poesia Casa de Espanha, categoria regional, 2016. - Prêmio de Menção Honrosa no II Concurso Internacional de Poesia da Casa de Espanha, na categoria Regional, em 2016. - Prêmio Literário "Escritor Marcelo de Oliveira Souza", editora Sucesso, 2016. Participação na Antologia Terça ConVerso, do grupo Poesia Simplesmente, 2016. Participação na Antologia de Poesia e Prosa do IV.



DESESPERANÇA

As ruas estão desertas...
Início de tarde...
Um dia chuvoso..
Alguns guarda-chuvas abertos...
A cor cinzenta predomina
nas calçadas esburacadas
onde muitos tropeçam
a procura do sólido asfalto...
As portas meio abertas,
ainda na esperança do retorno,
vão deslizando, pouco a pouco,
até atingirem o chão...
E de limpas perdem a cor
para a poeira que se entranha
no parco sorriso que resiste
antes da batida absoluta...
E tudo vai fechando
já com a palidez sem graça
que despedaça o sorriso
na certeza da não volta...
E tudo vai sumindo, minguando,
diminuindo, extinguindo
na solidão global
da desesperança final...


SEM SENTIDO

Nada faz sentido
nem as indagações que
um dia indaguei
na tentativa de entender...
A lógica é inexistente
nesse plano dimensional
em que a falta de sentido
toma conta das entranhas...
Perder ou ganhar
já não importa mais
já que o nadador se afoga
em meio às braçadas que não deu...
E a piscina se faz de lágrimas
que saem de vistas cansadas
de um choro inacabado
de uma situação insustentável...
As indagações se perderam
nos bosques da mentira
que não mais se sustentam
nas lágrimas que escorrem...
E mais um dia chega
com o vazio como imperador
da crueldade da verdade
na perversidade sem sentido...




FERRADURAS

Estupidez, ganância, despeito,
ignorância, negatividade
fazem parte do lado sombrio
de determinados animais
que arvoram-se de humanos...
Que usam ferraduras
nos pés de patas
para chutarem e pisarem
naquilo que incomoda-os,
ofusca, coloca-os na insignificância
que só a indiferença grita...
Não possuem argumentos
por isso agridem
de forma idiotizada
como bestas enlouquecidas...
Usam faces de gente
para esconderem as fuças
dos animais selvagens
e ignorantes do que são...
Suas roupagens são o dinheiro
que usam como bandeiras
para humilhar e pisar
àqueles que eles acham nada...
E pintam os corpos
com vernizes refinados
sorrindo com dentes simpáticos
para os que têm a oferecer...
Mas bichos escondem-se
dentro dessas almas bestiais,
tirando o azul do céu,
empesteando os ambientes,
crucificando até Deus
em prol dos seus interesses...


DOMINÓS ESFACELADOS
As ondas do mar,
como um bisturi preciso,
cortam a face
dos dominós esfacelados...
Arrebentam na areia
que levanta a poeira
em meio ao céu nascente
da artéria sanguínea
que arranha a epiderme...
Os dominós se desmancham
se esfacelam purulentos
das feridas abertas
das lágrimas que escorrem
da face congelada da hipocrisia...
As ondas sobem e descem,
lambem as crias da solidão
que sobrevivem imortais
na finitude do fio real...
As águas molham ávidas
no copo pedinte vazio
do imediatismo necessário
desses dominós hipocondríacos...
Dominós universais, transcendentais
que se quebram em meio à
todos os estilhaços e esfacelamentos
que estupram o que sou...

(Carla Torrini)


ESPINHOS CORTANTES

Nas esquinas da solidão
os espinhos pontudos
despontam de forma armada
sufocando a ilusão...
Cortantes e assassinos
esfacelam os pensamentos
do concreto desaparecido
das esquinas da solidão...
Fantasmas ilusionistas
dançando de forma macabra
na carcaça das aparências...
Os espinhos se arregaçam
e rasgam as verdades
que dormitavam nas amostras
do filamento sonhador...
As esquinas se entrecruzam
nas megalópoles do coração
que se desviam e se acoplam
na orgia sincopada
de mentes que se buscam...
Mas no trânsito das mentiras,
se afastam e se perdem
desvirtuadas pelo medo
de calcar o concreto do real...


