Cadeira 83 - Narciso Araújo // Geraldo Altoé


No dia 16 de abril, marca a data do falecimento do advogado e poeta Narciso Araújo, uma das mais brilhantes mentes da meada do século passado no país.Nascido em 1877, em Brejo dos Patos, então localidade de Itapemirim, estudou na famosa Escola Pedro II, no Rio de Janeiro, onde tem seu mome gravado no panteão dos alunos brilhantes. Formou na não famosa Faculdade de Direito do Largo do Machado. Poeta teve uma ativa participação no movimento Simbolista junto com Cruz e Souza,, Nestor Vitor e Raul Pederneira. No auge de sua vida intelectual e para o deserpero dos amigos, volta para o Itapemirim. Segundo pesquisa pessoal, foi devido a uma dívida financeira da família. Sinaliza ainda uma profunda ajuda desse capixaba no Movimento Modernista de 22, o maior evento de mudança na literatura brasileira.

Viveu o resto de sua existência na bucólica Vila do Itapemirim. Relatam que diversas pessoas vinham ao município para receber do Dr. Narciso, como era tratado, seu aval nas questões jurídicas. Poliglota, espiritualista, uma erudito em sua época, foi homenageado em 1941 como "Principe dos Poetas Capixaba".

Sua vida foi de uma quase exclusão. Ficou conhecido como :"O Solitário de Itapemirim". Um dos momentos de maior prazer do poeta era as caminhadas noturnas com sua amiga Maria Magdalena Pisa pelas taciturnas ruas da sede. Essa pedagoga é uma história a parte. Uma mulher a frente do seu tempo, em 1961, então Secretária de Educação Estadual, deu o nome da escola hoje existente na Praça Domingos Martins, o nome do seu amado Narciso Araújo.Afirmam pessoas presentes em seu enterro que Magdalena Pisa deixou sobre o seu caixão cartas trocadas entre os dois envolta em um plástico.

Narciso Araujo, escreveu muitas poesias, todas manuscritas e inéditas em simples cadernos. Uma pessoas confidenciou-me que às tem.Provavelmente do seu período final na Vila do Itapemirim.Recuperá-las é de fundamental importância para a história e a poesia.

Seu único livro Poesias editado pela José Olimpio, se encontra na Biblioteca de Itapemirim, numa condição não muito boa. As atendentes guarda, o único exemplar existente como uma relíquia. Sugiro que essa livro de poesias seja reeditado e ofertado a cada criança do nosso querida Itapemirim. Resgatar a obra e a vida de Narciso Araújo é resgatar a tão obscura historiografia brasileira. É mostrar para o mundo a grandeza de um homem que viveu e morreu em nosso abençoada solo, mas continua para muitos "O Solitário de Itapemirim".



TARDES

Quando a tarde vem vindo e o crepúsculo desce
como uma ampla asa, e atrista os horizontes quedos,
eu creio ouvir, pelo ar, turturinos de prece,
uns murmúrios de amor, um frufruar de segredos.

Um sino badalando, aos poucos, esmorece;
a tristeza do bronze acorda n"alma medos,
e a almas sentem frio: - um frio que parece
vir o pólo da morte, através de degredos.

Há também tardes n"alma. Há mudez. Crepuscula.
O sino da saudade acorda e abre o passado
- livro que se fechou, sonho que não arrula.

E ansiamos reviver as esperanças mortas!
E ansiamos reentrar nesse templo doirado!
e - ai de nós! - um nevoeiro esconde-nos as por


A SAUDADE

A João Ribeiro

A saudade comum, essa consiste
em nos rememorar cada momento
quer que seja, cujo afastamento,
pungindo-nos o peito, o torna triste.

0utra saudade, todavia, existe
que nos agita. Vem do firmamento
no clarões do luar, e o pensamento,
por mais firme e tenaz, lhe não resiste.

É a saudade de ignotas primaveras,
é a saudade de quadros incriados,
é a saudade de coisas nunca tidas,

é a saudade infecunda das esferas,
onde os astros rolaram, conglobados,
desde as fundas idades escondidas.

Poesias, 1ª. parte, 1900-1915 (1942)


TÚMULO - NARCISO ARAUJO
Publicado por Alexandre Tambelli às 15:52
TÚMULO

Um dia a morte, cega, inquebrantável, treda,
que distribui o frio a cada sepultura,
com esse frio há de vir, vagueando, à procura
de teu seio floral, de teu corpo de seda.

Ela há de ir, caçadora impiedosa e segura,
cega, mas sem errar, pela única vereda
que a ti se vai, por essa estrada azul de leda
que eu de sonhos junquei e o meu sonho emoldura!

