Cadeira 96 - Nina Godoy


Neide Maria de Godoy dos Reis, nascida em Piracicaba/SP, usa codinome Nina Godoy. Casa-se aos 17 anos e muda-se para Rio Verde / GO, onde conclui seus estudos, mãe de três filhos e cinco netos. Formada em letras pela Universidade de Rio Verde - UNIRV. Especializa-se em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Federal de Goiás - UFG e em Ensino de Jovens e Adultos pelo Instituto Federal Goiano / IFG. Professora da rede municipal de educação. Embora o gosto pela leitura a acompanhasse desde a infância é somente aos 48 anos que começa a escrever poesias. Escreve para v a ris grupos virtuais de poesias. Tem alguns de seus poemas publicados em duas Antologias pela Editora do Carmo. "Desafio" e "Dez poetas e eu". Dona de um estilo próprio, sem se ater às convenções, expõe os sentimentos soltando a alma para o papel. Assina seus poemas com o codinome de Nina Godoy.




Despedida final

Queria te dizer
uma última
palavra
te dar um
último abraço
beijo olhar

só então virar
as costas
pegar a estrada
e fazer você
adormecer
na minha
memória


Por favor não deixe
amar você

Por favor
não deixe
amar você
é que ando
cansada
amar não é
exercício fácil
e eu já tenho
meio século
de desilusão

por favor
não me deixe
amar você
eu bem sei
o preço
das partidas
e certamente
você
também
vai embora
de mim

por favor
não me deixe
amar você
não me declame
sua poesia
não me ame
ao fim do dia
nem me faça
acreditar
no meu poder
de sedução
eu bem sei
que terei ilusão

por favor
não me deixe
amar você
eu me conheço,
amor
se tocares
minha face
se afagares
os meus cabelos
se num abraço
eu sentir
o teu cheiro
será amor
para sempre

por favor amor
não me deixe
amar você

amor...


Quando

Quando meus olhos
puderam dormir nos teus
meu coração criou
meninices

E o tempo retrocedeu
no espaço
criei fantasias
brinquei com meus
sonhos
viajei no infinito

Quando teus olhos,
fugiram dos meus
voltei de viagem
fechei minha cara
esqueci fantasias

Adormeci os meus
sonhos
tomei banho mar
salguei as feridas
despi as roupas
de menina
para ser sempre,
saudade....


Entrega

Me busco
dentro do poema
e me entrego
em poesias

Se me olhas
me arrepio
se me tocas
desfaleço

Por hora
apenas me leia
e o amor será feito
entre os teus lábios
e a minha alma
que agora lês

Nina Godoy


Sonhos de amor

Velo teu sono
sentada ao pé
da tua alma
venho de longe
trazendo flores
e perfume
para o teu corpo
adormecido
inerte e meu
alinho os lábios
no beijo esperado

as luas seguem
o tempo
e a aurora
desperta
os deuses
e os desejos
te aninho no peito
toco tua pele
e minhas mãos
tomam para si
a tua imensidão

e antes do despertar
te coloco no ninho
cubro tua nudez
com as minhas
saudades
e de leve
levo-te comigo
aos labirintos
dos meus sonhos
de amor

Nina Godoy.


Só feliz agora

Rasgo
do peito
saudades
engulo
o choro
troco
as bolas
dia pela
noite
tristeza
por alegria
sigo
em frente
às vezes
derrapo
volto atrás
inverto
o tempo
as bolas
me lavo
em lágrimas
o quanto
eu quero
e preciso
e se mesmo
assim
te incomodo
me tome
nos teus
braços
e me faça
só feliz
agora

Nina Godoy


Aprendendo a não ser triste

Negocio
com a solidão
e me entrego
docemente
a minha sina

Não há mais lutas
nem confrontos
somente uma alma
solitária aprendendo
a não ser triste!

Nina Godoy


Chama Azul

Quando
a chama
se apaga
a escuridão
vence a beleza

deveria depois
da chama
se colorir
de cor
o coração
que já foi
azul

Nina Godoy




Entre o profano e o divino

De todos os anjos
ela o escolheu

de todas as mortais
ela foi a preferida

houve imortalidade
naquele amor menino

que nasceu profano
e adormeceu divino

porque amá-lo tem sido
sua oração de amor


Amo te amar

Ah, se a volta fosse
tão inesperada quanto
a chegada
não esperaria tanto
com tanta ansiedade
e quando chegasse
de novo teria o trabalho
de te amar outra vez


Dias contados

Desveste-se
de sonhos
inaugura
um período
seco
de pura
realidade

sua vida dupla
chega ao fim
desacredita
do amor
engaveta
ternuras
desativa
lembranças
enfrenta
a desesperança

ah, poeta
seus dias
estão contados

e contando
ninguém
acredita


Tapera I

Um raio de luz
corta o céu dos teus olhos
iluminando
- tapera -
como um raio um foguete
uma alucinação

Corta lenha
acende lareira
e a esperança
Faxina os móveis
vaso de flores sobre a mesa
perfume atrás da orelha
estrelas nos cabelos
sadálias vermelhas
para os pés
no corpo nada mais
que a fome insaciável
cobrindo pudores

E o divino surge
imponente
das nuvens
e dos sonhos
asas abertas
-cansaço-
braços que recebem
e aconchegam
sem pergunta
nenhuma resposta
somente o silêncio
quente do milagre
de novamente
habitar
tapera

Nina Godoy.


Meu retrato

Fico
imaginando
como ele
desenharia
meu retrato
caso
amanhecesse
inspirado
caso
todo
meu amor
tocasse
sua inspiração.

Desenharia
meu jeito
italianado
quase rosa
misturado
a minha caipirês
interiorana?
Não sei!

Talvez
só me
retrate
como
Gonçalves
um retrato
real
com perfil
de solidão.

Nina Godoy


Esperança

Dane-se o politicamente correto
nada do que sinto é coerente
não digo adeus
digo até logo
ainda que o navio parta
sem destino de voltar

Nada me assusta tanto
que a memória gritante
do que quero esquecer
incoerência feminina
nunca esqueço
mas me acostumo
com as ausências

No doce balanço
do meu coração que ama
sem espaço sem medida
em preto e branco e verde
porque não esquecer
é sinônimo de esperança

Nina Godoy.


O sonho

O sonho acordou
em dia de castigo
rodou rodou rodou
abriu a primeira porta
assustou-se com o tempo
e saiu

rodou rodou rodou
abriu a segunda porta
estarreceu-se com a vida
e saiu

rodou rodou rodou
abriu a terceira porta
aninhou-se na noite
e partiu

Nina Godoy


Quem chorou saudades?

E devagarinho
bem devagarinho
desço ruelas
contorno os becos
da minha alma

Vou acendendo
os candieiros
iluminando
meu caminho

Vou deixando rastros
de palitos e cinzas

Carregando comigo
uma dor doce no peito
uma prece nos olhos
e sentimentos
entre as mãos

Vou abrindo caminho
até onde posso
fugindo de quem fui
deixando pistas

Saberei a falta que fiz
e quem chorou
saudades
de mim

Nina Godoy.