Cadeira 75 - Mardilê Friedrich Fabre


Mardilê Friedrich Fabre é natural de Cachoeira do Sul, RS, mas vive em São Leopoldo, RS. Licenciada em Letras Neolatinas, é professora, poetisa, revisora de textos e antologista. Acadêmica de diversas Academias de artes, cultura e literatura. Autora do Portal CEN (Cá Estamos Nós). Foi agraciada com vários méritos, prêmios culturais e troféus. Participa de 61 coletâneas. Publicou os livros: Literatura Gaúcha em Síntese (esgotado) / Poesia em gotas: haicais, tancas, fibhaikus e poetrix / Rumos da Poética no Século XXI / À Moda Antiga: Poemas / Nos Desvãos dos Sonhos / Versos tecidos de vida / Entardecer com Aldravias e o audiolivro Segredos... (CD de poesias recitadas e ilustradas). 



Deu-me a vida tudo

Descobri que tenho o mais doce amor.
Vim à vida com o que necessito.
Não preciso, então, ser um sonhador
Nem suspirar pelo céu infinito.

Fui brindado com o bem mais precioso.
Ao nascer, envolveram-me em afeto,
Banharam-me em perfume prodigioso,
Acalmaram meu corpúsculo inquieto.

No ritmo do tempo colhi a paz.
Segui a vida de tantos mistérios
Sem me turvar o que deixava atrás.
Importava-me não ver rostos sérios.


Não sou só

Não sou só. Tenho de volta a ti.
Nas noites gélidas de inverno,
Quando o amor parece eterno,
Lembro o quanto padeci.

Muito longe estavas então
E eu na minha solidão...
Esperei-te por longo tempo
Não me detive em contratempo...

E tu regressaste para mim
Etérea, silente, envolvente...
Como nas novelas de folhetim.
A minha deusa! Ainda atraente.

Esperei por ti consolador
Devolveste-me o respeito
E o meu lado sonhador
Teceu nosso futuro perfeito.


Frio

O céu chora uma chuvinha cinza
que esconde as flores como cortina.
O vento assopra um frio ranzinza
que aflige crianças na surdina.

O tempo escoa mais devagar
num mundo de verde despido.
A vida ao relento a chorar
espera o agasalho prometido.

O frio corta a pele ferida,
corre nas veias, gela o coração
e torna vazia a alma sofrida.
Calor humano? Pura ilusão.





Ao vento que passa

Suplico ao vento que passa:
Leva contigo a tristeza,
Varre do mundo ameaça
desta eterna malvadeza

Devasta o caos homicida,
e não o gosto da vida.
Destrói lágrimas de dor,
e não o riso do amor.

Dizima as malditas cruzes,
e não o brilho das luzes.
Dilui do homem a saudade,
Substitui pela amizade...

Mardilê Friedrich Fabre



Pedras preciosas

Atingi um estágio
No qual não almejo mais
A ilusão de uma jornada sem lágrimas.
Não importa quantas vezes
As sombras do passado me visitem
E me recordem caminhos interrompidos
Pelos delírios dos insucessos.
Percorri uma trilha estreita,
E o acesso dificultava-me
A chegada ao objetivo traçado.
Desde cedo, aprendi
Que podia desistir...
Não foram poucas as vezes
Que a solitude e a incompreensão
Me fizeram companhia.
Prefiro, entretanto, focar
Na satisfação de atos praticados.
Ainda hoje a recompensa
Ecoa em vozes longínquas envoltas em névoas.
Incontáveis dons despertei
Com palavras convenientes
E momentos espontâneos de emoção.
Foram peças valiosas
Que ajudei a lapidar.
No presente têm luz própria
Aprimoram outras preciosidades.

Mardilê Friedrich Fabre



Pedidos...
Quero estar contigo ainda uma vez,
Olhar nos teus olhos azuis brilhantes,
Sentir teu coração pulsar como antes,
Escutar tua palavra cortês.

Preciso que me abraces muito forte,
Que jogues p´ra lá minha nostalgia,
Que eletrizes minh´alma que desfia,
Que conduzas minha vida sem norte.

Peço-te que vertas em mim amor,
Que sejas meu anjo confortador.

Mardilê Friedrich Fabre 


Foi poetando que criei uma nova forma de composição literária a qual nomeei oitava intercalada que apresenta as seguintes características:
Estrofes: um monóstico,
uma oitava,
um monóstico.
Trata-se de uma oitava intercalada entre dois monósticos;

Métrica: versos octossílabos;

Rima: segue o esquema seguinte: monóstico A,
oitava: BCCBDEED,
monóstico:A .

