Cadeira 77 - J.G. de Araújo Jorge // Giselda Camilo


J. G. DE ARAUJO JORGE 
(José Guilherme de Araujo Jorge)
Poeta, político, jornalista e publicitário
Nasceu: 20 de Maio de 1914
Local: Vila de Tarauacá - Acre
Faleceu: 27 de Janeiro de 1987
Movimento Literário:
Apesar de ter publicado mais de três dezenas de obras e do êxito editorial de quase todos os seus livros, Araujo Jorge nunca foi reconhecido pela crítica literária. Raramente os grandes jornais publicavam alguma apreciação sobre seu trabalho, o que ele chamava de "conspiração do silêncio". O fato é que J.G. foi um dos poetas mais populares que o Brasil já teve e o único que vendeu mais de um milhão de livros. Entre as décadas de 60 a 80, os versos de J.G. estavam nos cadernos de poesia dos jovens, eram declamados em festas e recitais e difundidos em programas radiofônicos, jornais e revistas de todo o País.
Sua poesia está viva até hoje, emocionando os corações enamorados e traduzindo seus desejos, angústias e esperanças.
Ele se orgulhava de ser um homem que vivia intensamente. Foi professor, jornalista e publicitário de sucesso. Na época ficou muito conhecido por seus jingles, que garantiam sucesso a qualquer produto que anunciavam. Um deles é lembrado até hoje: "Isso faz um bem", da Coca-Cola.
J.G. também foi advogado a político de destaque. Em 1970 foi eleito deputado federal pelo MDB, sendo reeleito por mais dois mandatos consecutivos. Tinha uma presença ativa na tribuna, apresentando projetos relevantes. Um deles, o que propunha comemorar nas segundas-feiras o feriado que ocorresse durante a semana, foi, inclusive, transformado em lei pelo presidente José Sarney.
J.G. dizia que é possível aprender a fazer versos, mas nunca a ser poeta. "Poesia não é só construção. Senão, poderíamos abrir uma escola para poetas, como há uma escola de Engenharia ou de Direito. Quanto a mim, já respondi: Eu faço versos assim/ como quem respira e canta/ a poesia nasce em mim/ como do chão nasce a planta".
Ele também dizia: "O poeta é um tradutor de realidades subjetivas. Um transfigurador. Um mergulhador dos mares do espírito. O poeta é um prestidigitador - faz mágica com a vida. Transforma água em vinho, para a embriaguez da beleza. A poesia é criada pelo pensamento, mas seu material é o sentimento. Cobaia de si mesmos, os poetas, em experiências e pesquisas constantes, revelam a vida, são apenas homens que nasceram poetas. O poeta é como um alpinista, que já nasceu trazendo em si mesmo os instrumentos e apetrechos para poder realizar escaladas.


Dedicatória

Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta cousa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!

Poema de J. G. de Araujo Jorge


Nos 103 ANOS DO NASCIMENTO DE J.G. DE ARAÚJO JORGE

20 de maio de 1914, às 23:30h, nascia o "poeta de massas de maior projeção no Brasil": José Guilherme de Araújo Jorge, na então Vila Seabra, hoje, Tarauacá.

Minha maior alegria
Minha glória humilde e nua
É ver minha poesia
Fazer ciranda na rua.

J G de Araujo Jorge


Trovas De Ciúme

"Dosado", o ciúme é tempero
que à afeição dá mais sabor...
Mas, levado ao exagero,
é o pior veneno do amor...

Cão de guarda, ameaçador,
a rosnar, furioso e cego
eis afinal, meu amor,
este ciúme que carrego...

Do amor e da desconfiança
infeliz casal sem lar,
nasceu o ciúme, - essa criança
tão difícil de educar...

Perigoso, onipotente,
verdadeiro ditador...
o ciúme é um cego, doente,
ou um doente, cego de amor?

Eis como o ciúme defino:
mal que faz mal sem alarde
corte de alma, muito fino,
que não se vê... mas como arde!

O ciúme, desajustado,
por louco amor concebido,
era uma amante, (coitado)
a padecer... de marido!"

J. G. de Araujo Jorge


Meu Coração

Eu tenho um coração um século atrasado
ainda vive a sonhar... ainda sonha, a sofrer...
acredita que o mundo é um castelo encantado
e, criança, vive a rir, batendo de prazer...