Ninguém perde algo
que nunca ganhou...
Mas a sensação da perda
continua a persistir
no coração que não para de bater...
E todos os caminhos cruzados,
todas as esquinas andadas
deságuam no mesmo botequim
que embebeda a alma andante...
Embebedar-se de ilusão
silenciosa de uma procura
onde todos os passos dados
estancam nos caminhos não dados...
A busca voa e esvoaça
numa rajada de vento
que levanta os véus
de palavras não pronunciadas...
A girândola da roda viva
gira e gira girando o olhar
em busca do que se perdeu
e do que nunca se ganhou... 


REALIDADE DAS COISAS

A realidade das coisas... Que realidade? Que coisas? Não existe nenhuma realidade das coisas! Não existe nenhuma realidade real... As coisas são o que são independentemente da realidade das coisas... A sua realidade das coisas é outra realidade das coisas... Se não fosse assim, não seria minha nem sua nem de ninguém... O que vejo é minha visão do mundo, é como me sinto em relação as coisas... Sinto e não penso... Entro em êxtase! Para que pensar ou racionalizar o que está pronto e acabado independente da vontade e da realidade das coisas? A árvore é uma árvore como poderia ser outra coisa se assim lhe quisessem denominar... Mas a sua existência é real, livre de qualquer denominação que possa ter... A árvore já existia antes de ser chamada de árvore... Sua essência é real, livre de qualquer rótulo... As denominações, as limitações não servem para nada, pois são arbitrárias, criadas por mãos e mentes humanas que regulam e esquematizam em nome do mastro da verdade... Mas que verdade é esta? Quem disse que alguma coisa é certa ou errada? Quem criou a realidade? Tudo não passa de definições, de imposições metafísicas que se dizem reais e concretas... Por que a minha verdade é menos certa que a sua e vice-versa? Certezas? Não há nenhuma certeza tão certa ao ponto de ser uma verdade absoluta! Não existe verdade em si... Não existe nada perfeito... O que existem são sentidos, sensações, emoções... O concreto é o que vejo, o que toco, o que sinto, o que sonho, o que sou... A árvore é uma árvore a partir do momento em que eu a vejo como uma árvore... Eu sou o que sou a partir do instante em que me sinto como sou... Seja conforme a realidade ou não... Porque se não fosse como sou não seria eu, mas outro alguém que não conheço... A realidade das coisas... A realidade das coisas é a maneira como a vemos e como a sentimos... E cada um é o que é, portanto, cada um vê e sente de uma forma particular por maior que seja o social... Nem mais certa ou menos certa, nem mais ou menos verdadeira... A realidade das coisas é a fantasia do que sou mais real do que a própria realidade... A máscara do sonho pelo qual se reveste o delírio das convenções!



O AMANHÃ?

O amanhã? Não sei...
Não sei de amanhãs
que me trazem a distância
daquilo que ainda não sou...
É o hoje, o agora,
esse instante já
que se transformou na eternidade
infinita do que desejo...
O amanhã? Não sei...
É a construção, é o sonho,
a respiração, a vontade louca
que move esse despertar
diário em direção a você...
É isso que impulsiona
cada poro, cada suor,
cada sorriso, cada lágrima,
cada bofetada diária...
Sei que não dura
e que nada permanece e
que nada é imutável...
Apenas essa certeza
absolutamente absoluta
desse coração que bate
ao encontro do seu...
E cada amanhecer
e cada anoitecer
me leva cada vez mais
para a eternidade do que sou
na metade de mim que é você...
E é para ela que vivo, que respiro
todos os dias da minha vida...
Me dê sua mão, segura em mim
porque essa estrada será nossa...