Cadeira 82 - Kheni Macovela


Membro da AMCL, Cadeira 82, Kheni Macovela é Moçambicano nascido em 28 de Novembro de 1982 na paradisíaca província de Inhambane. Escreve poesia desde 1998, com poemas de dedicação a Africanidade. Desde esta aparição passou a interessar-se em ler poemas de Rui Knopfli e António Aleixo e contemplar as lindas praias da sua terra (sua principal inspiração). Kheni Macovela é Mestre em Saúde Pública e professor de profissão. Publicou seus primeiros poemas num boletim da publicação da Escola Secundária Emília Daússe, para além de ter publicado dois e-books:  Quem Sou? (poesia em www.escrytos.com/leyaonline.com) e  Prisão Perpétua (romance em www.editoradocarmo.com). Para além destes livros já publicou :  Pesquisas em eduardo-mondlane.academia.edu/SimaoMacovela e www.linkedin.com/in/simao-natingue-macovela-aa31aa5b; Poemas e crónicas em www.facebook.com/khenimacovela.




Ó PAZ
Ó felicidade por tudo e todos desejada
por homens, mulheres e rapaziada
sua casa é o coração da gente desta terra:
bem haja, túmulo alegre da guerra!

Vens vivendo à temos idos, Paz tão desejada
guerreando os mortíferos metais da banda
só para seus lindos filhos gerar e connosco deixar
neste mundo que bendito e lindo é amar

Paz,
chegue aos moçambicanos, limpe a dor que lhes faz
viajantes em sua própria terra, mendigos alheios
às vontades de seus pobre devaneios.

Paz, sirva, a meus concidadãos, seu delicioso prato
para que deixem à centenas de anos passados, seu pranto
e continuem caminhando no jardim da pura alegria
e sonhem na riqueza do seu moçambicano dia-a-dia.


O QUE SOU
Não preciso me apresentar ao mundo
apenas meus sonhos respondem por mim:
por estas palavras sagradas e brilhantes
e pela ousadia de com elas brincar. 


CARTAS DE AMOR

Lembro-me de muitas palavras que apenas as via
quando o tempo favorecia a minha visão deliciar-se
das encantadas imagens milimétricas,
que jaziam em planos dobrados com carinho.

O tempo passou e a consciência mudou;
O pensamento virou e rumou a outros ventos;
deixando para trás as demoras que se sentiam
na busca de corantes para as várias palavras
que jaziam em papéis dobrados com carinho.

Não sei se outra razão existe ou sempre existiu,
para derrocada dos meus e hábitos da humanidade,
Pois, quanto mais cresce a tecnologia
Mais pobre fica a capacidade de olhar para o papel
e escrever palavras de amor como aquelas
que jaziam em envelopes dobrados com carinho.

Sim, já não faço e não recebo cartas de amor.
Não sinto o prazer de correr à portaria e receber
aquele homem de balalaica, chapéu, maleta e esferográfica
me conectando ao meu amor que, vivendo distante,
me dedica um envelope e embrulho cromado,
envolto de todos desejos lacrados pelos beijos;
e sentir que minha doce amada mandou-me palavras
que jazem em cartas seladas de amor!


À NOITE
Vi esse beijo acontecer
naquela noite dourada...

Andaram lado a lado;
pela rua, estrada,
no quarto ou no jardim...

Vi-as andando juntas
berrando friamente naquela noite,
vendo-se galgando avenidas
e atravessando pontes...

Vi-as se beijando:
a estrela da noite
e a lua a minguar crescente...


SEMPRE CONTIGO, MÃE...

Sobre aqueles caminhos de Macovela
vejo teus pés trémulos da idade,
e radiante como a chama da vela
te imagino na força da tua mocidade !

Teus pés ainda pisoteiam firmes, a terra!
Deixam para trás o calor maternal;
Calor que antes, durante e após a guerra
me aqueceu e protegeu de todo mal.

Mas como o sol brilhante,
teus olhos se foram deitar no trás-os-montes
Deixando tristeza em toda gente
que queria te ver em todos vitais instantes.

Mãe, tú não morreste;
Apenas te escondeste deste presente,
do Norte ao Sul, do Este a Oeste...
Mas em minha vida estás sempre presente...

O sol se pós sobre ti, deixando para trás a escuridão....

07.2016



CANÇÃO A MEUS PAIS

Levo guardado no fundo do peito
palavras aprendidas durante o tempo
que meus pais me ensinavam o jeito
de vencer todo alheio temperamento!

São palavras leves, cheias de amor
que sem imaginar me faziam Homem
essas que nasciam do meu grato Criador
e que hoje se foi como sombra de nuvem.

Me desculpem meus grandes heróis,
pelos momentos falsos que me enrolava
e me dava carapuça, como duros caracóis.

Descobri que a vida não é parva
mesmo entediada e ardendo destes sóis,
continuará me educando como sempre dava.


ORGULHO

Passado:
Nasço desta nobre e quente terra
que me mostra dor, tristeza e guerra
mas não me deixa crescer sozinho
a voar como um solitário passarinho!

Presente:
Busco a recente e diária verdade
sobre socalcos desta grande cidade,
calcando, sôfrego, estes momentos
que me cosem aos alheios tormentos

Futuro:
Só meus pés nus conhecem
a marcha deste pobre Homem;
se galgo firme e de frente
meu passado ou presente...

O que é:
Sinto que sou o mundo que piso dia a dia
mas tenho orgulho daquela fasquia
de terra que ouviu meu primeiro choro
e na minha mente sempre namoro...


QUEM SOU?

Quem sou?
Não me conheço,
não tenho noção de mim...

Quem sou?
Sou alguém para o mundo
ou simples planta móvel?

Quem sou?
Estou por entre paz e guerra,
sou feito de frio e calor;
colocado entre vácuo e terra,
construído de ódio e amor...

Quem sou?
Ser desprovido de independência,
algo estranho e iníquo,
bicho sem obediência,
pedra móvel, sem afinco...

Quem sou?
...uma palavra ou letra,
um cheiro ou náusea,
sacio ou lavra,
um sol ou lua efémera...

Afinal quem sou...?

Direitos autorais reservados (Kheni Macovela)


La ao longe
vão as ondas discutindo com pedras,
pedindo e abrindo novos caminhos
para refrescar a praia por onde ando

20/03/2017