Eu tenho um coração - um mísero coitado
que um dia há de por fim, o mundo compreender...
- é um poeta, um sonhador, um pobre esperançado
que habita no meu peito e enche de sons meu ser...

Quando tudo é matéria e é sombra - ele é uma luz
ainda crê na ilusão, no amor, na fantasia
sabe todos de cor os versos que compus...

Deus pôs-me um coração com certeza enganado:
- e é por isso talvez, que ainda faço poesia
lembrando um sonhador do século passado
J. G. de Araújo Jorge


A BICICLETA

Me lembro, me lembro
foi depois do jantar, meu avô me chamou,
tinha um riso na cara, um riso de festa:

- Guilherme, vou tapar seus olhos,
venha cá.

Os tios, os primos, os irmãos, na grande mesa redonda
ficaram rindo baixinho, estou ouvindo, estou ouvindo:

- Abre os olhos, Guilherme!

Estava na sala de jantar, junto da porta do corredor,
como uma santa irradiando, num altar,
como uma coroa na cabeça de um rei,
a bicicleta novinha, com lanterna, campainha, lustroso selim de couro,
tudo.

Me lembrei hoje da minha bicicleta
quando chegou a minha geladeira.

Mas faltou qualquer coisa à minha alegria,
talvez a mesa redonda, os tios, os primos rindo baixinho,

- abre os olhos, Guilherme!

Oh! Faltou qualquer coisa à minha alegria!

J. G. de Araujo Jorge

Os versos que te dou

Ouve estes versos que te dou, eu
os fiz hoje que sinto o coração contente
enquanto teu amor for meu somente,
eu farei versos...e serei feliz...

E hei de fazê-los pela vida afora,
versos de sonho e de amor, e hei depois
relembrar o passado de nós dois...
esse passado que começa agora...

Estes versos repletos de ternura são
versos meus, mas que são teus, também...
Sozinha, hás de escutá-los sem ninguém que
possa perturbar vossa ventura...

Quando o tempo branquear os teus cabelos
hás de um dia mais tarde, revivê-los nas
lembranças que a vida não desfez...

E ao lê-los...com saudade em tua dor...
hás de rever, chorando, o nosso amor,
hás de lembrar, também, de quem os fez...

Se nesse tempo eu já tiver partido e
outros versos quiseres, teu pedido deixa
ao lado da cruz para onde eu vou...

Quando lá novamente, então tu fores,
pode colher do chão todas as flores, pois
são os versos de amor que ainda te dou.

(Do livro "Meu Céu Interior" - 1934)
J. G. de Araújo Jorge


Falta de Ar

Há dias que posso passar sem sol, sem luz,
sem pão,
sem tudo enfim...

( Tenho até a impressão de que não preciso de nada...
... nem mesmo de mim...)

Mas há dias, amor... ( e parece mentira)
- nem eu sei explicar o porquê
de tão grande aflição -

em que não posso passar sem Você
um segundo que seja!
- de repente preciso encontrá-la, é preciso que a veja -

- Você é o ar com que respira
meu coração !

J. G. de Araújo Jorge


O verbo amar

Te amei: era de longe que te olhava
e de longe me olhavas vagamente...
Ah, quanta coisa nesse tempo a gente sente,
que a alma da gente faz escrava.

Te amava: como inquieto adolescente,
tremendo ao te enlaçar, e te enlaçava
adivinhando esse mistério ardente
do mundo, em cada beijo que te dava.

Te amo: e ao te amar assim vou conjugando
os tempos todos desse amor, enquanto
segue a vida, vivendo, e eu, vou te amando...

Te amar: é mais que em verbo é a minha lei,
e é por ti que o repito no meu canto:
te amei, te amava, te amo e te amarei!

(Do livro - Bazar de Ritmos - 1935)
J. G. de Araújo Jorge


GOSTO QUANDO ME FALAS DE TI

Gosto quando me falas de ti... e vou te percorrendo
e vou descortinando a tua vida
na paisagem sem nuvens, cenário de meus desejos
[tranqüilos

Gosto quando me falas de ti... e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhavas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs...

Gosto quando me falas de ti... quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.

Gosto quando me falas de ti... e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.

Gosto quando me falas de ti... porque percebo que te
[desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão..."

(Do livro "Quatro Damas" 1ª Edição, 1965)
J. G. de Araujo Jorge