Então, nessa hora fria, ó minha divindade,
dos meus sonhos farei um caixão branco e leve,
perfumado de amor, orvalhado de saudade,

e em versos alçarei o teu caixão bonito,
para guardar teu corpo - imaculada neve -
no seio de uma estrela, a luzir no infinito...

Narciso Araujo - Poesias, 1ª Série, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1942. (págs. 128 e 129). Extraído da 2ª parte (poemas escritos entre 1916 e 1930). Poeta simbolista do Estado do Espírito Santo, nasceu em 6 de agosto de 1877 e faleceu em 16 de abril de 1944. Viveu parte da vida no Rio de Janeiro, onde, foi aluno exemplar do Colégio Pedro II. Trabalhou no Rio de Janeiro até sanar as dívidas comerciais de seu pai. Voluntariamente, se exilou, após, sanadas as dívidas, sendo até Deputado do Congresso Estadual do Espirito Santo, onde sua consciência ficou desiludida. Após, regressou para sua cidade Natal: Cachoeiro do Itapemirim, no seu tempo uma pequena vila, vivendo uma vida simples e poética. Recebeu em vida o título de Príncipe dos Poetas Capixabas. É conhecido em nossa Literatura como: o solitário do Itapemirim. Um dos maiores sonetistas do Brasil. Foi amigo de Raul Pederneiras, Félix Pacheco, Cruz e Sousa, Nestor Victor e outros grandes poetas de seu tempo.

SONHAR

Vale a pena sonhar. O sonho alenta
e enflora a vida, o sonho a fortalece.
Ao clamor das nortadas da tormenta
o lábio sonhador murmura a prece.

A vida, muitas vezes, é um deserto
tão árido e de tão combusta areia,
que somente o sonhar nos abre, perto,
cantando, uma água viva que colmeia.

Quando, em gritos, na terra, arde a contenda
de idéias vãs e aspirações pequenas,
feliz a alma que sonha e busca a lenda
dessas alturas límpidas, serenas!

Feliz quem pode levantar sua ânsia,
na asa clara e fugaz da poesia,
para esse eterno azul, que sabe a infância
de cada estrela que de lá radia ...

Esta luta, no mundo, de hostes brutas,
incoerentes, bárbaras, selvagens,
não vale nada ante essas impolutas
constelações das célicas paisagens.

O sonho, sim... é que nos aproxima,
enquanto tudo vai no mundo, a rastros,
da seara que guarda lá em cima
toda a imortal vegetação dos astros.

O sonho, sim... nos leva a essas esferas,
pátrias gloriosas e galhardos mundos,
mundos eternos, onde as primaveras
têm seios mais sadios e fecundos.

O sonho, sim... percorre a trajetória
dos planetas, que rolam nos espaços,
muito acima da vida transitória,
que nós vivemos, de grilhões nos braços.

Vale a pena sonhar. Em redor, quando
tudo enegrece e se espedaça tudo,
é bom ao poeta olhar o céu, sonhando,
sonhando muito, extasiado e mudo,

e, no seu sonho compreender mistérios,
acordar forças que inda estão dormindo,
beber as ondas dos azuis etéreos,
sentir-se imenso espaço infindo.

Poesias, 2a. parte, 1916-1930 (1942)


TRASFIGURAÇAO

Venho de tua casa e de ti trago
Toda a fragrância. Calmo céu se anila
Dentro de mim e lindo sonho mago
Enche minh'alma e, todo azul, cintila.

Vou perturbado e volto como um lago,
Depois de estar contigo. Uma tranquila
Esperança me vem do teu afago
E muda em bronze minha fraca argila.

Tu transformas em trigo o inútil joio,
O paul morto em cristalino arroio
E num gigante intrépido um pigmeu.

Vou ver-te em tua casa, mas, voltando,
Em remígios possantes o ar cruzando,
É um condor que volta, não sou eu.


"Saudade estéril":

A saudade comum essa consiste
Em nos rememorar cada momento
Um quer que seja, cujo afastamento,
Pungindo-nos o peito, o torna triste.

Outra saudade todavia existe
Que nos agita. Vem do firmamento
Nos clarões do luar. E o pensamento,
Por mais firme e tenaz, lhe não resiste.

É a saudade de ignotas primaveras;
É a saudade de quadros incriados;
É a saudade de coisas nunca tidas;

É a saudade infecunda das esferas,
Onde os astros rolaram, conglobados,
Desde as fundas idades escondidas.

Narciso Araújo