Cadeira 83 - Geraldo Altoé


Geraldo Altoé, nascido no distrito de Conquista, município de Castelo - ES - Estudou letras na UFES, curso incompleto. Funcionário Público aposentado, escritor e poeta OBRAS: PELAGOS DA ALMA, Poesias; / GOTAS DE ORVALHO, poesia; / UMA ESTÓRIA DE AMOR, romance e poesias; / ENSAIO FILOSÓFICO, ensaio e filosofia; / TERNURA PARA AS LÁGRIMAS, poesias; / SUSPIROS POÉTICOS, poesias; / AMOR E TERNURA, poesias (Editora Virtual Book). Gratuito para download. / A VOZ DO POETA, poesias; SERRA EM PROSA E VERSOS, poetas e escritores da Serra-ES / SONETOS, poesias, Grupo Editorial Scortecci. Há ainda participação em sites e diversas coletâneas não mencionadas.



ESCREVER COM FLORES

Escrevo este poema com uma flor...
Eu a colocarei dentro de um livro
E o levarei ao meu amor...
E ela saberá tudo o que eu disse
Nas palavras nunca ditas...


AOS OLHOS DO POETA

Já fui ao céu, das deusas mais bonitas
No camarim divino ouvi as preces...
A lua se interveio no infinito,
E um céu de estrelas vi quando arrefecem.

Brilhar nos céus... na alvorada, o encanto,
No horizonte lábios camarins,
O sol como um rebento no oceano
Nascendo dentro d'alma, dentro em mim,

E era um arrebol, nascer do dia,
E era uma alvorada simplesmente
Quais 'quelas que acontecem todo dia...

Mas eu não via assim, via a poesia,
Eu tudo via ali, via uma estrada
Que dá a um céu de musas, tudo eu via...


NAMORANDO A LUA

Ontem estavas linda lá no céu,
E eu fui namorar-te lá na praia.
As nuvens ralas como um imenso véu
Desciam até o mar. A luz que espraias

Formavam um tapete sobre as águas.
Estavas linda ontem, as virações
Trocavam tuas vestes quando em quando
Vestias ora um manto, ora anágua

De nuvens que ao céu iam passando.
Estavas linda! E eu cá na areia
Ficava a te fitar te namorando...

Estavas linda ontem, eu comovido
Eu via ao mar um bando de sereias
E balbuciava amor aos teus ouvidos.


A POESIA EM MEIO AO CAOS

Não queria fazer mais uma poesia,
Mas de cara vi a lua lá no céu,
Brincava o mar com ela em meio a um véu
De doces ilusões, de fantasias...

E ao mar a luz se espraia, e refletia
Surfando dobre as ondas nas marés,
E um manto de luar se estendia
E vinha terminar cá em meus pés.

E um doce dentro em mim se precipita,
Mas penso que a vida de hoje em dia
Não cabe mais amor e nem poesia.

Mas mesmo assim escrevo esse poema
Pensando em outro mundo, em outra cena
Onde haja mais amor, mais alegrias.


FELICIDADE

Felicidade é um passarinho que pousa em nosso ombro
E vai em bora,
E saímos desesperadamente a procura-lo,
E tanto sonhamos com ele
Que parece existir em nossa mente.
Felicidade é fugaz como um vento.

Geraldo Altoé


MINHA TRAJETÓRIA
Eu sou um tardio como um jacarandá
Que mostra do seu cerne o glamour.
E o passar dos anos fez me dar
As copas florescendo-se à luz.
Venci as capoeiras, pus-me ao cimo,
Com meus esforços fui galgando os ares,
E hoje eu olho o mundo lá de cima
Não tenho mais inveja dos pomares.
Não sou tão grande assim, vivem ao meu lado
Quem faz melhor que eu versos em flor.
Mas para mim apenas ser alado
Eu sinto-me um grande vencedor.
Eu faço da poesia o meu fado,
E parafraseando, meu condor.


FORA EMBORA MINHA INÊS

Crista o rochedo a lua na trincheira
E acende os jardins nos vales rotos.
O mocho pia ali galgado ao toco,
E o alísio a balouçar as bananeiras...

E tudo ali é Inês, a natureza
Envolta em nostálgicos momentos,
E as águas repetindo seus lamentos
Nos ais que as pedras causam à correnteza...

E eu aqui distante vento tudo,
E a replicar lembranças, com certeza
A lua é a mesma lua, eu a vejo, mudo

A remoer a sós minha tristeza...
Mas o luar que vem, por que me iludo,
Não traz de volta aqui minha princesa.


CÂNTICO AO AMOR

Há uma coisa roçagando em mim,
Um borbulhar na alma, uma canção,
Ou uma dor, talvez, no coração;
Um começo talvez, talvez o fim...