Entretanto, os versos podem ser brancos (sem rima, mas com métrica) ou livres (sem rima e sem métrica);

É intitulada;

Aborda todos os temas.

Eis um exemplo:

Ao sabor do vento

O vento despenca uma folha.

Em lágrimas desfeita cai
No chão que a fere, e sangra a pobre.
Logo, logo, outra mais a encobre,
E ela ali, débil, sem um ai.
Ao sabor do vento, é jogada
Pra lá e pra cá (tão sozinha!)
Não é mais verde nem rainha
Das folhas da árvore (é nada!)

Reza, pois. Que alguém a recolha!

Mardilê Friedrich Fabre



Outro Eu
Debruço-me sobre meu interior.
Desfilam-me na memória
detalhes da minha história,
de chagas abertas pela dor.

Levito no espaço, sem direção.
Recordo as horas mortas, vazias,
penduradas nos pêndulos dos dias,
que limitam o tempo da desolação.

Recolho-me lassa, machucada,
fragilizada pela tribulação,
dúbia na sombra da desilusão.
Reconheço-me desencantada.

Amanheço dos sonhos fugidios.
Desperto de ilusões espedaçadas
no mais profundo de mim guardadas,
cantadas em versos arredios.


Basta uma palavra...

Para eu sair desta tristeza,
Que me corrói a alma sofrida,
Basta que você deixe a frieza
E comigo prolongue a vida.

A compreensão prometida
Usou-a como sutileza
Para eu sair desta tristeza,
Que me corrói a alma sofrida

Penso nos dias de beleza
Que vivemos. União rompida
Por uma estúpida fraqueza.
Basta uma palavra esquecida
Para eu sair desta tristeza.


Ínfimo ser

No fantástico universo,
grita seu propício verso.
No tempo ecoa a esperança
de a mente suster medrança.

Ínfimo ser, no momento,
afronta normas de vento.
Pequeno ser sua mágica
faz brilhar a noite trágica.

Insignificante ser,
ninguém o iguala em poder,
capaz de transformar tudo
com o pensamento mudo.

Um ponto no nada imenso
difunde calor intenso.
O não ser abre a cortina
do mundo que o contamina.

Mardilê Friedrich Fabre




Alucinações

Vejo-te em todos os meus sonhos.
Lembro teus olhares risonhos.
São tão profundas as saudades
Que não reconheço as verdades.

Findou o tempo da magia
Em que tudo era poesia.
Os dias correm vagarosos
Entre períodos dolosos.

Lamento pelo que não foi
(Ainda imagino teu oi),
Por aquele sorriso largo
Que me tirava do letargo.

Alucina-me a tua voz.
Ouço-a em cada momento algoz
Perco-me na tua lembrança,
Fundo-me em tua graça mansa.

Mardilê Friedrich Fabre


Amor de Carnaval

Dançam no tapete de confete
Corpos perfumados de alegria.
O olhar da dançarina coquete,
Inebriado de fantasia,
Surpreende um Pierrô deprimido.

Levada pela algazarra vai,
Estende-lhe a mão do devaneio,
E ele sedento de ilusão cai.
Deslumbra-se ela, coração cheio,
No sorriso, o amor retraído.

Só uma noite de Carnaval,
Entre cortinas de serpentinas,
Sabendo que o fim era fatal,
Levou-a a emoção das purpurinas.
E o Pierrô? Já não tão preterido...

Mardilê Friedrich Fabre


Oitava intercalada

Composição poética criada por Mardilê Friedrich Fabre, que apresenta como características:

Estrofes: um monóstico,
uma oitava,
um monóstico.
Trata-se de uma oitava intercalada entre dois monósticos;

Métrica: versos octossílabos;

Rima: segue o esquema seguinte: monóstico A,
oitava: BCCBDEED,
monóstico:A .
Entretanto, os versos podem ser brancos (sem rima, mas com métrica) ou livres (sem rima e sem métrica);

É intitulada;

Aborda todos os temas.

Ao sabor do vento

O vento despenca uma folha.

Em lágrimas desfeita cai
No chão que a fere, e sangra a pobre.
Logo, logo, outra mais a encobre,
E ela ali, débil, sem um ai.
Ao sabor do vento, é jogada
Pra lá e pra cá (tão sozinha!)
Não é mais verde nem rainha
Das folhas da árvore (é nada!)

Reza, pois. Que alguém a recolha!

Mardilê Friedrich Fabre