Se o olhar que eu tanto admiro
Nos olhos meu os olhos fixassem.
Tu, talvez ali, nos meus suspiros...
Nos lábios meus, ó amor, tu te encontrasses...

És noite, és luar e primavera,
E o vento que recria novas dunas,
E os campos enfeitados pelas brumas...

E nada mais tu és do que uma flor
Que aos campos indeléveis tu perfumas,
Tu és o amor e as lúdicas quimeras.


TEUS CARINHOS

Lambes minha alma com essa língua doce,
Bebes meus desejos com esses lábios lisos...
Entrego-me aos caprichos como se eu fosse
O dócil cachorrinho no teu braço amigo...

Arrancas-me dos poros roçagando os dedos
O mel de uma carícia, murmurando exclamas
As juras sibilantes de fatais segredos,
E mais e mais o corpo a se arder em chamas...

Visitas os meus pontos, levas-me à loucura
E trazes aos meus lábios cheios de desejos
O beijo sussurrando as mais loucas juras.

E matas-me, e mordes, agoniza e choras
Com o veneno aos lábios, ainda dada ao pejo
O meu delírio acalmas, e me socorres.


SONETO PARA MINHA MÃE
Na data de um ano de sua falta

Falava com uma rosa em meu jardim:
Eu sempre que aqui passo te fitando
Tu lembras-me de um amor eterno e brando,
Um amor que não se apaga dentro em mim.

E quando tu faleces, outra vem
E a mesma impressão ela me traz;
E as dores sinto as mesmas, e também
A mesma falta sinto que ela faz.

E é assim que a vida vai andando.
Um dia atrás do outro.e eu vou passando
E vendo as flores novas que vêm vindo,

E a cada vez que passo vou sentindo
e agradecendo aquelas flores lindas
que vão de minha mãezinha me lembrando


EU E INÊS NA ADOLESCÊNCIA

Estava a brincar no paraíso
Onde as ninfas dançam sensuais.
E avistei Inês, com seu sorriso
Fitava-me Inês lá do umbral...

Fitava Inês, e Inês também fitava-me
Com a hipnose doce do amor...
E o mel de uma ternura iluminava
Um vale ao descampado todo em flor...

E então nos encontramos sob as plantas
E aos beijos de amor nos escondíamos
Nas copas, e em copulas unimo-nos.

E a brisa nos levava, e as flores todas
Lançavam-nos perfume em romaria,
Quase era manhã, raiava o dia.


PASSEANDO COM INÊS

É quinta feira Inês, hoje é meu dia,
Eu nem preciso mais falar de dor.
Esqueço da tristeza, a alegria
É declamar teu nome com fervor.

E quando eu o declamo a academia
Se enche de ternura e de glamour.
Poetas, outros membros se arrepiam:
É Inês ali, é mesmo a linda flor.

E vou, aos versos meus vais delirando
Ouvindo o teu poeta encantador.
E as carruagens todas vão parando

E abrem para nós um corredor...
É Inês, é Inês! Gritavam: Está chagando
A mais linda princesa do amor.


ONDE HÁ POESIA

No murchar das flores não há poesia
Nem há poesia quando ao peito há dores,
Se ao raiar do dia não vemos as cores,
Se não temos mundo com paz e alegria...

A poesia vive no silêncio da alma,
No correr das águas num regato ao campo;
No esvair da noite, no luar, na calma
Dos alísios ventos, no rolar de um pranto.

A poesia é viva nos olhos amantes
Quando a despedida nos divide ao meio,
Vive a poesia num olhar distante
A meditar no amor que vive ao braço alheio.


CÂNTICO AOS ENFERMOS

Por que chorar a morte quando a vida
Nos é uma estrada de mortais segredos?
Trilhar o mundo é vagar sozinho,
Filhos perdidos na procela ao mar...
A morte, o encontro, o cair nos braços.
E receber o leito lá no lar paterno.

Oh náufragos... Navegar a esmo
Como a abelha exausta que pousou na prancha...
Quando o Céu é flores...
Fugir da morte é negar o berço,
Migrar de estrelas para um mundo escuro;
Deixar a rede na varanda armada
E dormir no solo de um porão impuro.

Morre-se; e vê-se o irmão querido
Que um dia adormeceu no Paraíso,
Olhar em seu olhar junto entre nós,
Correr... E abrindo os braços
Senti-lo após...

Ver belezas tantas nunca imaginadas,
Percorrer o espaço como um bando de aves,
Flutuar na aurora boreal vagando
Levado pelos Deuses em douradas naves.

Por que chorar a morte quando a vida
Nos é noturna estrada de segredo e dor?
Trilhar o mundo é driblar espinhos,
E relutar no abismo, e padecer no amor.

20-21/04/1989

Geraldo Altoé